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O Sr. Rochester, em ocasião posterior, explicou o assunto. Foi numa tarde, quando por acaso encontrou a mim e a Adèle nos jardins: e enquanto ela brincava com Pilot e seu volante, ele pediu-me que caminhasse para cima e para baixo de uma longa alameda de faias, à vista dela.
Ele então disse que ela era filha de uma dançarina de ópera francesa, Céline Varens, por quem certa vez nutrira o que chamou de uma "grande paixão". Essa paixão Céline professara retribuir com ardor ainda superior. Ele julgava-se o ídolo dela, por mais feio que fosse: acreditava, como disse, que ela preferia sua "taille d'athlète" à elegância do Apolo Belvedere.
— E, Miss Eyre, tão lisonjeado fiquei com essa preferência da silfide gálica por seu gnomo britânico, que a instalei num hotel; dei-lhe uma casa completa com criadagem, uma carruagem, caxemiras, diamantes, rendas, &c. Em suma, comecei o processo de arruinar-me no estilo recebido, como qualquer outro tolo apaixonado. Não tive, ao que parece, a originalidade de traçar um novo caminho para a vergonha e a destruição, mas segui a trilha antiga com exata estupidez, sem desviar uma polegada do centro batido. Tive — como merecia — o destino de todos os outros tolos apaixonados. Acontecendo passar por lá certa noite, quando Céline não me esperava, achei-a ausente; mas era uma noite quente, e eu estava cansado de perambular por Paris, por isso sentei-me em seu boudoir; feliz por respirar o ar consagrado tão recentemente por sua presença. Não — exagero; nunca pensei haver nela virtude consagradora: antes era uma espécie de pastilha perfumada que deixara; um cheiro de almíscar e âmbar, que não odor de santidade. Eu começava justamente a sufocar com os vapores de flores de estufa e essências aspergidas, quando lembrei-me de abrir a janela e sair para a varanda. Era à luz de lua e de gás, e muito calmo e sereno. A varanda tinha uma ou duas cadeiras; sentei-me, e tirei um charuto, — vou tomar um agora, se me desculpar.
Aqui seguiu-se uma pausa, preenchida pelo ato de tirar e acender um charuto; levando-o aos lábios e exalando um rastro de incenso havanesa no ar gelado e sem sol, ele prosseguiu —
— Eu gostava também de bonbons naqueles dias, Miss Eyre, e estava croquant — (perdoe a barbaridade) — croquant confeitos de chocolate, e fumando alternadamente, observando entretanto as equipagens que rolavam pelas ruas da moda em direção à ópera vizinha, quando numa elegante carruagem fechada puxada por um belo par de cavalos ingleses, e claramente vista na brilhante noite citadina, reconheci a "voiture" que dera a Céline. Ela voltava: claro que meu coração bateu com impaciência contra os ferros onde me apoiava. A carruagem parou, como esperava, à porta do hotel; minha chama (essa é a palavra exata para uma inamorata de ópera) desceu: embora embrulhada numa capa — encargo desnecessário, aliás, numa noite tão quente de junho — reconheci-a instantaneamente pelo pezinho, visto a espreitar sob a saia do vestido, ao saltar o degrau da carruagem. Inclinando-me sobre a varanda, ia murmurar "Mon ange" — num tom, claro, que só o ouvido do amor deveria captar — quando uma figura saltou da carruagem atrás dela; também encapada; mas era um calcanhar esporado que soara no pavimento, e uma cabeça chapeada que então passou sob o arco da porte cochère do hotel.
— O senhor nunca sentiu ciúme, não é, Miss Eyre? Claro que não: não preciso perguntar; porque o senhor nunca sentiu amor. Ambos os sentimentos ainda há de experimentar: sua alma dorme; o choque ainda há de vir que a desperte. O senhor pensa que toda a existência escorre num fluxo tão quieto quanto aquele em que sua juventude até aqui deslizou. Flutuando de olhos fechados e ouvidos tapados, não vê as rochas que se eriçam não longe no leito da enchente, nem ouve as ondas quebrarem em sua base. Mas digo-lhe — e pode marcar minhas palavras — há de chegar um dia a uma passagem rochosa no canal, onde todo o rio da vida se despedaçará em redemoinho e tumulto, espuma e ruído: ou será estilhaçado em átomos nos pontos das rochas, ou levantado e levado por alguma onda-mestra a uma corrente mais calma — como estou agora.
