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DIÁRIO DO DR. SEWARD
_11 de outubro, à noite._--Jonathan Harker pediu-me que anotasse isto, pois diz estar mal equipado para a tarefa, e deseja que se mantenha um registro exato.
Creio que nenhum de nós se surpreendeu quando fomos convidados a ver a Sra. Harker um pouco antes do pôr do sol. Ultimamente passamos a compreender que o nascer e o pôr do sol são para ela momentos de liberdade peculiar; quando seu eu antigo pode se manifestar sem que qualquer força controladora o subjugue, reprima ou incite à ação. Esse humor ou condição começa meia hora ou mais antes do nascer ou pôr do sol efetivos, e dura até que o sol esteja alto, ou enquanto as nuvens ainda brilham com os raios que se estendem acima do horizonte. A princípio há uma espécie de condição negativa, como se algum vínculo se afrouxasse, e então a liberdade absoluta logo se segue; quando, porém, a liberdade cessa, a reversão ou recaída vem rápido, precedida apenas de um período de silêncio alerta.
Hoje à noite, quando nos reunimos, ela estava algo contida, e trazia todos os sinais de uma luta interna. Atribuí eu mesmo a um esforço violento seu no primeiro instante possível. Poucos minutos, contudo, deram-lhe controle completo de si; então, fazendo sinal ao marido para sentar-se a seu lado no sofá onde estava semireclinada, fez o resto de nós aproximar cadeiras.
Tomando a mão do marido na sua, começou:--
“Estamos todos aqui juntos em liberdade, talvez pela última vez! Eu sei, querido; sei que sempre estarás comigo até o fim.” Isto ao marido, cuja mão, como vimos, apertara a dela. “Pela manhã saímos para nossa tarefa, e só Deus sabe o que nos reserva a qualquer de nós. Serás tão bom para comigo ao levar-me convosco. Sei que tudo o que homens bravos e sinceros podem fazer por uma pobre mulher fraca, cuja alma talvez esteja perdida -- não, não, ainda não, mas está em todo caso em jogo -- farás. Mas deveis lembrar que não sou como vós. Há um veneno em meu sangue, em minha alma, que pode destruir-me; que há de destruir-me, a menos que algum alívio nos venha. Oh, meus amigos, sabeis tão bem quanto eu que minha alma está em jogo; e embora saiba haver um caminho de saída para mim, não deveis e não devo tomá-lo!” Ela olhou suplicante a todos nós, por turno, começando e terminando no marido.
“Qual é esse caminho?” perguntou Van Helsing com voz rouca. “Qual é esse caminho que não devemos -- não podemos -- tomar?”
“Que eu possa morrer agora, seja por minha própria mão ou a de outro, antes que o mal maior se cumpra por inteiro. Sei, e vós sabeis, que se eu morresse uma vez, poderíeis e libertaríeis meu espírito imortal, como fizestes com minha pobre Lucy. Se a morte, ou o medo da morte, fosse a única coisa no caminho, não me esquivaria a morrer aqui, agora, entre os amigos que me amam. Mas morte não é tudo. Não posso crer que morrer em tal caso, quando há esperança à frente e amarga tarefa a cumprir, seja vontade de Deus. Portanto, de minha parte, renuncio aqui à certeza do repouso eterno, e saio para a escuridão onde podem estar as coisas mais negras que o mundo ou o mundo inferior guarda!” Silenciamos todos, pois soubemos instintivamente que aquilo era apenas prelúdio. Os rostos dos outros estavam firmes e o de Harker tornou-se cinza pálido; talvez adivinhasse melhor que qualquer de nós o que vinha. Ela continuou:--
“Isto é o que posso dar para o montão.” Não pude deixar de notar a singela frase legal que usou em tal lugar, e com toda seriedade. “O que dará cada um de vós? Vossas vidas eu sei,” prosseguiu rápida, “isso é fácil para homens bravos. Vossas vidas são de Deus, e podeis devolvê-las a Ele; mas o que me dareis?” Olhou de novo interrogativa, mas desta vez evitou o rosto do marido. Quincey pareceu entender; acenou, e o rosto dela se iluminou. “Então direi claramente o que quero, pois não deve haver matéria duvidosa nesta ligação entre nós agora. Deveis prometer-me, um e todos -- mesmo vós, meu amado marido -- que, se chegar a hora, me matareis.”
“Qual é essa hora?” A voz era de Quincey, mas baixa e tensa.
