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Capítulo 345: CAPÍTULO IV—MADEMOISELLE GILLENORMAND ACABA POR NÃO ACHAR MAIS RUIM QUE M. FAUCHELEVENT TENHA ENTRADO COM ALGO DEBAIXO DO BRAÇO
Cosette e Mário se viram novamente.
Não diremos como foi esse encontro. Há coisas que não se deve tentar descrever; o sol é uma delas.
Toda a família, inclusive Basque e Nicolette, estava reunida no quarto de Mário no momento em que Cosette entrou.
Naquele exato instante, o avô estava prestes a assoar o nariz; ele parou de repente, segurando o nariz no lenço, e olhando por cima dele para Cosette.
Ela apareceu na soleira; pareceu-lhe que ela estava envolta em uma glória.
— Adorável! — exclamou ele.
Então assoou o nariz ruidosamente.
Cosette estava embriagada, encantada, assustada, no paraíso. Ela estava tão alarmada quanto alguém pode estar pela felicidade. Gaguejou, pálida e ao mesmo tempo ruborizada, queria se jogar nos braços de Mário e não ousava. Envergonhada de amar na presença de todas aquelas pessoas. As pessoas são impiedosas com os amantes felizes; permanecem quando estes mais desejam ficar sozinhos. Os amantes não precisam de ninguém.
Com Cosette, e atrás dela, entrara um homem de cabelos brancos, grave, mas sorridente, embora com um sorriso vago e de partir o coração. Era o "Senhor Fauchelevent"; era Jean Valjean.
Ele estava muito bem vestido, como o porteiro dissera, todo de preto, em roupas perfeitamente novas, e com uma gravata branca.
O porteiro estava a mil léguas de reconhecer naquele burguês correto, naquele provável notário, o assustador portador do cadáver, que surgira à sua porta na noite de 7 de junho, esfarrapado, enlameado, hediondo, abatido, o rosto mascarado de sangue e lama, sustentando nos braços o desfalecido Mário; ainda assim, seu faro de porteiro se aguçara. Quando o Sr. Fauchelevent chegou com Cosette, o porteiro não pudera deixar de comunicar à sua mulher este aparte: "Não sei por que, mas não consigo deixar de imaginar que já vi esse rosto antes."
O Sr. Fauchelevent, no quarto de Mário, permaneceu afastado, perto da porta. Trazia debaixo do braço um pacote que se assemelhava consideravelmente a um volume in-oitavo envolto em papel. O papel de embrulho era de um tom esverdeado e parecia mofado.
— O senhor sempre carrega livros assim debaixo do braço? — perguntou Mademoiselle Gillenormand, que não gostava de livros, em voz baixa a Nicolette.
— Ora — retrucou o Sr. Gillenormand, que a ouvira, no mesmo tom —, ele é um homem culto. E daí? É culpa dele? O senhor Boulard, um conhecido meu, também nunca saía sem um livro debaixo do braço, e sempre trazia algum volume velho assim abraçado ao peito.
E, com uma reverência, disse em voz alta:
— Senhor Tranchelevent...
O pai Gillenormand não o fazia de propósito, mas a desatenção aos nomes próprios era um hábito aristocrático seu.
— Senhor Tranchelevent, tenho a honra de pedir-lhe, em nome de meu neto, o Barão Mário Pontmercy, a mão da senhorita.
O senhor Tranchelevent fez uma reverência.
— Está resolvido — disse o avô.
E, voltando-se para Mário e Cosette, com ambos os braços estendidos em bênção, gritou:
— Permissão para se adorarem!
