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**Capítulo 17: CAPÍTULO III—O HEROÍSMO DA OBEDIÊNCIA PASSIVA**
**CAPÍTULO III—O HEROÍSMO DA OBEDIÊNCIA PASSIVA**
A porta abriu-se.
Abriu-se de par em par com um movimento rápido, como se alguém lhe tivesse dado um empurrão enérgico e resoluto.
Um homem entrou.
Já conhecemos o homem. Era o viajante que vimos a vaguear em busca de abrigo.
Entrou, avançou um passo e parou, deixando a porta aberta atrás de si. Trazia a mochila aos ombros, o cajado na mão, uma expressão rude, audaciosa, cansada e violenta nos olhos. O fogo da lareira iluminou-o. Era hediondo. Era uma aparição sinistra.
A Sra. Madalena nem sequer teve forças para soltar um grito. Tremia e ficou de boca escancarada.
A Srta. Batistina virou-se, viu o homem a entrar e ergueu-se a meio, aterrorizada; depois, voltando a cabeça gradualmente para a lareira, começou a observar o irmão, e o seu rosto tornou-se novamente profunda e serenamente calmo.
O Bispo fixou um olhar tranquilo no homem.
Quando abriu a boca, sem dúvida para perguntar ao recém-chegado o que desejava, o homem apoiou ambas as mãos no bordão, dirigiu o olhar para o velho e as duas mulheres e, sem esperar que o Bispo falasse, disse em voz alta:
— Vejam bem. Chamo-me João Valjean. Sou um forçado das galés. Passei dezanove anos nas galés. Fui libertado há quatro dias e estou a caminho de Pontarlier, que é o meu destino. Tenho caminhado quatro dias desde que saí de Toulon. Hoje percorri doze léguas a pé. Esta noite, quando cheguei a estas bandas, fui a uma estalagem, e eles puseram-me fora, por causa do meu passaporte amarelo, que eu mostrei na câmara municipal. Tive de o fazer. Fui a uma estalagem. Disseram-me: ‘Vá-se embora’, em ambos os sítios. Ninguém me quis. Fui à prisão; o carcereiro não me deixou entrar. Entrei numa casota de cão; o cão mordeu-me e pôs-me em fuga, como se fosse um homem. Dir-se-ia que sabia quem eu era. Fui para os campos, com a intenção de dormir ao ar livre, sob as estrelas. Não havia estrelas. Pensei que ia chover, e voltei a entrar na cidade, para procurar o resguardo de uma porta. Lá, na praça, tencionava dormir num banco de pedra. Uma boa mulher apontou-me a vossa casa e disse-me: ‘Bata aí!’ Bati. Que lugar é este? Têm estalagem? Tenho dinheiro—economias. Cento e nove francos e quinze soldos, que ganhei nas galés com o meu trabalho, ao longo de dezanove anos. Pagarei. O que me importa? Tenho dinheiro. Estou muito cansado; doze léguas a pé; estou com muita fome. Estão dispostos a que eu fique?
— Sra. Madalena — disse o Bispo —, ponha mais um lugar.
O homem avançou três passos e aproximou-se do candeeiro que estava sobre a mesa. — Pare — retomou ele, como se não tivesse percebido bem —, não é isso. Ouviu? Sou um forçado das galés; um condenado. Venho das galés. — Tirou do bolso uma folha grande de papel amarelo, que desdobrou. — Aqui está o meu passaporte. Amarelo, como vê. Isto serve para me expulsar de todo o sítio aonde vou. Quer lê-lo? Sei ler. Aprendi nas galés. Há lá uma escola para quem quer aprender. Olhe, isto é o que puseram neste passaporte: ‘João Valjean, forçado libertado, natural de’—isso não lhe interessa—‘esteve dezanove anos nas galés: cinco anos por arrombamento e roubo; catorze anos por ter tentado evadir-se em quatro ocasiões. É um homem muito perigoso.’ Pronto! Todos me rejeitaram. Está disposto a receber-me? Isto é uma estalagem? Quer dar-me alguma coisa para comer e uma cama? Tem uma cavalariça?