“Quando estiverdes convencidos de que mudei tanto que é melhor eu morrer do que viver. Quando eu estiver assim morta na carne, então, sem um instante de demora, cravareis uma estaca em mim e cortareis minha cabeça; ou fareis o que mais seja necessário para dar-me descanso!”
Quincey foi o primeiro a erguer-se após a pausa. Ajoelhou-se ante ela e, tomando-lhe a mão, disse solene:--
“Sou apenas um sujeito rude, que talvez não tenha vivido como homem deve para ganhar tal distinção, mas juro-vos por tudo que me é sagrado e caro que, se chegar a hora, não hei de recuar do dever que nos destes. E prometo-vos também que tornarei tudo certo, pois se tiver só dúvida tomarei que a hora chegou!”
“Meu verdadeiro amigo!” foi tudo que pôde dizer em meio às lágrimas que lhe caíam, enquanto, curvando-se, beijou-lhe a mão.
“Juro o mesmo, minha cara Madam Mina!” disse Van Helsing.
“E eu!” disse Lorde Godalming, cada um por vez ajoelhando-se para fazer o juramento. Segui-os, eu mesmo. Então o marido voltou-se para ela, de olhos baços e com uma palidez esverdeada que subjugava o branco nevado de seus cabelos, e perguntou:--
“E devo eu também fazer tal promessa, oh, minha esposa?”
“Tu também, meu mais querido,” disse ela, com infinita saudade de piedade na voz e nos olhos. “Não deveis recuar. És o mais próximo e querido e todo o mundo para mim; nossas almas estão tecidas em uma só, por toda a vida e todo o tempo. Pensa, querido, que houve tempos em que bravos homens mataram suas esposas e mulheres, para impedir que caíssem em mãos do inimigo. Suas mãos não vacilaram mais por aqueles que amavam suplicar que os matassem. É dever dos homens para com aqueles que amam, em tais tempos de dura provação! E oh, meu caro, se hei de encontrar a morte por qualquer mão, seja pela mão daquele que melhor me ama. Dr. Van Helsing, não esqueci vossa misericórdia no caso de pobre Lucy para com aquele que amava” -- parou com um rubor súbito, e mudou a frase -- “para com aquele que tinha melhor direito de dar-lhe paz. Se tal hora houver de vir de novo, conto convosco para fazer de minha vida de esposa uma doce memória, que foi sua amorosa mão que me libertou do terrível encanto sobre mim.”
“Juro de novo!” veio a voz sonora do Professor. A Sra. Harker sorriu, positivamente sorriu, e com um suspiro de alívio recostou-se e disse:--
“E agora uma palavra de aviso, aviso que nunca deveis esquecer: esta hora, se alguma vez vier, pode vir rápida e inesperadamente, e nesse caso não deveis perder tempo em usar vossa oportunidade. Em tal hora eu mesma poderia estar -- não! se a hora vier, _estarei_ -- aliada a vosso inimigo contra vós.”
“Mais um pedido;” tornou-se muito solene ao dizer isto, “não é vital e necessário como o outro, mas quero que façais uma coisa por mim, se quiserdes.” Todos aquiescemos, mas ninguém falou; não havia necessidade de falar:--
“Quero que leiais o Serviço de Enterro.” Foi interrompida por um profundo gemido do marido; tomando-lhe a mão na sua, segurou-a sobre o coração, e continuou: “Deveis lê-lo sobre mim algum dia. Seja qual for o desfecho de todo este pavoroso estado de coisas, será doce pensamento para todos ou alguns de nós. Tu, meu mais querido, espero que o leias, pois então estará em tua voz em minha memória para sempre -- venha o que vier!”
“Mas oh, minha querida,” ele suplicou, “a morte está longe de ti.”
“Não,” disse ela, erguendo mão alerta. “Estou mais funda na morte neste momento do que se o peso de uma sepultura terrena pesasse sobre mim!”
“Oh, minha esposa, devo eu lê-lo?” disse ele, antes de começar.
“Confortar-me-ia, meu marido!” foi tudo que disse; e ele começou a ler quando ela preparou o livro.