— Gosto deste dia; gosto desse céu de aço; gosto da severidade e quietude do mundo sob esta geada. Gosto de Thornfield, sua antiguidade, seu retiro, seus velhos corvos e espinheiros, sua fachada cinzenta, e fileiras de janelas escuras refletindo esse céu metálico: e contudo quanto tempo aborreci o próprio pensamento dela, evitei-a como uma grande casa de praga? Como ainda aborreço —
Ele rangeu os dentes e calou-se: deteve o passo e bateu a bota contra o chão duro. Algum pensamento odiado parecia tê-lo na garra, e segurá-lo tão firme que não podia avançar.
Subíamos a alameda quando ele assim parou; a sala estava diante de nós. Levantando o olhar às ameias, lançou sobre elas um brilho como nunca vi antes ou depois. Dor, vergonha, ira, impaciência, repulsa, detestação, pareceram por um momento travar conflito trêmulo na grande pupila que se dilatava sob a sobrancelha ébria. Selvagem foi a luta por qual seria predominante; mas outro sentimento surgiu e triunfou: algo duro e cínico: teimoso e resoluto: assentou sua paixão e petrificou o semblante: ele prosseguiu —
— Durante o momento em que fiquei silencioso, Miss Eyre, eu ajustava um ponto com meu destino. Ela estava ali, junto àquele tronco de faia — uma bruxa como uma das que apareceram a Macbeth no charneca de Forres. "Gosta de Thornfield?" disse ela, erguendo o dedo; e então escreveu no ar um memento, que corria em hieróglifos lúgubres por toda a frente da casa, entre a fileira superior e a inferior de janelas: "Goste se puder! Goste se ousar!"
— "Hei de gostar", disse eu; "ouso gostar"; e (acrescentou ele, carrancudo) "cumprirei minha palavra; romperei obstáculos à felicidade, à bondade — sim, bondade. Quero ser homem melhor do que tenho sido, do que sou; como o leviatã de Jó quebrou a lança, o dardo e o gibão, impedimentos que outros contam como ferro e bronze, hei de estimar apenas palha e madeira podre."
Adèle aqui correu à sua frente com o volante. — Fora! — gritou ele áspero; — fique à distância, criança; ou entre para Sophie! — Continuando então a caminhar em silêncio, aventurei-me a trazê-lo de volta ao ponto de onde abruptamente divergira —
— O senhor deixou a varanda, sir — perguntei —, quando Mdlle. Varens entrou?
Quase esperava uma repulsa por essa pergunta mal cronometrada, mas, pelo contrário, despertando de sua abstração carrancuda, ele voltou os olhos para mim, e a sombra pareceu clarear-lhe a testa. — Oh, eu tinha esquecido Céline! Bem, retomando. Quando vi minha encantadora assim entrar acompanhada de um cavalheiro, pareceu-me ouvir um sibilo, e a serpente verde do ciúme, erguendo-se em espirais ondulantes da varanda iluminada pela lua, deslizou por dentro de meu colete, e em dois minutos comeu-se até o núcleo de meu coração. Estranho! — exclamou ele, subitamente recomeçando do ponto. — Estranho que eu escolhesse você para confidente de tudo isto, jovem senhorita; passando de estranho que me ouça quietamente, como se fosse a coisa mais usual do mundo um homem como eu contar histórias de suas amantes de ópera a uma moça singular e inexperiente como você! Mas a última singularidade explica a primeira, como insinuei antes: você, com sua gravidade, consideração e cautela, foi feita para ser receptáculo de segredos. Além disso, sei que espécie de mente pus em comunicação com a minha: sei que é uma não sujeita a tomar infecção: é uma mente peculiar: é única. Felizmente não pretendo lhe causar dano: mas, se quisesse, não sofreria dano de mim. Quanto mais você e eu conversarmos, melhor; pois enquanto eu não a posso murchar, você pode me refrescar. Após essa digressão ele prosseguiu —
