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Logo que pude recobrar a presença de espírito, que me abandonara por completo durante o primeiro choque esmagador da notícia de minha tia, propus ao Sr. Dick que viesse comigo à loja de velas e tomasse posse da cama que o Sr. Peggotty acabara de desocupar. A loja de velas ficava no Mercado de Hungerford, e o Mercado de Hungerford era, naqueles tempos, um lugar muito diferente; havia uma colunata baixa de madeira diante da porta (não muito diferente da que existia diante da casa onde o homenzinho e a mulherzinha costumavam morar, no velho barômetro), o que agradou enormemente ao Sr. Dick. A glória de se hospedar sobre aquela estrutura teria compensado, creio eu, muitas inconveniências; mas, como realmente havia poucas a suportar, além da combinação de sabores que já mencionei, e talvez da falta de um pouco mais de espaço, ele ficou perfeitamente encantado com sua acomodação. A Sra. Crupp assegurara-lhe, indignada, que ali não havia espaço nem para balançar um gato; mas, como o Sr. Dick justamente observou para mim, sentando-se ao pé da cama, acariciando a perna: "Sabes, Trotwood, não quero balançar um gato. Nunca balanço um gato. Portanto, o que isso importa para MIM?"
Tentei averiguar se o Sr. Dick tinha alguma compreensão das causas dessa mudança súbita e grande nos negócios de minha tia. Como era de se esperar, não tinha nenhuma. A única explicação que pôde dar foi que minha tia lhe dissera, anteontem: "Agora, Dick, és tu realmente o filósofo que suponho que sejas?" Então ele dissera que sim, esperava que sim. Então minha tia dissera: "Dick, estou arruinada." Então ele dissera: "Oh, de fato!" Então minha tia o elogiara muito, do que ele ficara contente. E então eles vieram para minha casa, e tinham tomado cerveja em garrafa e sanduíches no caminho.
O Sr. Dick estava tão complacente, sentado ao pé da cama, acariciando a perna, contando-me isso, com os olhos bem abertos e um sorriso surpreso, que lamento dizer que fui provocado a explicar-lhe que ruína significava aperto, necessidade e fome; mas logo fui severamente repreendido por essa dureza, ao ver seu rosto empalidecer e lágrimas escorrerem por suas faces alongadas, enquanto fixava em mim um olhar de tão indizível desgraça que teria enternecido um coração muito mais duro que o meu. Tomei infinitamente mais trabalho para animá-lo novamente do que tivera para abatê-lo; e logo compreendi (como deveria ter sabido desde o início) que ele estivera tão confiante apenas por causa de sua fé na mais sábia e maravilhosa das mulheres, e sua ilimitada confiança em meus recursos intelectuais. Estes, acredito, ele considerava à altura de qualquer tipo de desastre que não fosse absolutamente mortal.
"O que podemos fazer, Trotwood?", disse o Sr. Dick. "Há a Memorial..."
"Com certeza que sim", disse eu. "Mas tudo o que podemos fazer agora, Sr. Dick, é manter um semblante alegre e não deixar minha tia perceber que estamos pensando nisso."
Ele concordou com isso da maneira mais veemente; e implorou-me que, se o visse desviar-se uma polegada do caminho certo, o fizesse voltar a si por algum daqueles métodos superiores que estavam sempre à minha disposição. Mas lamento afirmar que o susto que lhe dera foi demais para suas melhores tentativas de dissimulação. Durante toda a noite, seus olhos vagueavam para o rosto de minha tia, com uma expressão da mais lúgubre apreensão, como se a visse emagrecer naquele instante. Ele estava ciente disso e forçava a cabeça a ficar imóvel; mas mantê-la assim imóvel, sentado e revirando os olhos como uma peça de maquinaria, não melhorava em nada a situação. Eu o vi olhar para o pão no jantar (que, por acaso, era pequeno), como se nada mais se interpusesse entre nós e a fome; e quando minha tia insistiu que ele fizesse sua refeição habitual, surpreendi-o no ato de enfiar fragmentos de pão e queijo no bolso; não tenho dúvida de que era com o propósito de nos revigorar com essas economias, quando tivéssemos alcançado um estágio avançado de definhamento.
Minha tia, por outro lado, estava num estado de espírito sereno, o que foi uma lição para todos nós – para mim, tenho certeza. Foi extremamente gentil com Peggotty, exceto quando a chamei inadvertidamente por esse nome; e, por mais estranho que eu soubesse que ela se sentia em Londres, parecia perfeitamente à vontade. Ela ia dormir na minha cama, e eu ia ficar na sala de estar, para vigiá-la. Ela fazia grande questão de estar tão perto do rio, em caso de incêndio; e suponho que realmente encontrava alguma satisfação nessa circunstância.
"Trot, meu querido", disse minha tia, ao me ver fazer preparativos para preparar sua usual beberagem noturna, "Não!"
"Nada, tia?"
"Não vinho, meu querido. Cerveja."
"Mas há vinho aqui, tia. E a senhora sempre faz com vinho."
"Guarde isso, em caso de doença", disse minha tia. "Não devemos usar descuidadamente, Trot. Cerveja para mim. Meia caneca."
Pensei que o Sr. Dick fosse desmaiar, inconsciente. Minha tia sendo resoluta, saí e busquei a cerveja eu mesmo. Como estava ficando tarde, Peggotty e o Sr. Dick aproveitaram a oportunidade para irem juntos para a loja de velas. Despedi-me dele, pobre coitado, na esquina da rua, com sua grande pipa às costas, um verdadeiro monumento de miséria humana.
Minha tia estava andando de um lado para o outro no quarto quando voltei, franzindo as bordas de sua touca de dormir com os dedos. Esquentei a cerveja e preparei a torrada seguindo os princípios infalíveis de sempre. Quando ficou pronta para ela, ela estava pronta para ela, com a touca de dormir na cabeça e a barra do vestido virada para trás sobre os joelhos.
"Meu querido", disse minha tia, após tomar uma colherada, "é muito melhor que vinho. Não é nem metade bilioso."
Suponho que eu parecesse duvidoso, pois ela acrescentou:
"Tut, tut, criança. Se nada pior que cerveja nos acontecer, estaremos bem."
"Eu mesmo penso assim, tia, tenho certeza", disse eu.