“Como posso eu -- como poderia alguém -- contar daquela estranha cena, sua solenidade, seu horror; e, com tudo, sua doçura. Mesmo um cético, que não vê senão uma paródia de amarga verdade em qualquer coisa santa ou emocional, teria se comovido no íntimo se visse aquele pequeno grupo de amigos amorosos e devotados ajoelhados em redor daquela senhora atingida e aflita; ou ouvira a terna paixão da voz do marido, em tons tão quebrados pela emoção que muitas vezes teve de pausar, lendo o simples e belo serviço do Enterro dos Mortos. Eu -- não posso prosseguir -- palavras -- e -- v-voz -- f-faltam-m-me!”
* * * * *
Ela tinha razão em seu instinto. Estranho como tudo era, bizarro como possa depois parecer mesmo a nós que sentimos sua potente influência à época, confortou-nos muito; e o silêncio, que mostrou a vinda da recaída da Sra. Harker de sua liberdade de alma, não pareceu tão cheio de desespero a nenhum de nós como temêramos.
_DIÁRIO DE JONATHAN HARKER._
_15 de outubro, Varna._--Saímos de Charing Cross na manhã do dia 12, chegamos a Paris na mesma noite, e tomamos os lugares reservados no Expresso do Oriente. Viajamos dia e noite, chegando aqui pelas cinco horas. Lorde Godalming foi ao Consulado ver se algum telegrama chegara para ele, enquanto o resto de nós veio a este hotel -- “o Odessus”. A jornada pode ter tido incidentes; eu, porém, estava tão ansioso por seguir adiante que não me importei com eles. Até que a _Czarina Catherine_ entre no porto não haverá interesse para mim em coisa alguma do mundo. Graças a Deus! Mina está bem, e parece fortalecer-se; sua cor está voltando. Ela dorme muito; durante a viagem dormiu quase o tempo todo. Antes do nascer e pôr do sol, contudo, está muito desperta e alerta; e tornou-se hábito Van Helsing hipnotizá-la nesses momentos. A princípio, algum esforço era necessário, e ele tinha de fazer muitos passes; mas agora, ela parece ceder logo, como por hábito, e quase nenhuma ação é precisa. Ele parece ter poder nesses momentos particulares de simplesmente querer, e os pensamentos dela obedecem-no. Ele sempre lhe pergunta o que pode ver e ouvir. Ela responde ao primeiro:--
“Nada; tudo é escuro.” E ao segundo:--
“Ouço as ondas batendo contra o navio, e a água correndo. Lona e cordame esticam e mastros e vergas rangem. O vento é forte -- ouço-o nos traveses, e a proa lança de volta a espuma.” É evidente que a _Czarina Catherine_ ainda está no mar, apressando-se para Varna. Lorde Godalming acaba de retornar. Teve quatro telegramas, um por dia desde que partimos, todos no mesmo sentido: que a _Czarina Catherine_ não fora reportada a Lloyd’s de parte alguma. Arranjara antes de deixar Londres que seu agente lhe enviasse diariamente telegrama dizendo se o navio fora reportado. Devia ter mensagem mesmo se não fosse reportado, para que pudesse ter certeza de que se mantinha vigília na outra ponta do fio.
Jantamos e fomos cedo para a cama. Amanhã havemos de ver o Vice-Cônsul, e arranjar, se possível, sobre embarcar no navio assim que chegar. Van Helsing diz que nossa chance será embarcar entre o nascer e o pôr do sol. O Conde, mesmo se tomar forma de morcego, não pode cruzar água corrente por vontade própria, e assim não pode deixar o navio. Como não ousa mudar à forma de homem sem suspeita -- o que evidentemente deseja evitar -- deve permanecer na caixa. Se, então, pudermos embarcar após o nascer do sol, ele está à nossa mercê; pois podemos abrir a caixa e dar cabo dele, como fizemos com pobre Lucy, antes que acorde. Que misericórdia receberá de nós não contará muito. Cremos que não teremos muito problema com oficiais ou marujos. Graças a Deus! Este é o país onde suborno faz qualquer coisa, e estamos bem providos de dinheiro. Só temos de ter certeza de que o navio não entra no porto entre o pôr do sol e o nascer do sol sem sermos avisados, e estaremos seguros. O Juiz Bolsocheio resolverá este caso, penso eu!
* * * * *
_16 de outubro._--O relato de Mina ainda o mesmo: ondas batendo e água correndo, escuridão e ventos favoráveis. Estamos evidentemente em bom tempo, e quando ouvirmos da _Czarina Catherine_ estaremos prontos. Como ela deve passar os Dardanelos, teremos certamente algum reporte.