— Fiquei na varanda. "Hão de ir ao boudoir dela, sem dúvida", pensei: "preparemos uma emboscada." Assim, metendo a mão pela janela aberta, corri a cortina sobre ela, deixando apenas uma abertura por onde observar; então fechei a caixilho, salvo uma fresta larga o bastante para dar saída a sussurros de amantes: então voltei furtivo à cadeira; e ao retomá-la o par entrou. Meu olho logo estava na abertura. A criada de Céline entrou, acendeu uma lâmpada, deixou-a sobre a mesa, e retirou-se. O casal me foi assim revelado claramente: ambos removeram as capas, e lá estava "a Varens", brilhando em cetim e joias, — meus presentes, claro, — e lá estava seu companheiro em uniforme de oficial; e reconheci-o por um jovem libertino de um visconde — um moço sem juízo e vicioso que às vezes encontrara em sociedade, e nunca pensara em odiar porque o desprezava absolutamente. Ao reconhecê-lo, o dente da serpente Ciúme quebrou-se instantaneamente; porque no mesmo momento meu amor por Céline afundou sob um apagador. Uma mulher que me traísse por tal rival não valia a contenda; merecia apenas desprezo; menos, porém, do que eu, que fora seu tolo.
— Começaram a falar; a conversa me aliviou completamente: frívola, mercenária, sem coração e insensata, antes calculada para aborrecer do que enfurecer um ouvinte. Um cartão meu jazia sobre a mesa; sendo percebido, trouxe meu nome à discussão. Nenhum dos dois possuía energia ou espírito para me bater bem, mas insultaram-me tão grosseiramente quanto podiam à sua maneira: especialmente Céline, que até se tornou bastante brilhante sobre meus defeitos pessoais — deformidades os chamou. Ora, fora costume dela lançar-se em fervorosa admiração do que chamava minha "beauté mâle": wherein divergia diametralmente de você, que me disse sem rodeios, na segunda entrevista, que não me achava bonito. O contraste me impressionou à época e —
Adèle aqui veio correndo outra vez.
— Monsieur, John acaba de dizer que seu agente chamou e deseja vê-lo.
— Ah! nesse caso devo abreviar. Abrindo a janela, entrei sobre eles; libertei Céline de minha proteção; dei-lhe aviso para desocupar o hotel; ofereci-lhe uma bolsa para exigências imediatas; desprezei gritos, histerias, preces, protestos, convulsões; marquei encontro com o visconde no Bois de Boulogne. Na manhã seguinte tive o prazer de encontrá-lo; deixei uma bala num de seus pobres braços etiolados, fracos como a asa de um pintinho com pip, e então pensei haver acabado com toda a quadrilha. Mas, por infelicidade, a Varens, seis meses antes, dera-me esta filette Adèle, que, afirmou, era minha filha; e talvez o seja, embora não veja provas de tal paternidade sombria escritas em seu semblante: Pilot se parece mais comigo do que ela. Alguns anos após romper com a mãe, ela abandonou a criança, e fugiu para a Itália com um músico ou cantor. Não reconheci qualquer direito natural de Adèle de ser por mim sustentada, nem agora reconheço, pois não sou seu pai; mas sabendo que estava totalmente destituída, tirei a coitadinha da lama e do lodo de Paris, e a transplantei para cá, para crescer limpa no solo sadio de um jardim campestre inglês. Mrs. Fairfax achou-lhe você para educá-la; mas agora que sabe que é a prole ilegítima de uma cantora de ópera francesa, talvez veja seu posto e sua protegida de outro modo: há de vir um dia me dizer que achou outro lugar — que roga me procure uma nova governanta, &c. — Hem?
— Não: Adèle não responde nem pelas faltas da mãe nem pelas do senhor: tenho consideração por ela; e agora que sei que está, num sentido, sem pais — abandonada pela mãe e renegada pelo senhor, sir — hei de apegar-me a ela mais do que antes. Como poderia preferir a mimada pet de uma família rica, que odiaria sua governanta como um incômodo, a uma pequena órfã solitária, que se inclina a ela como a uma amiga?