Eles não precisaram que ele repetisse duas vezes. Tanto pior! O chilrear começou. Falavam baixo. Mário, apoiado no cotovelo sobre a poltrona reclinável, Cosette de pé ao lado dele. — Oh, céus! — murmurou Cosette. — Vejo-te novamente! És tu! É você! A ideia de ir lutar assim! Mas por quê? É horrível. Estive morta por quatro meses. Oh! como foi mau da sua parte ir para aquela batalha! O que eu lhe fiz? Perdoo-o, mas o senhor nunca mais fará isso. Há pouco, quando vieram nos dizer para vir até você, ainda pensei que fosse morrer, mas era de alegria. Estava tão triste! Não tive tempo de me arrumar, devo estar assustando as pessoas com minha aparência! O que seus parentes vão dizer ao me ver com uma gola amarrotada? Fale! Você me deixa falar sozinha. Ainda estamos na Rua do Homem Armado. Parece que seu ombro estava horrível. Disseram-me que se podia enfiar o punho nele. E então, parece que lhe cortaram a carne com a tesoura. Isso é medonho. Chorei tanto que não tenho mais olhos. É estranho que uma pessoa possa sofrer assim. Seu avô tem um ar muito bondoso. Não se incomode, não se levante sobre o cotovelo, vai se machucar. Oh! como estou feliz! Então nossa desgraça acabou! Estou muito boba. Tinha coisas para lhe dizer, e já não sei mais o que eram. Você ainda me ama? Moramos na Rua do Homem Armado. Não há jardim. Fiz compressas o tempo todo; veja, senhor, olhe, é culpa sua, tenho um calo nos dedos.
— Anjo! — disse Mário.
_Anjo_ é a única palavra na língua que não se pode desgastar. Nenhuma outra palavra resistiria ao uso impiedoso que os amantes fazem dela.
Então, como havia espectadores, eles pararam e não disseram mais nada, contentando-se em tocar suavemente as mãos um do outro.
O Sr. Gillenormand voltou-se para os que estavam no aposento e gritou:
— Falem alto, os outros. Façam barulho, vocês dos bastidores. Vamos, um pouco de algazarra, raios! para que as crianças possam tagarelar à vontade.
E, aproximando-se de Mário e Cosette, disse-lhes em voz muito baixa:
— Tratem-se por _tu_. Não façam cerimônia.
A tia Gillenormand observava com espanto aquela irrupção de luz em seu lar idoso. Não havia nada de agressivo nesse espanto; não era nem de longe o olhar escandalizado e invejoso de uma coruja diante de duas rolinhas, era o olhar estúpido de uma pobre inocente de cinquenta e sete anos; era uma vida que fracassara contemplando aquele triunfo, o amor.
— Mademoiselle Gillenormand, a mais velha — disse-lhe o pai —, eu lhe disse que isso lhe aconteceria.
Ele permaneceu em silêncio por um momento, e depois acrescentou:
— Olhe a felicidade dos outros.
Então se voltou para Cosette.
— Como é bonita! como é bonita! É uma Greuze. Então você vai ficar com tudo isso só para si, seu patife! Ah! meu malandro, você está saindo bem comigo, está feliz; se eu não fosse quinze anos mais velho, lutaríamos a espada para ver quem ficava com ela. Ora essa! Estou apaixonado pela senhorita. É perfeitamente simples. É seu direito. Você está certa. Ah! que casamento doce e encantador será este! Nossa paróquia é Saint-Denis du Saint Sacrament, mas conseguirei uma dispensa para que se casem em Saint-Paul. A igreja é melhor. Foi construída pelos jesuítas. É mais coquete. Fica em frente à fonte do Cardeal de Birague. A obra-prima da arquitetura jesuíta está em Namur. Chama-se Saint-Loup. Vocês devem ir para lá depois de casados. Vale a viagem. Senhorita, concordo plenamente com a senhora, acho que as moças devem se casar; é para isso que foram feitas. Há uma certa Santa Catarina que eu gostaria de ver sempre despenteada. É bonito ficar solteira, mas é frio. A Bíblia diz: Multiplicai-vos. Para salvar o povo, é preciso Joana d'Arc; mas para fazer o povo, o que se precisa é da Mãe Gansa. Então, casem-se, minhas beldades. Eu realmente não vejo utilidade em ficar solteira! Sei que elas têm sua capela separada na igreja, e que se refugiam na Sociedade da Virgem; mas, sapristi, um marido bonito, um bom rapaz, e, no fim de um ano, um bebê loiro e gordo que mama vigorosamente, e que tem belas rolinhas de gordura nas coxas, e que amassa o peito da gente com punhados com suas pequenas patas rosadas, rindo enquanto isso como a aurora, — isso é melhor do que segurar uma vela nas vésperas e cantar _Turris Eburnea_!