* * * * *
_17 de outubro._--Tudo está bem fixado agora, penso, para receber o Conde em seu retorno de sua turnê. Godalming disse aos armadores que suspeitava que a caixa embarcada pudesse conter algo roubado de um amigo seu, e obteve meio consentimento de que a abrisse por sua conta e risco. O dono deu-lhe papel dizendo ao Capitão que lhe desse toda facilidade em fazer o que quisesse a bordo, e também autorização similar a seu agente em Varna. Vimos o agente, que ficou muito impressionado com o modo gentil de Godalming para com ele, e estamos todos satisfeitos de que tudo que possa fazer para auxiliar nossos desejos será feito. Já arranjamos o que fazer caso abramos a caixa. Se o Conde estiver lá, Van Helsing e Seward cortar-lhe-ão a cabeça logo e cravarão estaca no coração. Morris e Godalming e eu impediremos interferência, mesmo se tivermos de usar as armas que teremos prontas. O Professor diz que se assim tratarmos o corpo do Conde, ele logo depois cairá em pó. Nesse caso não haveria evidência contra nós, caso despertada suspeita de assassinato. Mas mesmo que não, devemos ficar ou cair por nosso ato, e talvez algum dia este mesmo escrito possa ser evidência entre alguns de nós e uma corda. Por mim, aceitaria a chance só de gratidão se viesse. Não deixaremos pedra sobre pedra para cumprir nossa intenção. Arranjamos com certos oficiais que no instante em que a _Czarina Catherine_ for vista, seremos informados por mensageiro especial.
* * * * *
_24 de outubro._--Uma semana inteira de espera. Telegramas diários a Godalming, mas sempre a mesma história: “Ainda não reportada”. A resposta hipnótica matinal e vespertina de Mina é invariável: ondas batendo, água correndo, e mastros rangendo.
_Telegrama, 24 de outubro._
_Rufus Smith, Lloyd’s, Londres, a Lorde Godalming, aos cuidados de S. M. B. Vice-Cônsul, Varna._
“_Czarina Catherine_ reportada esta manhã dos Dardanelos.”
_DIÁRIO DO DR. SEWARD._
_25 de outubro._--Como sinto meu fonógrafo! Escrever diário com pena é penoso para mim; mas Van Helsing diz que devo. Estávamos todos loucos de excitação ontem quando Godalming recebeu seu telegrama de Lloyd’s. Sei agora o que homens sentem em batalha quando o chamado à ação é ouvido. A Sra. Harker, única de nosso grupo, não mostrou sinal de emoção. Afinal, não é estranho que não mostrasse; pois tomamos cuidado especial de não lhe deixar saber coisa alguma, e todos tentamos não mostrar excitação na presença dela. Em dias idos notaria, tenho certeza, não importa como tentássemos ocultar; mas neste aspecto mudou muito nas últimas três semanas. A letargia cresce sobre ela, e embora pareça forte e bem, e recupere alguma cor, Van Helsing e eu não estamos satisfeitos. Falamos dela muitas vezes; não dissemos, porém, palavra aos outros. Partiria o coração de pobre Harker -- certamente seu nervo -- se soubesse que temos sequer suspeita no assunto. Van Helsing examina, diz-me, seus dentes muito cuidadosamente, enquanto ela está em estado hipnótico, pois diz que enquanto não começarem a afiar não há perigo ativo de mudança nela. Se viesse tal mudança, seria necessário tomar passos!... Ambos sabemos quais seriam esses passos, embora não mencionemos nossos pensamentos um ao outro. Nenhum de nós recuaria da tarefa -- terrível embora seja contemplá-la. “Eutanásia” é palavra excelente e confortante! Sou grato a quem a inventou.
São só umas 24 horas de navegação dos Dardanelos até aqui, ao ritmo que a _Czarina Catherine_ veio de Londres. Deveria portanto chegar em algum momento da manhã; mas como não pode chegar antes, todos vamos retirar-nos cedo. Levantaremos à uma hora, para estar prontos.
* * * * *
_25 de outubro, meio-dia_.--Nenhuma nova ainda da chegada do navio. O relato hipnótico da Sra. Harker esta manhã foi o mesmo de sempre, portanto é possível que tenhamos nova a qualquer momento. Nós, homens, estamos todos em febre de excitação, exceto Harker, que está calmo; suas mãos estão frias como gelo, e há uma hora encontrei-o afiando a borda da grande faca Ghoorka que agora sempre carrega. Será mau aviso para o Conde se a borda desse “Kukri” tocar-lhe a garganta, impelida por essa mão severa e gelada!
