Português
CAPÍTULO TRINTA E DOIS PROBLEMAS DELICADOS
— Jo, estou preocupada com a Beth.
— Mas, mãe, ela parece estar excepcionalmente bem desde que os bebês nasceram.
— Não é a saúde dela que me preocupa agora, são os ânimos dela. Tenho certeza de que há algo em sua mente, e quero que você descubra o que é.
— O que a faz pensar assim, mãe?
— Ela fica sozinha boa parte do tempo, e não conversa com o pai tanto quanto costumava. Outro dia a encontrei chorando por causa dos bebês. Quando ela canta, as canções são sempre tristes, e de vez em quando vejo um olhar em seu rosto que não compreendo. Isso não é próprio da Beth, e me deixa inquieta.
— A senhora perguntou a ela sobre o assunto?
— Tentei uma ou duas vezes, mas ela ou desviava minhas perguntas ou parecia tão aflita que eu parava. Nunca obrigo meus filhos a confiarem em mim, e raramente preciso esperar muito.
A Sra. March olhou para Jo enquanto falava, mas o rosto à frente parecia perfeitamente inconsciente de qualquer inquietação secreta além da de Beth, e depois de costurar pensativamente por um minuto, Jo disse: — Acho que ela está crescendo, e por isso começa a sonhar, a ter esperanças e medos e inquietações, sem saber por quê ou conseguir explicá-los. Ora, mãe, a Beth tem dezoito anos, mas não percebemos isso, e a tratamos como uma criança, esquecendo que ela é uma mulher.
— Ela é mesmo. Pobre coração, como vocês crescem rápido — retornou a mãe com um suspiro e um sorriso.
— Não há remédio, Marmee, então a senhora deve resignar-se a todo tipo de preocupação, e deixar seus passarinhos saírem do ninho, um a um. Prometo nunca saltar muito longe, se isso for algum consolo para a senhora.
— É um grande consolo, Jo. Sempre me sinto forte quando você está em casa, agora que a Meg se foi. A Beth é frágil demais e a Amy jovem demais para dependermos delas, mas quando chega a hora difícil, você está sempre pronta.
— Ora, a senhora sabe que não me importo muito com trabalhos duros, e sempre tem de haver uma faxineira na família. A Amy é esplêndida em trabalhos finos e eu não, mas me sinto no meu elemento quando todos os tapetes precisam ser levantados, ou metade da família adoece de uma vez. A Amy está se distinguindo lá fora, mas se algo dá errado em casa, sou sua pessoa.
— Deixo a Beth em suas mãos, então, pois ela abrirá seu coraçãozinho terno à sua Jo antes do que a qualquer outra pessoa. Seja muito gentil, e não deixe que ela pense que alguém a observa ou fala sobre ela. Se ela apenas voltasse a ficar bem e alegre, não teria mais nenhum desejo no mundo.
— Mulher feliz! Eu tenho montanhas.
— Minha querida, quais são elas?
— Vou resolver os problemas da Bethy, e então conto os meus. Não são muito desgastantes, então podem esperar. — e Jo costurou, com um aceno sagaz que deixou o coração da mãe em paz quanto a ela, pelo menos por enquanto.
Aparentemente absorta em seus próprios afazeres, Jo observava Beth, e depois de muitas conjecturas conflitantes, finalmente se fixou em uma que parecia explicar a mudança nela. Um pequeno incidente deu a Jo a pista do mistério, pensou ela, e a imaginação viva e o coração amoroso fizeram o resto. Ela fingia escrever ocupada numa tarde de sábado, quando estavam sozinhas, ela e Beth. Contudo, enquanto rabiscava, mantinha o olho na irmã, que parecia estranhamente quieta. Sentada à janela, o trabalho de Beth muitas vezes caía no colo, e ela apoiava a cabeça na mão, numa atitude abatida, enquanto seus olhos repousavam sobre a paisagem sombria e outonal. De repente alguém passou embaixo, assobiando como um melro de ópera, e uma voz chamou: — Tudo em ordem! Vou entrar hoje à noite.
Beth sobressaltou-se, inclinou-se para a frente, sorriu e acenou, observou o passante até que seu passo rápido se apagou ao longe, então disse baixinho, como para si mesma: — Como aquele querido menino parece forte, bem e feliz.
— Hum! — disse Jo, ainda atenta ao rosto da irmã, pois a cor viva se esvaiu tão rápido quanto viera, o sorriso desapareceu, e logo uma lágrima brilhou no parapeito da janela. Beth a enxugou com um gesto, e em seu rosto meio desviado Jo leu uma tristeza terna que fez seus próprios olhos se encherem. Temendo trair-se, ela se esgueirou, murmurando algo sobre precisar de mais papel.