— Sra. Madalena — disse o Bispo —, colocará lençóis brancos na cama do nicho. Já explicámos o carácter da obediência das duas mulheres.
A Sra. Madalena retirou-se para executar estas ordens.
O Bispo voltou-se para o homem.
— Sente-se, senhor, e aqueça-se. Vamos cear dentro de momentos, e a sua cama será preparada enquanto ceia.
Neste ponto, o homem compreendeu subitamente. A expressão do seu rosto, até então sombria e áspera, trazia a marca do estupor, da dúvida, da alegria, e tornou-se extraordinária. Começou a gaguejar como um louco:
— A sério? O quê? Vai ficar comigo? Não me põe fora? Um forçado! Chama-me _senhor!_ Não me trata por _tu?_ ‘Sai daqui, seu cão!’ é o que as pessoas me dizem sempre. Tinha a certeza de que me expulsaria, por isso lhe disse logo quem sou. Oh, que boa mulher foi aquela que me orientou para aqui! Vou cear! Uma cama com colchão e lençóis, como o resto do mundo! uma cama! Há dezanove anos que não durmo numa cama! Na verdade, não quer que me vá! Vocês são boas pessoas. Além disso, tenho dinheiro. Pagarei bem. Perdoe-me, senhor estalajadeiro, mas como se chama? Pagarei tudo o que pedir. Você é um bom homem. É estalajadeiro, não é?
— Sou — respondeu o Bispo —, um padre que vive aqui.
— Um padre! — disse o homem. — Oh, que grande padre! Então não vai exigir dinheiro nenhum de mim? É o cura, não é? o cura desta grande igreja? Bem! Sou um tolo, deveras! Não tinha reparado no seu solidéu.
Enquanto falava, depositou a mochila e o cajado num canto, guardou o passaporte no bolso e sentou-se. A Srta. Batistina olhava para ele com brandura. Ele continuou:
— O senhor é humano, Senhor Cura; não me desprezou. Um bom padre é uma coisa muito boa. Então não exige que eu pague?
— Não — disse o Bispo —; guarde o seu dinheiro. Quanto tem? Não me disse cento e nove francos?
— E quinze soldos — acrescentou o homem. — Cento e nove francos e quinze soldos. E quanto tempo demorou a ganhá-los? — Dezanove anos. — Dezanove anos!
O Bispo suspirou profundamente.
O homem continuou: — Ainda tenho todo o meu dinheiro. Em quatro dias, só gastei vinte e cinco soldos, que ganhei ajudando a descarregar uns vagões em Grasse. Já que é um abade, vou-lhe dizer que tínhamos um capelão nas galés. E um dia vi lá um bispo. Monseigneur é como lhe chamam. Era o Bispo de Majore, em Marselha. É o cura que manda nos outros curas, entende. Perdoe-me, digo isto muito mal; mas é uma coisa tão distante para mim! O senhor compreende o que somos! Ele disse missa no meio das galés, num altar. Tinha uma coisa pontiaguda, feita de ouro, na cabeça; brilhava na luz clara do meio-dia. Nós estávamos todos alinhados em filas nos três lados, com canhões com mechas acesas virados para nós. Não víamos muito bem. Ele falou; mas estava demasiado longe, e não ouvimos. Assim é que é um bispo.
Enquanto ele falava, o Bispo tinha ido fechar a porta, que permanecera escancarada.
A Sra. Madalena voltou. Trouxe um garfo e uma colher de prata, que colocou sobre a mesa.
— Sra. Madalena — disse o Bispo —, coloque esses objetos o mais perto possível do fogo. E voltando-se para o seu hóspede: — O vento da noite é forte nos Alpes. Deve estar com frio, senhor.
Cada vez que pronunciava a palavra _senhor_, na sua voz que era tão suavemente grave e polida, o rosto do homem iluminava-se. _Monsieur_ para um forçado é como um copo de água para um dos náufragos da _Medusa_. A ignomínia anseia por consideração.