Van Helsing e eu ficamos um pouco alarmados com a Sra. Harker hoje. Perto do meio-dia ela entrou numa espécie de letargia que não gostamos; embora silenciássemos aos outros, nenhum de nós estava feliz com isso. Estivera inquieta a manhã toda, de modo que a princípio ficamos contentes em saber que dormia. Quando, porém, o marido mencionou casualmente que ela dormia tão profundamente que não a podia acordar, fomos ao quarto dela ver por nós mesmos. Respirava naturalmente e parecia tão bem e em paz que concordamos que o sono lhe era melhor que qualquer outra coisa. Pobre moça, tem tanto para esquecer que não é de admirar que o sono, se lhe traz oblívio, lhe faça bem.
* * * * *
_Mais tarde._--Nossa opinião se justificou, pois após repousante sono de algumas horas ao acordar pareceu mais viva e melhor do que estava havia dias. Ao pôr do sol fez o habitual relato hipnótico. Onde quer que esteja no Mar Negro, o Conde apressa-se para seu destino. Para sua ruína, confio!
* * * * *
_26 de outubro._--Outro dia e nenhuma notícia da _Czarina Catherine_. Deveria estar aqui por agora. Que ainda viaja _algures_ é aparente, pois o relato hipnótico da Sra. Harker ao nascer do sol foi ainda o mesmo. É possível que o navio às vezes pare por neblina; alguns dos vapores que entraram ontem à noite reportaram bancos de neblina ao norte e sul do porto. Devemos continuar nossa vigília, pois o navio pode ser sinalizado a qualquer momento.
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_27 de outubro, meio-dia._--Muito estranho; nenhuma notícia ainda do navio que esperamos. A Sra. Harker reportou ontem à noite e esta manhã como de costume: “ondas batendo e água correndo”, embora acrescentasse que “as ondas eram muito fracas”. Os telegramas de Londres foram os mesmos: “sem mais reporte”. Van Helsing está terrivelmente ansioso, e disse-me há pouco que teme que o Conde nos escape. Acrescentou significativamente:--
“Não gostei daquela letargia da Madam Mina. Almas e memórias podem fazer coisas estranhas durante o transe.” Ia eu perguntar-lhe mais, mas Harker entrou então, e ele ergueu mão alerta. Devemos tentar esta noite ao pôr do sol fazê-la falar mais plenamente quando em seu estado hipnótico.
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_28 de outubro._--Telegrama. _Rufus Smith, Londres, a Lorde Godalming, aos cuidados de S. M. B. Vice-Cônsul, Varna._
“_Czarina Catherine_ reportada entrando em Galatz à uma hora hoje.”
_DIÁRIO DO DR. SEWARD._
_28 de outubro._--Quando veio o telegrama anunciando a chegada em Galatz, não creio que tenha sido tal choque para qualquer de nós como se esperaria. É verdade que não sabíamos donde, ou como, ou quando, viria o raio; mas penso que todos esperávamos que algo estranho acontecesse. O atraso da chegada em Varna fez-nos individualmente satisfeitos de que as coisas não seriam justas como esperáramos; só aguardávamos saber onde a mudança ocorreria. Nada menos, porém, foi surpresa. Suponho que a natureza opera em base tão esperançosa que cremos contra nós mesmos que as coisas serão como devem ser, não como sabemos que serão. O transcendentalismo é farol para os anjos, ainda que seja fogo-fátuo para o homem. Foi experiência ímpar e todos a tomamos diferentemente. Van Helsing ergueu a mão sobre a cabeça por um momento, como em remonstração com o Todo-Poderoso; mas não disse palavra, e em poucos segundos pôs-se de pé com rosto severamente firme. Lorde Godalming empalideceu muito, e sentou respirando pesado. Eu mesmo fiquei meio atordoado e olhei em espanto de um a outro. Quincey Morris apertou o cinto com aquele movimento rápido que tão bem conhecia; em nossos velhos dias de errar significava “ação”. A Sra. Harker tornou-se branca como morta, de modo que a cicatriz em sua testa parecia arder, mas dobrou as mãos mansamente e ergueu os olhos em oração. Harker sorriu -- sorriu atualmente -- o sorriso escuro e amargo de quem está sem esperança; mas ao mesmo tempo sua ação desmentiu as palavras, pois as mãos buscaram instintivamente o cabo da grande faca Kukri e ali repousaram. “Quando sai o próximo trem para Galatz?” disse Van Helsing a nós em geral.