— Oh, é sob essa luz que o vê! Bem, devo entrar agora; e você também: escurece.
Mas fiquei lá fora alguns minutos a mais com Adèle e Pilot — corri uma carreira com ela, e joguei volante. Quando entramos, e eu lhe tirei o boné e o casaco, pus-a no meu colo; mantive-a ali uma hora, deixando-a tagarelar como quisesse: sem repreender mesmo algumas liberdades e trivialidades em que costumava incorrer quando muito notada, e que denunciavam nela uma superficialidade de caráter, herdada provavelmente da mãe, pouco congenial a uma mente inglesa. Ainda tinha seus méritos; e disponha-me a apreciar tudo que nela houvesse de bom ao máximo. Busquei em seu rosto e feições uma semelhança com o Sr. Rochester, mas não achei nenhuma: nenhum traço, nenhum giro de expressão anunciava parentesco. Era pena: se se pudesse provar que se parecia com ele, ele a teria em maior conta.
Não foi senão depois de me retirar ao meu quarto para a noite, que examinei com calma o relato que o Sr. Rochester me fizera. Como ele dissera, não havia provavelmente nada de extraordinário na substância da narrativa em si: a paixão de um inglês rico por uma dançarina francesa, e a traição dela a ele, eram assuntos bastante cotidianos, sem dúvida, na sociedade; mas havia algo decididamente estranho no acesso de emoção que de súbito o tomara quando estava no ato de exprimir o contentamento presente de seu humor, e seu prazer reavivado no salão antigo e arredores. Meditei admirado sobre esse incidente; mas gradualmente dele me afastando, como o achasse por ora inexplicável, voltei-me à consideração do modo de meu patrão para comigo. A confiança que julgara fito repor em mim pareceu um tributo à minha discrição: considerei-a e aceitei-a como tal. Sua conduta tinha agora, há semanas, sido mais uniforme para comigo do que a princípio. Nunca parecia estar em meu caminho; não tinha acessos de altivez gelada: quando me encontrava inesperadamente, o encontro parecia bem-vindo; sempre tinha uma palavra e às vezes um sorriso para mim: quando convocada por convite formal à sua presença, era honrada com uma recepção cordial que me fazia sentir possuir realmente o poder de diverti-lo, e que essas conferências vespertinas eram buscadas tanto para seu prazer quanto para meu benefício.
Eu, de fato, falava comparativamente pouco, mas ouvia-o falar com deleite. Era sua natureza ser comunicativo; gostava de abrir a uma mente desconhecedora do mundo vislumbres de suas cenas e modos (não me refiro às cenas corruptas e maus caminhos, mas àqueles que derivavam interesse da grande escala em que eram atuados, da estranha novidade com que se caracterizavam); e eu tinha um vivo prazer em receber as novas ideias que ele oferecia, em imaginar os novos quadros que retratava, e segui-lo em pensamento pelas novas regiões que revelava, nunca assustada ou turbada por uma alusão nociva.
A facilidade de seu modo livrou-me de restrição dolorosa: a franqueza amistosa, tão correta quanto cordial, com que me tratava, atraía-me a ele. Sentia às vezes como se fosse meu parente e não meu patrão: ainda assim era imperioso às vezes; mas não me importava: via que era seu jeito. Tão feliz, tão gratificada fiquei com esse novo interesse acrescentado à vida, que cessei de suspirar por parentes: meu crescente destino em meia-lua pareceu alargar-se; os vazios da existência se preencheram; minha saúde corporal melhorou; ganhei carne e força.