"Bem, então por que NÃO pensas assim?", disse minha tia.
"Porque tu e eu somos pessoas muito diferentes", respondi.
"Bobagem e asneira, Trot!", respondeu minha tia.
Minha tia continuou com um prazer tranquilo, no qual havia muito pouca afetação, se é que havia alguma; bebendo a cerveja quente com uma colher de chá e ensopando suas tiras de torrada nela.
"Trot", disse ela, "não gosto de caras estranhas em geral, mas até que gosto dessa tua Barkis, sabes!"
"É melhor que cem libras ouvir-te dizer isso!", disse eu.
"É um mundo dos mais extraordinários", observou minha tia, esfregando o nariz; "como aquela mulher jamais entrou nele com esse nome, é inexplicável para mim. Seria muito mais fácil nascer Jackson, ou algo do tipo, alguém diria."
"Talvez ela também pense assim; não é culpa dela", disse eu.
"Suponho que não", respondeu minha tia, concedendo a admissão a contragosto; "mas é muito irritante. No entanto, agora ela é Barkis. Isso é algum consolo. Barkis é extraordinariamente afeiçoada a ti, Trot."
"Não há nada que ela não faria para provar isso", disse eu.
"Nada, acredito", respondeu minha tia. "Aqui, a pobre tola tem estado a implorar e a rezar para entregar parte do dinheiro dela – porque tem demais. Uma simplória!"
As lágrimas de prazer de minha tia estavam positivamente escorrendo para dentro da cerveja quente.
"Ela é a criatura mais ridícula que já nasceu", disse minha tia. "Eu soube, desde o primeiro momento em que a vi com aquela pobre e amada mãezinha tua, que ela era a mais ridícula dos mortais. Mas Barkis tem seus pontos bons!"
Fingindo rir, ela teve a oportunidade de levar a mão aos olhos. Tendo se aproveitado disso, retomou sua torrada e seu discurso juntos.
"Ah! Misericórdia!", suspirou minha tia. "Sei tudo sobre isso, Trot! Barkis e eu tivemos uma boa conversa enquanto estavas fora com Dick. Sei tudo sobre isso. Não sei aonde essas infelizes moças esperam ir, para falar a verdade. Admiro que não batam com a cabeça contra... contra as ombreiras das lareiras", disse minha tia; uma ideia que provavelmente lhe foi sugerida pela contemplação da minha.
"Pobre Emily!", disse eu.
"Oh, não me fale em pobre", respondeu minha tia. "Ela devia ter pensado nisso, antes de causar tanta desgraça! Dá-me um beijo, Trot. Lamento pela tua experiência precoce."
Quando me inclinei, ela colocou seu copo no meu joelho para me deter e disse:
"Oh, Trot, Trot! E então achas que estás apaixonado! Pois não?"
"Achar, tia!", exclamei, o mais vermelho que pude. "Adoro-a com toda a minha alma!"
"Dora, de fato!", respondeu minha tia. "E queres dizer que a coisinha é muito fascinante, suponho?"
"Minha querida tia", respondi, "ninguém pode fazer a menor ideia do que ela é!"
"Ah! E não é tola?", disse minha tia.
"Tola, tia!"
Acredito seriamente que nunca me passara pela cabeça, nem por um único momento, considerar se ela era ou não. Ressenti a ideia, claro; mas fui de certa forma atingido por ela, como algo inteiramente novo.
"Não é leviana?", disse minha tia.
"Leviana, tia!" Só pude repetir essa ousada especulação com o mesmo tipo de sentimento com que repetira a pergunta anterior.
"Bem, bem!", disse minha tia. "Só pergunto. Não a deprecio. Pobre casalzinho! E então achais que fostes feitos um para o outro, e haveis de levar uma espécie de vida de mesa de jantar de festa, como dois lindos pedaços de confeitaria, não é, Trot?"
Ela me perguntou isso com tanta bondade e com um ar tão gentil, meio brincalhão e meio pesaroso, que fiquei bastante comovido.
"Somos jovens e inexperientes, tia, eu sei", respondi; "e ouso dizer que dizemos e pensamos muitas coisas bastante tolas. Mas amamo-nos verdadeiramente, tenho certeza. Se pensasse que Dora poderia alguma vez amar outra pessoa, ou deixar de me amar; ou que eu pudesse alguma vez amar outra pessoa, ou deixar de amá-la; não sei o que faria – enlouqueceria, penso!"
"Ah, Trot!", disse minha tia, balançando a cabeça e sorrindo gravemente; "cego, cego, cego!"
"Alguém que conheço, Trot", continuou minha tia, após uma pausa, "embora de disposição muito maleável, tem uma seriedade de afeição que me lembra o pobre Baby. Seriedade é o que esse Alguém deve procurar, para sustentá-lo e melhorá-lo, Trot. Seriedade profunda, sincera, fiel."
"Se ao menos conhecesses a seriedade de Dora, tia!", gritei.
"Oh, Trot!", disse ela novamente; "cego, cego!" e sem saber porquê, senti uma vaga e infeliz perda ou falta de algo que me obscurecia como uma nuvem.
"Contudo", disse minha tia, "não quero tirar a presunção de dois jovens nem torná-los infelizes; então, embora seja uma paixão de menina e menino, e paixões de menina e menino muitas vezes – atenção! Não digo sempre! – dão em nada, ainda assim falaremos sério sobre isso e esperaremos por um desfecho próspero um dia destes. Há tempo suficiente para que se torne algo!"
Isso não foi, no geral, muito reconfortante para um amante arrebatado; mas fiquei contente por ter minha tia em minha confiança, e lembrei-me de que ela estava cansada. Então agradeci-lhe ardentemente por essa prova de seu afeto, e por todas as suas outras bondades para comigo; e após um terno boa-noite, ela levou sua touca de dormir para o meu quarto.