“Às 6:30 da manhã de amanhã!” Todos sobressaltamos, pois a resposta veio da Sra. Harker.
“Como diabo sabes?” disse Art.
“Esqueceis -- ou talvez não saibais, embora Jonathan saiba e assim o Dr. Van Helsing -- que sou a fanática dos trens. Em casa em Exeter eu sempre costurava os horários, para ser útil ao marido. Achei tão útil às vezes, que sempre estudo horários agora. Sabia que se algo nos levasse ao Castelo Drácula iríamos por Galatz, ou ao menos por Bucareste, então aprendi os horários muito cuidadosamente. Infelizmente não há muitos para aprender, pois o único trem de amanhã sai como digo.”
“Mulher maravilhosa!” murmurou o Professor.
“Não podemos ter um especial?” perguntou Lorde Godalming. Van Helsing sacudiu a cabeça: “Receio que não. Esta terra é muito diferente da vossa ou da minha; mesmo se tivéssemos especial, provavelmente não chegaria tão cedo quanto nosso trem regular. Além disso, temos algo a preparar. Devemos pensar. Agora organizemo-nos. Vós, amigo Arthur, ide ao trem e conseguí os bilhetes e arranjai que tudo esteja pronto para partirmos de manhã. Vós, amigo Jonathan, ide ao agente do navio e conseguí dele cartas ao agente em Galatz, com autoridade para fazer busca no navio tal como aqui. Morris Quincey, vede o Vice-Cônsul, e obtende sua ajuda com seu par em Galatz e tudo que possa suavizar nosso caminho, para que não se perca tempo sobre o Danúbio. John ficará com Madam Mina e comigo, e consultaremos. Pois assim se o tempo for longo podeis ser demorados; e não importará quando o sol se puser, desde que eu esteja aqui com Madam para fazer relatório.”
“E eu,” disse a Sra. Harker vivamente, e mais parecida com seu eu antigo do que estivera por muitos e longos dias, “tentarei ser útil em todos os modos, e pensarei e escreverei para vós como costumava fazer. Algo se desloca de mim de modo estranho, e sinto-me mais livre do que estive ultimamente!” Os três homens mais jovens pareceram mais felizes no momento ao parecerem perceber o significado das palavras; mas Van Helsing e eu, voltando-nos um ao outro, encontramos cada um um olhar grave e perturbado. Não dissemos nada à época, contudo.
Quando os três homens saíram para suas tarefas Van Helsing pediu à Sra. Harker que procurasse a cópia dos diários e lhe achasse a parte do diário de Harker no Castelo. Ela foi buscá-lo; quando a porta se fechou sobre ela ele disse-me:--
“Pensamos o mesmo! falai!”
“Há alguma mudança. É esperança que me dá náusea, pois pode nos enganar.”
“Exatamente. Sabeis por que lhe pedi o manuscrito?”
“Não!” disse eu, “a não ser para obter oportunidade de ver-me a sós.”
“Estais em parte certo, amigo John, mas só em parte. Quero dizer-vos algo. E oh, meu amigo, estou correndo grande -- terrível -- risco; mas creio que é certo. No momento em que Madam Mina disse aquelas palavras que prenderam ambos nossos entendimentos, veio-me inspiração. No transe de três dias atrás o Conde enviou-lhe o espírito para ler-lhe a mente; ou mais provável ele a levou para vê-lo em sua caixa-terra no navio com água correndo, assim como fica livre ao nascer e pôr do sol. Ele soube então que estamos aqui; pois ela tem mais para contar em sua vida aberta com olhos para ver e ouvidos para ouvir do que ele, fechado, como está, em sua caixa-urna. Agora ele faz seu máximo esforço para nos escapar. Presentemente não a quer.
“Ele tem certeza com seu tão grande conhecimento de que ela virá a seu chamado; mas ele a cortou -- tomou-a, como pode, fora de seu próprio poder, para que assim ela não lhe venha. Ah! aí tenho esperança de que nossos cérebros de homem, que têm sido de homem por tanto tempo e não perderam a graça de Deus, virão mais alto que seu cérebro-criança que jaz em sua tumba por séculos, que não cresce ainda à nossa estatura, e que só obra egoísta e portanto pequena. Aqui vem Madam Mina; nem palavra a ela de seu transe! Ela não o sabe; e a sobrepujaria e faria desesperar justo quando queremos toda sua esperança, toda sua coragem; quando mais queremos todo seu grande cérebro que é treinado como cérebro de homem, mas é de doce mulher e tem poder especial que o Conde lhe deu, e que ele pode não tirar por inteiro -- embora ele não pense assim. Silêncio! deixai-me falar, e aprendereis. Oh, John, meu amigo, estamos em duras angústias. Temo, como nunca temi antes. Só podemos confiar no bom Deus. Silêncio! aqui ela vem!”