E estava o Sr. Rochester agora feio aos meus olhos? Não, leitora: a gratidão, e muitas associações, todas prazerosas e geniais, faziam de seu rosto o objeto que melhor gostava de ver; sua presença numa sala era mais reconfortante do que a mais brilhante lareira. Ainda assim não esquecera seus defeitos; de fato, não podia, pois ele os trazia frequentemente à minha frente. Era orgulhoso, sardônico, áspero para com a inferioridade de toda espécie: na minha alma secreta sabia que sua grande bondade para comigo era balanceada por severidade injusta para com muitos outros. Era também de humor variável, inexplicavelmente; mais de uma vez, quando mandada chamar para ler-lhe, achei-o sentado na biblioteca sozinho, com a cabeça curvada sobre os braços dobrados; e, quando erguia o rosto, um carranca mórbido, quase maligno, escurecia suas feições. Mas acreditava que seu humor variável, sua aspereza, e seus antigos defeitos de moralidade (digo antigos, pois agora parecia corrigido deles) tinham sua fonte em alguma crua cruz de destino. Cria que era naturalmente homem de melhores tendências, princípios mais altos, e gostos mais puros do que aqueles que circunstâncias desenvolveram, educação instilou, ou destino encorajou. Pensava haver nele excelentes materiais; embora por ora pendessem juntos algo estragados e emaranhados. Não posso negar que me afligi por sua aflição, qualquer que fosse, e daria muito para aplacá-la.
Embora tivesse agora apagado minha vela e deitado na cama, não pude dormir por pensar em seu olhar quando parou na alameda, e contou como seu destino se erguera diante dele, e ousara ser feliz em Thornfield.
— Por que não? — perguntei a mim mesma. — O que o aliena da casa? Há de deixá-la outra vez em breve? Mrs. Fairfax disse que raras vezes ficava aqui mais de quinze dias de cada vez; e já está há oito semanas residente. Se for, a mudança será triste. Suponha que esteja ausente na primavera, verão e outono: quão sem alegria parecerão sol e dias bons!
Mal sei se dormira ou não após essa meditação; de qualquer modo, despertai inteiramente ao ouvir um vagaroso murmúrio, peculiar e lúgubre, que soou, pensei, logo acima de mim. Quis ter deixado minha vela acesa: a noite estava tristemente escura; meus ânimos, deprimidos. Levantei-me e sentei na cama, escutando. O som silenciou.
Tentei dormir outra vez; mas meu coração batia ansioso: minha tranqüilidade interior estava quebrada. O relógio, lá embaixo no salão, bateu duas. Justo então pareceu que minha porta de quarto foi tocada; como se dedos tivessem roçado os painéis ao tatear um caminho pela galeria escura fora. Disse: — Quem está aí? — Nada respondeu. Fiquei gelada de medo.
De súbito lembrei que podia ser Pilot, que, quando a porta da cozinha ficava aberta por acaso, não raras vezes subia até o limiar do quarto do Sr. Rochester: eu mesma o vira deitado ali pelas manhãs. A ideia um tanto me acalmou: deitei-me. O silêncio compõe os nervos; e como agora reinava novamente um silêncio intacto por toda a casa, comecei a sentir o retorno do sono. Mas não estava destinado que dormisse naquela noite. Um sonho mal se aproximara de meu ouvido, quando fugiu aterrorizado, espantado por um incidente que gelava a medula.
Este foi um riso demoníaco — baixo, sufocado e profundo — proferido, pareceu, bem na fechadura de minha porta de quarto. A cabeceira de minha cama ficava perto da porta, e pensei a princípio que o risonho-duende estivesse ao pé de minha cama — ou melhor, agachado junto a meu travesseiro: mas levantei-me, olhei em redor, e nada pude ver; enquanto, como ainda fitasse, o som não natural se repetiu: e soube vir de trás dos painéis. Meu primeiro impulso foi levantar-me e correr o ferrolho; meu próximo, outra vez gritar: — Quem está aí?
Algo gorgolejou e gemeu. Pouco depois, passos recuaram pela galeria em direção à escada do terceiro andar: uma porta fora recentemente feita para fechar essa escada; ouvi-a abrir e fechar, e tudo silenciou.
— Será Grace Poole? e estará possuída de um demônio? — pensei. Impossível ficar mais tempo sozinha: devo ir a Mrs. Fairfax. Apressei-me a pôr meu vestido e um xale; retirei o ferrolho e abri a porta com mão trêmula. Havia uma vela queimando justo fora, e sobre o esteiramento na galeria. Surpreendi-me com essa circunstância: mas mais ainda me admirei ao perceber o ar bastante turvo, como se cheio de fumaça; e, ao olhar à direita e à esquerda, para achar de onde vinham esses redemoinhos azuis, tornei-me ciente de um forte cheiro de queimado.