O avô executou uma pirueta sobre seus calcanhares de oitenta anos e começou a falar novamente como uma mola que se soltou mais uma vez:
— "Assim, limitando o curso de teus devaneios, Alcipe, é então verdade, dentro em pouco te casas."
— A propósito!
— O que é, pai?
— Você não tem um amigo íntimo?
— Sim, Courfeyrac.
— O que aconteceu com ele?
— Está morto.
— Isso é bom.
Sentou-se perto deles, fez Cosette sentar-se e tomou as quatro mãos deles em suas mãos envelhecidas e enrugadas:
— Ela é requintada, esta querida. É uma obra-prima, esta Cosette! É uma menina muito pequena e uma grande senhora. Será apenas uma Baronesa, o que é um rebaixamento para ela; nasceu Marquesa. Que cílios ela tem! Gravem bem em suas cabeças, meus filhos, que vocês estão no caminho certo. Amem-se. Sejam tolos por isso. O amor é a loucura dos homens e a sabedoria de Deus. Adorem-se. Só que — acrescentou, tornando-se subitamente sombrio —, que infortúnio! Acabei de me lembrar! Mais da metade do que possuo está consumido em uma anuidade; enquanto eu viver, não importará, mas depois da minha morte, daqui a vinte anos, ah! meus pobres filhos, vocês não terão um tostão! Suas lindas mãos brancas, Madame a Baronesa, terão a honra de puxar o diabo pelo rabo.
Nesse momento, ouviram uma voz grave e tranquila dizer:
— Mademoiselle Euphrasie Fauchelevent possui seiscentos mil francos.
Era a voz de Jean Valjean.
Até então, ele não havia dito uma única palavra, ninguém parecia notar que ele estava ali, e ele permanecera de pé, ereto e imóvel, atrás de toda aquela gente feliz.
— O que tem Mademoiselle Euphrasie a ver com a questão? — inquiriu o avô, sobressaltado.
— Sou eu — respondeu Cosette.
— Seiscentos mil francos? — retomou o Sr. Gillenormand.
— Menos catorze ou quinze mil francos, talvez — disse Jean Valjean.
E colocou sobre a mesa o pacote que Mademoiselle Gillenormand confundira com um livro.
O próprio Jean Valjean abriu o pacote; era um maço de notas bancárias. Foram viradas e contadas. Havia quinhentas notas de mil francos cada, e cento e sessenta e oito de quinhentos. Ao todo, quinhentos e oitenta e quatro mil francos.
— Este é um livro bonito — disse o Sr. Gillenormand.
— Quinhentos e oitenta e quatro mil francos! — murmurou a tia.
— Isso resolve bem as coisas, não é, Mademoiselle Gillenormand, a mais velha? — disse o avô. — Aquele diabo do Mário desenterrou o ninho de uma grisette milionária em sua árvore de sonhos! Confiem agora nos casos de amor dos jovens! Estudantes encontram estudantes com seiscentos mil francos. Querubino trabalha melhor do que Rothschild.
— Quinhentos e oitenta e quatro mil francos! — repetiu Mademoiselle Gillenormand, em voz baixa. — Quinhentos e oitenta e quatro! bem podemos dizer seiscentos mil!
Quanto a Mário e Cosette, eles se olhavam enquanto isso acontecia; mal notaram esse detalhe.