Como fiquei miserável, quando me deitei! Como pensei e pensei em ser pobre aos olhos do Sr. Spenlow; em não ser o que pensava ser quando pedi Dora em casamento; na necessidade cavalheiresca de contar a Dora qual era minha condição mundana e libertá-la de seu compromisso se ela achasse conveniente; em como conseguiria viver durante o longo período de meu contrato de aprendizagem, quando não ganhava nada; em fazer algo para ajudar minha tia, sem ver maneira de fazer coisa alguma; em acabar sem dinheiro no bolso, usando um casaco surrado, sem poder dar pequenos presentes a Dora, sem montar elegantes cavalos cinzentos, sem me mostrar sob luz favorável! Por mais sórdido e egoísta que eu soubesse que era, e por mais que me torturasse sabendo que era, deixar minha mente se ocupar tanto com minha própria aflição, eu era tão devotado a Dora que não conseguia evitar. Sabia que era baixo de minha parte não pensar mais em minha tia e menos em mim mesmo; mas, até aí, o egoísmo era inseparável de Dora, e eu não podia deixar Dora de lado por nenhuma criatura mortal. Como fui excessivamente miserável, naquela noite!
Quanto a dormir, tive sonhos de pobreza em todas as formas, mas parecia sonhar sem a cerimônia prévia de adormecer. Ora estava esfarrapado, querendo vender fósforos de Dora, seis pacotes por meio centavo; ora estava no escritório de camisola e botas, sendo repreendido pelo Sr. Spenlow por aparecer diante dos clientes com aquela indumentária arejada; ora estava catando faminto as migalhas que caíam do biscoito diário do velho Tiffey, comido regularmente quando o sino de São Paulo batia uma hora; ora estava tentando desesperadamente obter uma licença para casar com Dora, tendo nada mais que uma das luvas de Uriah Heep para oferecer em troca, que todo o Tribunal dos Comuns rejeitava; e ainda, mais ou menos consciente do meu próprio quarto, estava sempre me revirando como um navio em perigo num mar de lençóis.
Minha tia também estava inquieta, pois ouvia-a frequentemente andar de um lado para o outro. Duas ou três vezes durante a noite, vestida com um longo roupão de flanela no qual parecia ter dois metros de altura, ela aparecia, como um fantasma perturbado, no meu quarto e vinha até o lado do sofá onde eu estava deitado. Na primeira vez, levantei-me sobressaltado, para saber que ela inferira, a partir de uma luz particular no céu, que a Abadia de Westminster estava em chamas; e para ser consultado sobre a probabilidade de incendiar a Rua Buckingham, caso o vento mudasse. Ficando quieto depois disso, descobri que ela se sentou perto de mim, sussurrando para si mesma "Pobre rapaz!" E então isso me fez sentir vinte vezes mais miserável, saber quão desinteressadamente ela se preocupava comigo e quão egoistamente eu me preocupava comigo mesmo.
Era difícil acreditar que uma noite tão longa para mim pudesse ser curta para qualquer outra pessoa. Essa consideração me fez pensar e pensar numa festa imaginária onde pessoas dançavam as horas, até que isso também se tornou um sonho, e eu ouvia a música tocando incessantemente a mesma melodia e via Dora dançar incessantemente a mesma dança, sem prestar a menor atenção em mim. O homem que estivera tocando harpa a noite toda tentava em vão cobri-la com uma touca de dormir de tamanho normal, quando acordei; ou antes, quando parei de tentar dormir e vi o sol brilhando finalmente através da janela.
Havia naqueles tempos um antigo banho romano no final de uma das ruas que saem do Strand – talvez ainda exista – no qual tomei muitos banhos frios. Vestindo-me o mais silenciosamente possível e deixando Peggotty para cuidar de minha tia, atirei-me de cabeça nele, e então fui dar um passeio até Hampstead. Tinha esperança de que esse tratamento vigoroso pudesse refrescar um pouco meu juízo; e acho que fez bem, pois logo cheguei à conclusão de que o primeiro passo que deveria dar era tentar se meu contrato de aprendizagem poderia ser cancelado e o prêmio recuperado. Tomei café da manhã na charneca e voltei para os Dois Comuns, pelas estradas molhadas e através de um cheiro agradável de flores de verão, crescendo em jardins e carregadas para a cidade nas cabeças dos vendedores ambulantes, concentrado nesse primeiro esforço para enfrentar nossas circunstâncias alteradas.
Cheguei ao escritório tão cedo, afinal, que fiquei vagueando meia hora pelos Comuns, antes que o velho Tiffey, que era sempre o primeiro, aparecesse com sua chave. Então sentei-me no meu canto sombreado, olhando para a luz do sol nos canos de chaminé opostos e pensando em Dora; até o Sr. Spenlow entrar, fresco e crespo.
"Como está, Copperfield?", disse ele. "Bela manhã!"
"Bela manhã, senhor", disse eu. "Posso dizer-lhe uma palavra antes de ir ao tribunal?"
"Sem dúvida", disse ele. "Venha ao meu gabinete."
Segui-o até seu gabinete, e ele começou a vestir a toga e a se aprumar diante de um pequeno espelho que tinha, pendurado dentro da porta de um armário.
"Lamento dizer", disse eu, "que tenho algumas notícias bastante desanimadoras de minha tia."
"Não!", disse ele. "Nossa! Não espero que seja paralisia, pois não?"
"Não tem a ver com a saúde dela, senhor", respondi. "Ela sofreu algumas grandes perdas. Na verdade, ela tem muito pouco, praticamente nada."
"Você me as-sombra, Copperfield!", exclamou o Sr. Spenlow.
Balancei a cabeça. "Na verdade, senhor", disse eu, "seus negócios mudaram tanto que desejava perguntar-lhe se seria possível – com um sacrifício de nossa parte de alguma porção do prêmio, claro", acrescentei isso, no impulso do momento, alertado pela expressão vazia de seu rosto, "cancelar meu contrato de aprendizagem?"
Quanto me custou fazer essa proposta, ninguém sabe. Era como pedir, como um favor, para ser condenado ao degredo para longe de Dora.
"Cancelar seu contrato, Copperfield? Cancelar?"
Expliquei com tolerável firmeza que realmente não sabia de onde viriam meus meios de subsistência, a menos que pudesse ganhá-los por mim mesmo. Não temia o futuro, disse – e enfatizei muito isso, como se para implicar que ainda seria decididamente elegível para genro um dia destes – mas, por ora, estava entregue a meus próprios recursos.
"Lamento muitíssimo ouvir isso, Copperfield", disse o Sr. Spenlow. "Muitíssimo lamento. Não é usual cancelar contrato de aprendizagem por tal motivo. Não é um procedimento profissional. Não é um precedente conveniente de modo algum. Longe disso. Ao mesmo tempo..."