Algo rangeu: era uma porta entreaberta; e essa porta era a do Sr. Rochester, e a fumaça irrompia em nuvem dali. Não pensei mais em Mrs. Fairfax; não pensei mais em Grace Poole, ou no riso: num instante, estava dentro da câmara. Línguas de chama disparavam em torno da cama: as cortinas estavam em fogo. No meio das chamas e do vapor, o Sr. Rochester jazia estendido, imóvel, em sono profundo.
— Acorde! acorde! — gritei. Sacudi-o, mas ele apenas murmurou e virou-se: a fumaça o estupefizera. Nem um momento podia ser perdido: os próprios lençóis se incendiavam, lancei-me à bacia e ao jarro dele; felizmente, um era largo e o outro fundo, e ambos cheios d'água. Levantei-os, alaguei a cama e seu ocupante, voei de volta a meu próprio quarto, trouxe meu jarro d'água, batizei o leito de novo, e, com a ajuda de Deus, consegui extinguir as chamas que o devoravam.
O sibilar do elemento apagado, o quebrar de um jarro que atirei da mão ao esvaziá-lo, e, acima de tudo, o borrifar do chuveiro que generosamente distribuíra, despertou o Sr. Rochester afinal. Embora agora escuro, soube que estava acordado; porque ouvi-o fulminar estranhas anátemas ao achar-se deitado numa poça d'água.
— Há uma enchente? — gritou ele.
— Não, sir — respondi; — mas houve um fogo: levante-se, faça-o; está apagado agora; trarei uma vela.
— Em nome de todos os elfos da cristandade, é aquela Jane Eyre? — exigiu ele. — O que fez comigo, bruxa, feiticeira? Quem está no quarto além de você? Tramou afogar-me?
— Trarei uma vela, sir; e, pelo amor do Céu, levante-se. Alguém tramou alguma coisa: não pode descobrir quem e o que é cedo demais.
— Ali! Estou de pé agora; mas por sua conta e risco há de trazer vela ainda: espere dois minutos até eu pôr algum traje seco, se houver algum seco — sim, aqui está meu roupão. Agora corra!
Corri; trouxe a vela que ainda restava na galeria. Ele tomou-a de minha mão, ergueu-a, e examinou a cama, toda enegrecida e queimada, os lençóis encharcados, o tapete ao redor nadando em água.
— O que é? e quem o fez? — perguntou.
Relatei-lhe brevemente o que transpirara: o estranho riso que ouvira na galeria: o passo subindo ao terceiro andar; a fumaça, — o cheiro de fogo que me conduzira a seu quarto; em que estado achara as coisas ali, e como alagara ele com toda a água que pude alcançar.
— O que é e quem o fez? — perguntou ele.
Ele ouviu muito gravemente; seu rosto, enquanto eu prosseguia, exprimiu mais preocupação do que espanto; não falou imediatamente quando concluí.
— Chamo Mrs. Fairfax? — perguntei.
— Mrs. Fairfax? Não; que diabo a chamaria? O que ela pode fazer? Deixe-a dormir imperturbada.
— Então trarei Leah, e acordarei John e sua mulher.
— De modo algum: fique quieta. Tem um xale posto. Se não está bastante aquecida, pode tomar meu manto além; enrole-o em torno de si, e sente-se na poltrona: lá, — eu o porei. Agora ponha os pés no banco, para mantê-los fora da umidade. Vou deixá-la alguns minutos. Levarei a vela. Fique onde está até eu voltar; seja quieta como um camundongo. Devo fazer uma visita ao segundo andar. Não se mexa, lembre, nem chame ninguém.
Ele foi: observei a luz retirar-se. Ele passou pela galeria muito suavemente, abriu a porta da escada com o mínimo de ruído, fechou-a atrás de si, e o último raio desapareceu. Fiquei em total escuridão. Escutei algum ruído, mas não ouvi nada. Muito tempo transcorreu. Cans ei: fazia frio, apesar do manto; e então não via utilidade em ficar, pois não devia despertar a casa. Estava a ponto de arriscar o desagrado do Sr. Rochester desobedecendo suas ordens, quando a luz outra vez brilhou frouxamente na parede da galeria, e ouvi seus pés descalços pisar o esteiramento. — Espero que seja ele — pensei — e não algo pior.