Pensei que o Professor fosse quebrar e ter histeria, como quando Lucy morreu, mas com grande esforço controlou-se e estava em perfeito equilíbrio nervoso quando a Sra. Harker entrou a passinhos no quarto, viva e feliz de parecer e, no fazer de obra, aparentemente esquecida de sua miséria. Ao entrar, entregou número de folhas datilografadas a Van Helsing. Ele as olhou gravemente, o rosto clareando ao ler. Então segurando as páginas entre dedo e polegar disse:--
“Amigo John, a vós com tanta experiência já -- e vós, querida Madam Mina, que sois jovem -- aqui é lição: não temais pensar jamais. Meio-pensamento tem zumbido em meu cérebro, mas receio soltar-lhe as asas. Aqui agora, com mais conhecimento, volto à onde aquele meio-pensamento veio e acho que não é meio-pensamento afinal; que é pensamento inteiro, embora tão jovem que ainda não é forte para usar suas pequenas asas. Não, como o ‘Patinho Feio’ de meu amigo Hans Andersen, não é pensamento-pato afinal, mas pensamento-cisne-grande que navega nobremente em grandes asas, quando chega a hora de prová-las. Vede leio aqui o que Jonathan escreveu:--
“Aquele outro de sua raça que, em idade posterior, vez após vez, trouxe suas forças sobre o Grande Rio para a Terra dos Turcos; que, quando foi rechaçado, veio de novo, e de novo, e de novo, embora tivesse de vir sozinho do campo sangrento onde suas tropas eram massacradas, pois sabia que só ele podia em última instância triunfar.”
“O que nos diz isso? Pouco? não! O cérebro-criança do Conde nada vê; portanto fala tão livre. Vosso cérebro-homem nada vê; meu cérebro-homem nada vê, até agora. Não! Mas vem outra palavra de alguém que fala sem pensar porque ela, também, não sabe o que significa -- o que _poderia_ significar. Assim como há elementos que repousam, mas quando no curso da natureza se movem seu caminho e se tocam -- então puf! e vem clarão de luz, céu aberto, que cega e mata e destrói alguns; mas que mostra toda terra abaixo por léguas e léguas. Não é assim? Bem, explicarei. Para começar, já estudastes a filosofia do crime? ‘Sim’ e ‘Não’. Vós, John, sim; pois é estudo de insanidade. Vós, não, Madam Mina; pois crime não vos toca -- não senão uma vez. Ainda, vossa mente obra verdadeira, e não argumenta _a particulari ad universale_. Há esta peculiaridade em criminosos. É tão constante, em todos países e tempos, que mesmo polícia, que não sabe muito de filosofia, vem a sabê-lo empiricamente, que _é_. Isso é ser empírico. O criminoso sempre obra num crime -- esse é o verdadeiro criminoso que parece predestinado ao crime, e que não fará de outro. Este criminoso não tem cérebro-homem cheio. É astuto e manhoso e cheio de recursos; mas não é de estatura-homem quanto a cérebro. É de cérebro-criança em muito. Ora este nosso criminoso é predestinado ao crime também; ele, também, tem cérebro-criança, e é de criança fazer o que fez. O passarinho, o peixinho, o bichinho aprendem não por princípio, mas empiricamente; e quando aprendem a fazer, então há para ele o chão de onde partir para fazer mais. ‘_Dos pou sto_,’ disse Arquimedes. ‘Dai-me um ponto de apoio, e moverei o mundo!’ Fazer uma vez, é o ponto de apoio por que cérebro-criança se faz cérebro-homem; e até ter o propósito de fazer mais, continua a fazer o mesmo de novo cada vez, assim como fez antes! Oh, minha cara, vejo que vossos olhos se abriram, e que a vós o clarão mostra todas as léguas,” pois a Sra. Harker começou a bater palmas e seus olhos brilharam. Ele prosseguiu:--
“Agora falareis. Dizei a nós dois homens secos de ciência o que vedes com esses olhos tão brilhantes.” Tomou-lhe a mão e segurou-a enquanto ela falava. Seu dedo e polegar fecharam-se no pulso dela, como pensei instintiva e inconscientemente, enquanto ela falava:--
“O Conde é criminoso e de tipo criminoso. Nordau e Lombroso assim o classificariam, e _quâ_ criminoso é de mente imperfeitamente formada. Assim, em dificuldade tem de buscar recurso em hábito. Seu passado é pista, e a única página dele que conhecemos -- e isso de seus próprios lábios -- diz que outrora, quando no que Sr. Morris chamaria de ‘apuro’, voltou a seu próprio país da terra que tentara invadir, e dali, sem perder propósito, preparou-se para novo esforço. Voltou melhor equipado para sua obra; e venceu. Assim veio a Londres invadir nova terra. Foi batido, e quando toda esperança de sucesso se perdeu, e sua existência em perigo, fugiu de volta sobre o mar a seu lar; assim como antes fugira sobre o Danúbio da Terra dos Turcos.”