"O senhor é muito bom, senhor", murmurei, antecipando uma concessão.
"De modo algum. Não mencione", disse o Sr. Spenlow. "Ao mesmo tempo, ia dizer, se fosse minha sorte ter minhas mãos livres – se não tivesse um sócio – o Sr. Jorkins..."
Minhas esperanças desabaram num instante, mas fiz outro esforço.
"O senhor acha, senhor", disse eu, "que se eu mencionasse isso ao Sr. Jorkins..."
O Sr. Spenlow balançou a cabeça de modo desencorajador. "Deus me livre, Copperfield", respondeu ele, "que eu faça injustiça a alguém; muito menos ao Sr. Jorkins. Mas conheço meu sócio, Copperfield. O Sr. Jorkins não é homem para responder a uma proposta dessa natureza peculiar. O Sr. Jorkins é muito difícil de tirar da rotina. Sabe como ele é!"
Tenho certeza de que não sabia nada sobre ele, exceto que originalmente estivera sozinho no negócio, e agora morava sozinho numa casa perto da Praça Montagu, que estava terrivelmente precisando de pintura; que chegava muito tarde e ia embora muito cedo; que nunca parecia ser consultado sobre nada; e que tinha um sujo e pequeno buraco negro no andar de cima, onde nunca se fazia negócio algum, e onde havia um velho bloco de papel amarelo de cartucho sobre sua mesa, intocado pela tinta, e que se dizia ter vinte anos.
"O senhor se oporia a que eu mencionasse isso a ele, senhor?", perguntei.
"De modo algum", disse o Sr. Spenlow. "Mas tenho alguma experiência do Sr. Jorkins, Copperfield. Quisera que fosse de outro modo, pois ficaria feliz em atender seus desejos em qualquer aspecto. Não posso ter objeção a que você mencione isso ao Sr. Jorkins, Copperfield, se achar que vale a pena."
Aproveitando essa permissão, que foi dada com um aperto de mão caloroso, sentei-me pensando em Dora e olhando a luz do sol roubando dos canos de chaminé pela parede da casa oposta, até o Sr. Jorkins chegar. Então subi ao gabinete do Sr. Jorkins, e evidentemente surpreendi muito o Sr. Jorkins com meu aparecimento lá.
"Entre, Sr. Copperfield", disse o Sr. Jorkins. "Entre!"
Entrei, sentei-me e expus meu caso ao Sr. Jorkins mais ou menos como o havia exposto ao Sr. Spenlow. O Sr. Jorkins não era nem de longe a criatura temível que se poderia esperar, mas um homem grande, manso, de rosto liso, de sessenta anos, que tomava tanto rapé que havia uma tradição nos Comuns de que ele vivia principalmente desse estimulante, tendo pouco espaço em seu sistema para qualquer outro artigo de dieta.
"Você mencionou isso ao Sr. Spenlow, suponho?", disse o Sr. Jorkins, quando me ouviu, muito inquieto, até o fim.
Respondi que sim e disse-lhe que o Sr. Spenlow havia mencionado seu nome.
"Ele disse que eu objetaria?", perguntou o Sr. Jorkins.
Fui obrigado a admitir que o Sr. Spenlow considerara provável.
"Lamento dizer, Sr. Copperfield, que não posso avançar seu objetivo", disse o Sr. Jorkins, nervosamente. "O fato é... mas tenho um compromisso no Banco, se o senhor me der licença."
Com isso, levantou-se com grande pressa e ia saindo da sala, quando ousei dizer que temia, então, que não houvesse maneira de resolver o assunto?
"Não!", disse o Sr. Jorkins, parando à porta para balançar a cabeça. "Oh, não! Eu objetarei, sabe", disse muito rapidamente, e saiu. "Deve estar ciente, Sr. Copperfield", acrescentou, olhando inquieto para dentro da porta novamente, "se o Sr. Spenlow objetar..."
"Pessoalmente, ele não objetou, senhor", disse eu.
"Oh, Pessoalmente!", repetiu o Sr. Jorkins, num tom impaciente. "Asseguro-lhe que há uma objeção, Sr. Copperfield. Sem esperança! O que deseja que seja feito não pode ser feito. Eu... eu realmente tenho um compromisso no Banco." Com isso, ele fugiu de verdade; e pelo que sei, foram três dias antes que aparecesse novamente nos Comuns.
Estando muito ansioso para não deixar pedra sobre pedra, esperei até o Sr. Spenlow entrar e então descrevi o que se passara; dando-lhe a entender que não estava sem esperança de que ele pudesse amolecer o adamantino Jorkins, se assumisse a tarefa.
"Copperfield", respondeu o Sr. Spenlow, com um sorriso gracioso, "você não conhece meu sócio, o Sr. Jorkins, há tanto tempo quanto eu. Nada mais distante de meus pensamentos do que atribuir qualquer grau de artifício ao Sr. Jorkins. Mas o Sr. Jorkins tem um jeito de expor suas objeções que muitas vezes engana as pessoas. Não, Copperfield!" balançando a cabeça. "O Sr. Jorkins não se deixa comover, acredite!"
Fiquei completamente perplexo entre o Sr. Spenlow e o Sr. Jorkins, quanto a quem deles era realmente o sócio que objetava; mas vi com suficiente clareza que havia obstinação em algum lugar da firma, e que a recuperação das mil libras de minha tia estava fora de questão. Num estado de desânimo, que lembro com tudo menos satisfação, pois sei que ainda se referia demasiadamente a mim mesmo (embora sempre em conexão com Dora), deixei o escritório e fui para casa.
Estava tentando familiarizar minha mente com o pior e apresentar a mim mesmo os arranjos que teríamos que fazer para o futuro em seu aspecto mais severo, quando uma carruagem de aluguel vindo atrás de mim e parando bem a meus pés fez com que eu olhasse para cima. Uma mão formosa foi estendida para mim da janela; e o rosto que eu nunca vira sem um sentimento de serenidade e felicidade, desde o momento em que se virara pela primeira vez na velha escada de carvalho com o grande corrimão largo, e quando associei sua beleza suave ao vitral da igreja, sorria para mim.
"Agnes!", exclamei alegremente. "Oh, minha querida Agnes, de todas as pessoas do mundo, que prazer vê-la!"