— Este candeeiro dá uma luz muito fraca — disse o Bispo.
A Sra. Madalena compreendeu-o e foi buscar os dois castiçais de prata da chaminé do quarto de dormir de Monsenhor, e colocou-os, acesos, sobre a mesa.
— Senhor Cura — disse o homem —, o senhor é bom; não me despreza. Recebe-me na sua casa. Acende as suas velas por mim. No entanto, não lhe escondi de onde venho e que sou um homem desgraçado.
O Bispo, que estava sentado perto dele, tocou-lhe suavemente na mão. — Não podia deixar de me dizer quem era. Esta não é a minha casa; é a casa de Jesus Cristo. Esta porta não pergunta a quem entra se tem um nome, mas se tem uma dor. O senhor sofre, tem fome e sede; seja bem-vindo. E não me agradeça; não diga que o recebo na minha casa. Ninguém está em casa aqui, exceto o homem que precisa de um refúgio. Digo-lhe a si, que está de passagem, que está muito mais em casa aqui do que eu próprio. Tudo aqui é seu. Que necessidade tenho eu de saber o seu nome? Além disso, antes de mo dizer, o senhor já tinha um nome que eu conhecia.
O homem abriu os olhos de espanto.
— A sério? Sabia como me chamava?
— Sim — respondeu o Bispo —, chama-se meu irmão.
— Pare, Senhor Cura — exclamou o homem. — Eu estava com muita fome quando entrei aqui; mas o senhor é tão bom, que já não sei o que me aconteceu.
O Bispo olhou para ele e disse:
— Sofreu muito?
— Oh, a jaqueta vermelha, a bola no tornozelo, uma tábua para dormir, calor, frio, trabalho, os forçados, as sovaças, a dupla corrente por nada, a cela por uma palavra; mesmo doente e na cama, ainda a corrente! Os cães, os cães são mais felizes! Dezanove anos! Tenho quarenta e seis. Agora há o passaporte amarelo. É assim que é.
— Sim — retomou o Bispo —, o senhor veio de um lugar muito triste. Ouça. Haverá mais alegria no céu pelo rosto banhado de lágrimas de um pecador arrependido do que pelas vestes brancas de cem justos. Se sai desse lugar triste com pensamentos de ódio e de ira contra a humanidade, é digno de pena; se sai com pensamentos de boa vontade e de paz, é mais digno do que qualquer um de nós.
Entretanto, a Sra. Madalena tinha servido a ceia: sopa, feita com água, azeite, pão e sal; um pouco de toucinho, um bocado de carneiro, figos, um queijo fresco e um grande pão de centeio. Ela tinha, por sua própria iniciativa, acrescentado à refeição habitual do Bispo uma garrafa do seu velho vinho de Mauves.
O rosto do Bispo assumiu de imediato aquela expressão de alegria que é peculiar às naturezas hospitaleiras. — À mesa! — exclamou vivamente. Como era seu costume quando um estranho ceava com ele, fez o homem sentar-se à sua direita. A Srta. Batistina, perfeitamente tranquila e natural, sentou-se à sua esquerda.
O Bispo disse a bênção; depois, serviu a sopa ele próprio, segundo o seu costume. O homem começou a comer com avidez.
De repente, o Bispo disse: — Parece-me que falta qualquer coisa nesta mesa.
A Sra. Madalena, de facto, só tinha colocado os três conjuntos de garfos e colheres que eram absolutamente necessários. Ora, era uso da casa, quando o Bispo tinha alguém para ceiar, dispor todos os seis conjuntos de prata na toalha da mesa—uma ostentação inocente. Esta graciosa aparência de luxo era uma espécie de brincadeira de criança, que era cheia de encanto naquela casa gentil e severa, que elevava a pobreza à dignidade.
A Sra. Madalena compreendeu a observação, saiu sem dizer uma palavra e, um momento depois, os três conjuntos de garfos e colheres de prata exigidos pelo Bispo reluziam sobre a toalha, simetricamente dispostos diante das três pessoas sentadas à mesa.