“Bom, bom! oh, vós tão clever lady!” disse Van Helsing, entusiasta, curvando-se e beijando-lhe a mão. Um momento depois disse-me, tão calmo como se tivéssemos consulta de enfermaria:--
“Setenta e duas só; e em toda esta excitação. Tenho esperança.” Voltando-se a ela, disse com viva expectativa:--
“Mas prosseguí. Prosseguí! há mais para contar se quiserdes. Não temais; John e eu sabemos. Eu em todo caso, e vos direi se estiverdes certa. Falai, sem medo!”
“Tentarei; mas perdoar-me-eis se parecer egoísta.”
“Não! não temais, deveis ser egoísta, pois é de vós que pensamos.”
“Então, como é criminoso é egoísta; e como seu intelecto é pequeno e sua ação baseada em egoísmo, confina-se a um propósito. Esse propósito é implacável. Como fugiu de volta sobre o Danúbio, deixando suas forças serem feitas em pedaços, assim agora está intencionado em estar seguro, descuidado de tudo. Assim seu próprio egoísmo liberta minha alma um tanto do terrível poder que adquiriu sobre mim naquela noite dreadful. Senti-o! Oh, senti-o! Graças a Deus, por Sua grande misericórdia! Minha alma é mais livre do que esteve desde aquela hora horrível; e tudo que me assombra é temor de que em algum transe ou sonho ele possa ter usado meu conhecimento para seus fins.” O Professor pôs-se de pé:--
“Ele assim usou vossa mente; e por ela ele nos deixou aqui em Varna, enquanto o navio que o levava irrompeu por neblina envolvente até Galatz, onde, sem dúvida, fizera preparativos para escapar de nós. Mas seu cérebro-criança só viu até aí; e pode ser que, como sempre é na Providência de Deus, a própria coisa que o malfeitor mais contou para seu bem egoísta, torne-se sua maior dano. O caçador é tomado em sua própria armadilha, como diz o grande Salmista. Pois agora que ele pensa estar livre de todo rastro de nós todos, e que nos escapou com tantas horas à frente, então seu cérebro-criança egoísta sussurrar-lhe-á para dormir. Ele pensa, também, que como cortou a si mesmo de saber vossa mente, não pode haver conhecimento dele para vós; aí é que falha! Esse terrível batismo de sangue que vos deu faz-vos livre para ir a ele em espírito, como já fizestes em vossos tempos de liberdade, quando o sol nasce e se põe. Em tais horas ides por minha vontade e não pela dele; e este poder para bem de vós e outros, como ganhastes de vosso sofrimento por suas mãos. Isto é agora tanto mais precioso que ele o não sabe, e para guardar-se até cortou a si mesmo de seu conhecimento de nosso onde. Nós, porém, não somos egoístas, e cremos que Deus está conosco por toda esta negridão, e estas muitas horas escuras. Seguiremos ele; e não recuaremos; mesmo se nos perigarmos a ficar como ele. Amigo John, esta foi grande hora; e tem feito muito para avançar-nos em nosso caminho. Deveis ser escriba e escrever-lhe tudo, para que quando os outros retornem de sua obra possais dar-lhes; então saberão como nós.”
E assim o escrevi enquanto aguardamos seu retorno, e a Sra. Harker escreveu com sua datilógrafa tudo desde que trouxe o MS. a nós.