"É mesmo?", disse ela, em sua voz cordial.
"Quero tanto falar contigo!", disse eu. "É um alívio tão grande para meu coração, só de olhar para ti! Se eu tivesse um chapéu de feiticeiro, não desejaria ninguém além de ti!"
"O quê?", respondeu Agnes.
"Bem! Talvez Dora primeiro", admiti, corando.
"Certamente, Dora primeiro, espero", disse Agnes, rindo.
"Mas tu em seguida!", disse eu. "Aonde vais?"
Ela ia aos meus aposentos para ver minha tia. Como o dia estava muito bonito, ela ficou contente por sair da carruagem, que cheirava (eu estivera com a cabeça dentro dela todo esse tempo) como um estábulo colocado sob uma estufa de pepinos. Dispensei o cocheiro, e ela tomou meu braço, e caminhamos juntos. Ela era como a Esperança personificada para mim. Como me senti diferente num minuto, tendo Agnes ao meu lado!
Minha tia lhe escrevera uma daquelas notas estranhas e abruptas – pouco mais longas que uma nota de banco – às quais seus esforços epistolares geralmente se limitavam. Nela, declarava que havia caído na adversidade e estava deixando Dover para sempre, mas tinha se decidido totalmente a isso, e estava tão bem que ninguém precisava se preocupar com ela. Agnes viera a Londres para ver minha tia, entre quem e ela havia uma afeição mútua há muitos anos: na verdade, datava da época em que eu me instalara na casa do Sr. Wickfield. Ela não estava sozinha, disse. Seu papai estava com ela – e Uriah Heep.
"E agora são sócios", disse eu. "Maldito seja ele!"
"Sim", disse Agnes. "Têm alguns negócios aqui; e aproveitei a vinda deles para vir também. Não deves pensar que minha visita é toda amigável e desinteressada, Trotwood, pois – receio ser cruelmente preconceituosa – não gosto de deixar papai ir sozinho com ele."
"Ele exerce a mesma influência sobre o Sr. Wickfield ainda, Agnes?"
Agnes balançou a cabeça. "Houve tanta mudança em casa", disse ela, "que mal reconhecerias a querida e velha casa. Eles moram conosco agora."
"Eles?", disse eu.
"O Sr. Heep e a mãe dele. Ele dorme no teu antigo quarto", disse Agnes, olhando para o meu rosto.
"Quisera eu poder ordenar os sonhos dele", disse eu. "Ele não dormiria ali por muito tempo."
"Fico com o meu quartinho", disse Agnes, "onde costumava aprender minhas lições. Como o tempo passa! Lembras-te? O quartinho de painéis que abre para a sala de visitas?"
"Lembrar, Agnes? Quando te vi, pela primeira vez, saindo pela porta, com o teu pequeno e peculiar cesto de chaves pendurado ao lado?"
"É exatamente o mesmo", disse Agnes, sorrindo. "Estou contente por pensares nisso com tanto prazer. Fomos muito felizes."
"Fomos, de fato", disse eu.
"Ainda guardo esse quarto só para mim; mas não posso sempre abandonar a Sra. Heep, sabes. E então", disse Agnes, calmamente, "sinto-me obrigada a suportar a companhia dela, quando preferiria estar sozinha. Mas não tenho outra razão para me queixar dela. Se às vezes me cansa com seus louvores ao filho, é natural numa mãe. Ele é um filho muito bom para ela."
Olhei para Agnes quando ela disse essas palavras, sem detectar nela qualquer consciência do designo de Uriah. Seus olhos mansos mas sinceros encontraram os meus com sua bela franqueza, e não houve mudança em seu rosto gentil.
"O principal mal da presença deles em casa", disse Agnes, "é que não posso estar tão perto de papai quanto desejaria – Uriah Heep fica tanto entre nós – e não posso vigiá-lo, se isso não é muito ousado dizer, tão de perto quanto gostaria. Mas se alguma fraude ou traição está sendo praticada contra ele, espero que o simples amor e a verdade sejam fortes no fim. Espero que o amor verdadeiro e a verdade sejam mais fortes no fim do que qualquer mal ou infortúnio no mundo."
Certo sorriso brilhante, que nunca vi em nenhum outro rosto, desapareceu, mesmo enquanto eu pensava como era bom e como me fora familiar outrora; e ela me perguntou, com uma rápida mudança de expressão (estávamos nos aproximando muito da minha rua), se eu sabia como o revés nas circunstâncias de minha tia ocorrera. Ao responder que não, que ela ainda não me contara, Agnes ficou pensativa, e imaginei sentir seu braço tremer no meu.
Encontramos minha tia sozinha, num estado de alguma excitação. Uma diferença de opinião surgira entre ela e a Sra. Crupp, sobre uma questão abstrata (a conveniência de aposentos serem habitados pelo sexo gentil); e minha tia, completamente indiferente a espasmos por parte da Sra. Crupp, cortara a discussão abruptamente, informando àquela senhora que ela cheirava ao meu conhaque, e que teria o trabalho de se retirar. Ambas as expressões, a Sra. Crupp considerou passíveis de ação judicial e expressara sua intenção de levá-las perante uma "Justiça Britânica" – significando, supostamente, o baluarte de nossas liberdades nacionais.
Minha tia, no entanto, tendo tido tempo para se acalmar, enquanto Peggotty estava fora mostrando ao Sr. Dick os soldados na Guarda Montada – e estando, além disso, muito satisfeita em ver Agnes – antes se vangloriou do ocorrido do que o contrário, e nos recebeu com bom humor inalterado. Quando Agnes pôs seu chapéu na mesa e se sentou ao lado dela, não pude deixar de pensar, olhando para seus olhos mansos e sua testa radiante, como parecia natural tê-la ali; como minha tia confiava nela, embora ela fosse tão jovem e inexperiente; como ela era forte, de fato, em simples amor e verdade.
Começamos a falar sobre as perdas de minha tia, e eu lhes contei o que tentara fazer naquela manhã.
"O que foi imprudente, Trot", disse minha tia, "mas bem-intencionado. És um rapaz generoso – suponho que deva dizer jovem, agora – e tenho orgulho de ti, meu querido. Até aí, tudo bem. Agora, Trot e Agnes, encaremos o caso de Betsey Trotwood e vejamos como está."