Reentrou, pálido e muito carrancudo. — Descobri tudo — disse, pondo a vela sobre a bacia; — é como pensei.
— Como, sir?
Não respondeu, mas ficou de braços cruzados, olhando o chão. Ao fim de alguns minutos indagou num tom bastante peculiar —
— Esqueço se disse ter visto algo ao abrir a porta de seu quarto.
— Não, sir, apenas o castiçal no chão.
— Mas ouviu um riso estranho? Já ouviu esse riso antes, penso, ou algo parecido?
— Sim, sir: há uma mulher que costura aqui, chamada Grace Poole, — ela ri desse jeito. É uma pessoa singular.
— Exatamente. Grace Poole — adivinhou. Ela é, como diz, singular — muito. Bem, refletirei sobre o assunto. Entretanto, folgo que seja a única pessoa, além de mim, a par dos precisos detalhes do incidente desta noite. Não é uma tola faladora: não diga nada a respeito. Hei de dar conta desse estado de coisas (apontando à cama): e agora volte a seu quarto. Passarei muito bem no sofá da biblioteca pelo resto da noite. É perto de quatro: — em duas horas os criados hão de levantar.
— Boa-noite, então, sir — disse eu, partindo.
Ele pareceu surpreso — muito inconsistentemente, pois acabara de dizer-me ir.
— O quê! — exclamou — já me deixa, e desse modo?
— O senhor disse que podia ir, sir.
— Mas não sem despedir-se; não sem uma palavra ou duas de reconhecimento e boa-vontade: não, em suma, nessa maneira breve e seca. Por que, salvou-me a vida! — arrancou-me de uma morte horrível e excruciante! e passa por mim como se fôssemos estranhos mútuos! Ao menos aperte as mãos.
Estendeu a mão; dei-lhe a minha: ele tomou-a primeiro numa, depois em ambas as suas.
— Salvou-me a vida: tenho prazer em dever-lhe dívida tão imensa. Não posso dizer mais. Nada mais que tivesse ser tolerável para mim no caráter de credor por tal obrigação: mas você: é diferente; — sinto seus benefícios sem peso, Jane.
Ele pausou; fitou-me: palavras quase visíveis tremeluziam em seus lábios, — mas sua voz foi contida.
— Boa-noite outra vez, sir. Não há dívida, benefício, peso, obrigação, no caso.
— Eu sabia — continuou ele — que me faria bem de algum modo, em algum tempo; — vi isso em seus olhos quando primeiro a vi: sua expressão e sorriso não — (parou outra vez) — não (prosseguiu apressado) — golpearam deleite a meu íntimo coração por nada. Falam de simpatias naturais; ouvi de bons gênios: há grãos de verdade na mais selvagem fábula. Minha querida preservadora, boa-noite!
Estranha energia havia em sua voz, estranho fogo em seu olhar.
— Folgo ter acontecido estar acorda — disse eu: e então ia indo.
— O quê! há de ir?
— Estou com frio, sir.
— Frio? Sim, — e em pé numa poça! Vá, então, Jane; vá! — Mas ainda retinha minha mão, e não a pude libertar. Lembrei-me de um expediente.
— Penso ouvir Mrs. Fairfax mexer, sir — disse eu.
— Bem, deixe-me: — ele relaxou os dedos, e eu parti.
Recobrei meu leito, mas nunca pensei em sono. Até a manhã clarear fui lançada num mar flutuante mas inquieto, onde ondas de aflição rolavam sob vagas de alegria. Pensei às vezes ver além de suas águas bravas uma praia, doce como os outeiros de Beulah; e ora uma brisa revigorante, desperta pela esperança, levava meu espírito triunfante para o termo: mas não podia alcançá-lo, nem em fantasia — uma brisa contrária soprava da terra, e continuamente me empurrava de volta. O senso resistiria ao delírio: o juízo advertiria à paixão. Demasiado febril para repousar, levantei-me assim que a aurora raiou.