Observei Agnes empalidecer, enquanto olhava muito atentamente para minha tia. Minha tia, afagando seu gato, olhava muito atentamente para Agnes.
"Betsey Trotwood", disse minha tia, que sempre guardara seus assuntos de dinheiro para si. "– Não me refiro à tua irmã, Trot, meu querido, mas a mim mesma – tinha uma certa propriedade. Não importa quanto; o suficiente para viver. Mais; pois ela economizara um pouco e acrescentara a isso. Betsey investiu sua propriedade por algum tempo, e então, por conselho de seu homem de negócios, aplicou-a em garantias imobiliárias. Isso rendeu muito bem e deu juros muito bons, até que Betsey foi quitada. Estou falando de Betsey como se fosse um navio de guerra. Bem! Então Betsey teve que procurar um novo investimento. Pensou que era mais sábia, agora, do que seu homem de negócios, que não era tão bom homem de negócios como costumava ser – estou me referindo a teu pai, Agnes – e meteu na cabeça aplicá-lo por conta própria. Então levou seus porcos", disse minha tia, "a um mercado estrangeiro; e acabou sendo um mercado muito ruim. Primeiro, perdeu na mineração, e depois perdeu no mergulho – pescando tesouros, ou alguma dessas tolices de Tom Tiddler", explicou minha tia, esfregando o nariz; "e então perdeu na mineração novamente, e, por último, para pôr tudo em ordem, perdeu na banca. Não sei quanto valiam as ações do banco por um tempinho", disse minha tia; "cem por cento era o mínimo, acredito; mas o banco estava no outro lado do mundo e caiu no espaço, pelo que sei; de qualquer forma, desmoronou, e nunca pagará e nunca poderá pagar seis pence; e os seis pences de Betsey estavam todos lá, e é o fim deles. Quanto menos se diz, mais cedo se resolve!"
Minha tia concluiu esse resumo filosófico fixando os olhos com uma espécie de triunfo em Agnes, cuja cor estava gradualmente voltando.
"Querida Srta. Trotwood, é essa toda a história?", disse Agnes.
"Espero que baste, criança", disse minha tia. "Se houvesse mais dinheiro a perder, não seria tudo, ouso dizer. Betsey teria dado um jeito de jogar isso atrás do resto e fazer outro capítulo, tenho pouca dúvida. Mas não havia mais dinheiro, e não há mais história."
Agnes ouvira primeiro com a respiração suspensa. Sua cor ainda ia e vinha, mas ela respirava mais livremente. Pensei saber porquê. Pensei que ela tivera algum receio de que seu infeliz pai pudesse ser de alguma forma culpado pelo que acontecera. Minha tia pegou sua mão e riu.
"É só isso?", repetiu minha tia. "Ora, sim, isso é tudo, exceto 'E ela viveu feliz para sempre'. Talvez eu possa acrescentar isso de Betsey ainda, um dia destes. Agora, Agnes, tens uma cabeça sábia. Também a tens, Trot, em algumas coisas, embora não possa elogiar-te sempre"; e aqui minha tia balançou a sua para mim, com uma energia peculiar a ela. "O que há de se fazer? Aqui está o chalé, umas vezes com outras, renderá, digamos, setenta libras por ano. Creio que podemos fixar isso com segurança. Bem! – É tudo o que temos", disse minha tia; com quem era uma idiossincrasia, como é com alguns cavalos, parar muito abruptamente quando parecia estar a caminho de continuar por um bom tempo.
"Então", disse minha tia, após uma pausa, "há o Dick. Ele vale cem libras por ano, mas claro que isso deve ser gasto com ele próprio. Preferiria mandá-lo embora, embora saiba que sou a única pessoa que o aprecia, do que tê-lo e não gastar seu dinheiro consigo mesmo. Como podemos Trot e eu fazer o melhor com nossos meios? O que dizes, Agnes?"
"Eu digo, tia", intervim, "que devo fazer alguma coisa!"
"Queres dizer, ir para soldado?", respondeu minha tia, alarmada; "ou ir para o mar? Não quero ouvir falar disso. Serás procurador. Não vamos ter pancadas na cabeça nesta família, se fazes favor, senhor."
Eu estava prestes a explicar que não desejava introduzir esse modo de sustento na família, quando Agnes perguntou se meus aposentos estavam alugados por longo prazo.
"Chegas ao ponto, minha querida", disse minha tia. "Eles não podem ser dispensados por pelo menos seis meses, a menos que se possa sublocá-los, e isso não acredito. O último homem morreu aqui. Cinco em cada seis morreriam – claro – por causa daquela mulher de nankim com a saia de flanela. Tenho um pouco de dinheiro vivo; e concordo contigo, o melhor que podemos fazer é morar aqui o resto do prazo e arranjar um quarto perto."
Pensei ser meu dever insinuar o desconforto que minha tia sofreria, vivendo em estado contínuo de guerra de guerrilha com a Sra. Crupp; mas ela descartou essa objeção sumariamente, declarando que, ao primeiro sinal de hostilidades, estava preparada para surpreender a Sra. Crupp pelo resto de sua vida natural.
"Tenho pensado, Trotwood", disse Agnes, timidamente, "que se tivesses tempo..."
"Tenho muito tempo, Agnes. Estou sempre livre depois das quatro ou cinco horas, e tenho tempo de manhã cedo. De um modo ou de outro", disse eu, consciente de corar um pouco ao pensar nas horas e horas que dedicara a vaguear pela cidade e para cima e para baixo na Estrada de Norwood, "tenho tempo de sobra."
"Sei que não te importarias", disse Agnes, aproximando-se de mim e falando em voz baixa, tão cheia de doce e esperançosa consideração que a ouço agora, "com os deveres de secretário."
"Importar-me, minha querida Agnes?"
"Porque", continuou Agnes, "o Doutor Strong agiu conforme sua intenção de se aposentar e veio morar em Londres; e ele perguntou a papai, eu sei, se podia recomendar-lhe alguém. Não achas que ele preferiria ter seu antigo e favorito aluno perto dele do que qualquer outra pessoa?"
"Querida Agnes!", disse eu. "O que faria sem ti! És sempre meu anjo bom. Já te disse isso. Nunca penso em ti de outra forma."
Agnes respondeu com sua risada agradável que um Anjo bom (significando Dora) bastava; e continuou a lembrar-me que o Doutor costumava ocupar-se em seu estudo, de manhã cedo e à noite – e que provavelmente meu tempo livre se adequaria muito bem a suas necessidades. Fiquei quase mais encantado com a perspectiva de ganhar meu próprio pão do que com a esperança de ganhá-lo com meu velho mestre; em suma, agindo conforme o conselho de Agnes, sentei-me e escrevi uma carta ao Doutor, expondo meu objetivo e marcando para visitá-lo no dia seguinte às dez da manhã. Enderecei-a para Highgate – pois naquele lugar, tão memorável para mim, ele morava – e fui eu mesmo postá-la, sem perder um minuto.
Onde quer que Agnes estivesse, algum token agradável de sua presença silenciosa parecia inseparável do lugar. Quando voltei, encontrei os pássaros de minha tia pendurados, exatamente como haviam estado por tanto tempo na janela da sala do chalé; e minha poltrona imitando a poltrona muito mais confortável de minha tia em sua posição junto à janela aberta; e até o leque redondo verde, que minha tia trouxera consigo, aparafusado no peitoril da janela. Soube quem fizera tudo aquilo, por parecer ter-se feito silenciosamente; e teria sabido num instante quem arrumara meus livros negligenciados na antiga ordem dos meus dias de escola, mesmo que tivesse suposto Agnes a milhas de distância, em vez de vê-la ocupada com eles, sorrindo da desordem em que haviam caído.
Minha tia foi bastante graciosa sobre o assunto do Tâmisa (realmente parecia muito bonito com o sol sobre ele, embora não como o mar diante do chalé), mas não podia ceder em relação à fumaça de Londres, que, disse ela, "apimentava tudo". Uma revolução completa, na qual Peggotty tinha um papel proeminente, estava sendo efetuada em cada canto de meus aposentos, em relação a essa pimenta; e eu estava observando, pensando como até Peggotty parecia fazer pouco com muita agitação, e como Agnes fazia muito sem agitação alguma, quando bateram à porta.
"Penso", disse Agnes, empalidecendo, "que é papai. Prometeu-me que viria."
Abri a porta e deixei entrar, não apenas o Sr. Wickfield, mas Uriah Heep. Não via o Sr. Wickfield há algum tempo. Estava preparado para uma grande mudança nele, depois do que ouvira de Agnes, mas sua aparência chocou-me.
Não era que parecesse muitos anos mais velho, embora ainda vestido com o mesmo escrupuloso asseio; ou que houvesse uma rubicundez insalubre em seu rosto; ou que seus olhos estivessem cheios e sanguíneos; ou que houvesse um tremor nervoso em sua mão, cuja causa eu conhecia e há alguns anos via em ação. Não era que tivesse perdido sua boa aparência ou seu antigo porte de cavalheiro – pois isso não acontecera – mas o que mais me impressionou foi que, com as evidências de sua superioridade nativa ainda sobre ele, ele se submetesse àquela personificação rastejante da mesquinhez, Uriah Heep. A inversão das duas naturezas, em suas posições relativas, Uriah no poder e o Sr. Wickfield na dependência, era uma visão mais dolorosa para mim do que posso expressar. Se tivesse visto um Macaco tomar o comando de um Homem, dificilmente teria considerado um espetáculo mais degradante.
Ele parecia estar demasiadamente consciente disso. Quando entrou, parou; e com a cabeça baixa, como se o sentisse. Isso foi apenas por um momento; pois Agnes disse-lhe suavemente: "Papai! Aqui está a Srta. Trotwood – e Trotwood, a quem não vês há muito tempo!" e então ele se aproximou e deu a mão a minha tia constrangidamente, e apertou a minha com mais cordialidade. Na pausa momentânea de que falo, vi o rosto de Uriah formar o sorriso mais desagradável. Agnes também o viu, penso, pois se encolheu diante dele.
O que minha tia viu ou não viu, desafio a ciência da fisionomia a ter descoberto, sem seu próprio consentimento. Acredito que nunca houve alguém com uma fisionomia tão imperturbável quando ela escolhia. Seu rosto poderia ter sido um muro morto na ocasião em questão, por qualquer luz que lançasse sobre seus pensamentos; até que ela quebrou o silêncio com sua habitual brusquidão.
"Bem, Wickfield!", disse minha tia; e ele ergueu os olhos para ela pela primeira vez. "Estive a dizer a tua filha como tenho disposto bem do meu dinheiro por mim mesma, porque não podia confiá-lo a ti, já que estavas ficando enferrujado nos negócios. Temos andado a aconselhar-nos juntos e a dar-nos muito bem, tudo considerado. Na minha opinião, Agnes vale toda a firma."
"Se me é permitido humildemente fazer a observação", disse Uriah Heep, contorcendo-se, "concordo plenamente com a Srta. Betsey Trotwood, e seria muito feliz se a Srta. Agnes fosse sócia."
"Tu próprio és sócio, sabes", respondeu minha tia, "e isso já é o suficiente para ti, espero. Como te sentes, senhor?"
Em reconhecimento a essa pergunta, dirigida a ele com extraordinária secura, o Sr. Heep, segurando desconfortavelmente a bolsa azul que carregava, respondeu que estava bastante bem, agradecia a minha tia, e esperava que ela estivesse do mesmo jeito.
"E você, Mestre... quero dizer, Senhor Copperfield", continuou Uriah. "Espero vê-lo bem! Estou contente em vê-lo, Senhor Copperfield, mesmo sob as circunstâncias atuais." Acreditei nisso; pois ele parecia apreciá-las muito. "Circunstâncias atuais não são o que seus amigos desejariam para você, Senhor Copperfield, mas não é o dinheiro que faz o homem; é... eu sou realmente incapaz com meus humildes poderes de expressar o que é", disse Uriah, com um movimento bajulador, "mas não é dinheiro!"
Aqui ele apertou minha mão: não da maneira comum, mas a uma boa distância de mim, e levantando minha mão para cima e para baixo como uma manivela de bomba, da qual ele tinha um pouco de medo.
"E como acha que estamos a parecer, Mestre Copperfield... quero dizer, Senhor?", bajulou Uriah. "Não acha que o Sr. Wickfield está corado, senhor? Os anos não pesam muito em nossa firma, Mestre Copperfield, exceto em elevar os humildes, a saber, mãe e eu – e em desenvolver", acrescentou, como reflexão posterior, "a bela, a saber, a Srta. Agnes."
Ele se contorceu todo após esse cumprimento, de maneira tão intolerável que minha tia, que estivera sentada olhando fixamente para ele, perdeu toda a paciência.
"O diabo que leve o homem!", disse minha tia, severamente. "O que é que ele está fazendo? Não seja galvânico, senhor!"
"Peço-lhe perdão, Srta. Trotwood", respondeu Uriah; "sei que a senhora está nervosa."
"Vá com isso, senhor!", disse minha tia, nada apaziguada. "Não presuma dizer tal coisa! Não estou nada disso. Se é uma enguia, senhor, comporte-se como tal. Se é um homem, controle seus membros, senhor! Meu Deus!", disse minha tia, com grande indignação, "não vou ser serpentinada e em saca-rolhas até perder os sentidos!"
O Sr. Heep ficou bastante envergonhado, como a maioria das pessoas teria ficado, com essa explosão; que derivava grande força adicional da maneira indignada com que minha tia depois se mexeu na cadeira e balançou a cabeça como se estivesse dando estalos ou saltos contra ele. Mas ele me disse à parte, numa voz mansa:
"Estou bem ciente, Mestre Copperfield, que a Srta. Trotwood, embora uma excelente senhora, tem um temperamento rápido (na verdade, creio que tive o prazer de conhecê-la, quando era um humilde escriturário, antes de você, Mestre Copperfield), e é natural, tenho certeza, que seja acelerado pelas circunstâncias atuais. A maravilha é que não é muito pior! Só vim para dizer que se houvesse alguma coisa que pudéssemos fazer, nas circunstâncias atuais, mãe ou eu, ou Wickfield e Heep, ficaríamos realmente contentes. Posso ir tão longe?", disse Uriah, com um sorriso doentio para seu sócio.
"Uriah Heep", disse o Sr. Wickfield, num tom monótono e forçado, "é ativo nos negócios, Trotwood. O que ele diz, concordo plenamente. Sabes que tinha um antigo interesse em ti. Além disso, o que Uriah diz, concordo plenamente!"
"Oh, que recompensa é", disse Uriah, levantando uma perna, com risco de atrair sobre si outra visita de minha tia, "ser tão confiável! Mas espero ser capaz de fazer algo para aliviá-lo das fadigas dos negócios, Mestre Copperfield!"
"Uriah Heep é um grande alívio para mim", disse o Sr. Wickfield, na mesma voz monótona. "É um peso tirado da minha mente, Trotwood, ter um sócio assim."
A raposa vermelha o fez dizer tudo isso, eu sabia, para exibi-lo a mim sob a luz que indicara na noite em que envenenara meu sono. Vi o mesmo sorriso desagradável em seu rosto novamente, e vi como ele me observava.
"Não vais, papai?", disse Agnes, ansiosamente. "Não voltas a pé com Trotwood e comigo?"
Ele teria olhado para Uriah, acredito, antes de responder, se aquele digno não o tivesse antecipado.
"Tenho compromisso próprio", disse Uriah, "a negócios; caso contrário, teria sido feliz em ficar com meus amigos. Mas deixo meu sócio para representar a firma. Srta. Agnes, sempre seu! Desejo-lhe um bom dia, Mestre Copperfield, e deixo meus humildes respeitos para a Srta. Betsey Trotwood."
Com essas palavras, retirou-se, beijando sua grande mão e olhando-nos de esguelha como uma máscara.
Ficamos ali sentados, conversando sobre nossos agradáveis tempos antigos em Cantuária, por uma ou duas horas. O Sr. Wickfield, deixado a Agnes, logo se tornou mais parecido com seu antigo eu; embora houvesse uma depressão constante nele, que ele nunca sacudia. Apesar disso, ele se animou; e teve um evidente prazer em nos ouvir recordar os pequenos incidentes de nossa velha vida, muitos dos quais ele lembrava muito bem. Disse que era como aqueles tempos, estar sozinho com Agnes e eu novamente; e desejou ao Céu que nunca tivessem mudado. Estou certo de que havia uma influência no rosto plácido de Agnes, e no próprio toque de sua mão em seu braço, que fazia maravilhas por ele.
Minha tia (que esteve ocupada quase todo esse tempo com Peggotty, no quarto interior) não quis nos acompanhar ao lugar onde estavam hospedados, mas insistiu que eu fosse; e fui. Jantamos juntos. Após o jantar, Agnes sentou-se ao lado dele, como antigamente, e serviu-lhe o vinho. Ele tomou o que ela lhe deu, e nada mais – como uma criança – e nós três ficamos sentados juntos junto a uma janela enquanto a noite caía. Quando estava quase escuro, ele se deitou num sofá, Agnes apoiando sua cabeça e inclinando-se sobre ele por um momento; e quando ela voltou para a janela, não estava tão escuro que eu não pudesse ver lágrimas brilhando em seus olhos.
Rogo ao Céu que jamais me esqueça da querida menina em seu amor e verdade, naquela época da minha vida; pois se o fizer, devo estar me aproximando do fim, e então desejaria lembrar-me dela em seu melhor! Ela encheu meu coração com tão boas resoluções, fortaleceu minha fraqueza tanto, com seu exemplo, dirigiu – não sei como, ela era modesta e gentil demais para me aconselhar em muitas palavras – o ardente entusiasmo e o propósito instável dentro de mim, que todo o pouco bem que fiz e todo o mal que evitei, acredito solenemente que posso atribuir a ela.
E como ela me falou de Dora, sentada à janela no escuro; ouviu meus louvores a ela; louvou-a novamente; e em torno da pequena figura de fada deixou vislumbres de sua própria luz pura, que a tornaram ainda mais preciosa e mais inocente para mim! Oh, Agnes, irmã da minha infância, se eu soubesse então o que soube muito depois...!
Havia um mendigo na rua, quando desci; e quando virei a cabeça para a janela, pensando em seus olhos calmos e serafins, ele me fez estremecer ao murmurar, como se fosse um eco da manhã: "Cego! Cego! Cego!"