— Misericórdia, a Beth ama o Laurie! — disse ela, sentando-se em seu próprio quarto, pálida com o choque da descoberta que acreditava acabar de fazer. — Nunca sonhei com uma coisa dessas. O que dirá a mãe? Será que ele... — aqui Jo parou e ficou escarlate com um pensamento súbito. — Se ele não corresponder, que coisa terrível seria. Ele tem de corresponder. Vou fazer ele corresponder! — e ela sacudiu a cabeça ameaçadoramente para o retrato do menino de aparência travessa que ria dela na parede. — Oh céus, estamos crescendo à toda. Aqui está a Meg casada e mamãe, a Amy florescendo em Paris, e a Beth apaixonada. Sou a única que tem juizo suficiente para ficar fora de encrenca. — Jo pensou intensamente por um minuto com os olhos fixos no retrato, então alisou a testa enrugada e disse, com um aceno decidido para o rosto oposto: — Não, obrigada, senhor, o senhor é muito encantador, mas não tem mais estabilidade que um cata-vento. Então não precisa escrever bilhetes tocantes e sorrir desse jeito insinuante, pois não adiantará nada, e eu não vou aceitar.
Então ela suspirou, e caiu num devaneio do qual não acordou até o crepúsculo cedo enviá-la lá embaixo para novas observações, que apenas confirmaram sua suspeita. Embora Laurie flertasse com Amy e brincasse com Jo, seu modo com Beth sempre fora peculiarmente gentil e meigo, mas o de todos era também. Portanto, ninguém pensou em imaginar que ele se importava mais com ela do que com as outras. Na verdade, uma impressão geral prevalecera na família ultimamente de que 'nosso menino' estava ficando mais afeiçoado que nunca à Jo, que, contudo, não queria ouvir uma palavra sobre o assunto e ralhava violentamente se alguém ousasse sugerir. Se soubessem das várias passagens ternas que foram cortadas pela raiz, teriam a imensa satisfação de dizer: 'Eu avisei'. Mas Jo odiava 'paqueras', e não as permitia, sempre tendo uma piada ou um sorriso pronto ao menor sinal de perigo iminente.
Quando Laurie foi pela primeira vez para a faculdade, ele se apaixonava cerca de uma vez por mês, mas essas pequenas chamas eram tão breves quanto ardentes, não causavam dano, e divertiam muito Jo, que tomava grande interesse nas alternâncias de esperança, desespero e resignação, que lhe eram confiadas em suas conferências semanais. Mas chegou um tempo em que Laurie cessou de adorar em muitos santuários, insinuou obscuramente uma paixão absorvente, e se entregava ocasionalmente a acessos byronianos de melancolia. Então ele evitou o assunto terno por completo, escreveu notas filosóficas a Jo, tornou-se estudioso, e declarou que ia 'cavar', pretendendo graduar-se num clarão de glória. Isso agradava mais à jovem do que confidências ao crepúsculo, apertos de mão ternos e olhares eloquentes, pois em Jo o cérebro se desenvolveu antes do coração, e ela preferia heróis imaginários a reais, porque quando cansada deles, os primeiros podiam ser guardados na cozinha de lata até serem chamados, e os últimos eram menos manejáveis.
As coisas estavam nesse estado quando a grande descoberta foi feita, e Jo observou Laurie naquela noite como nunca antes. Se não tivesse metido na cabeça a ideia nova, não teria visto nada de incomum no fato de Beth estar muito quieta, e Laurie muito gentil com ela. Mas tendo dado rédeas à sua imaginação viva, ela galopou com ela num grande passo, e o bom senso, um tanto enfraquecido por um longo curso de escrita de romances, não veio em socorro. Como de costume Beth deitava no sofá e Laurie sentava numa cadeira baixa bem perto, divertindo-a com todo tipo de fofoca, pois ela dependia de seu 'papo' semanal, e ele nunca a decepcionava. Mas naquela tarde Jo imaginou que os olhos de Beth repousavam no rosto vivo e moreno ao lado com prazer peculiar, e que ela ouvia com intenso interesse o relato de alguma emocionante partida de críquete, embora as frases 'caught off a tice', 'stumped off his ground', e 'the leg hit for three' fossem tão inteligíveis para ela quanto sânscrito. Ela também imaginou, tendo posto o coração em ver, que via certo aumento de gentileza no modo de Laurie, que ele baixava a voz de vez em quando, ria menos que o usual, estava um pouco distraído, e ajeitava o xale sobre os pés de Beth com uma assiduidade que era realmente quase terna.
— Quem sabe? Coisas mais estranhas já aconteceram — pensou Jo, enquanto mexericava pelo quarto. — Ela fará dele um verdadeiro anjo, e ele tornará a vida deliciosamente fácil e agradável para a querida, se apenas se amarem. Não vejo como ele poderia evitar, e creio que o faria se o resto de nós saísse do caminho.
Como todos estavam fora do caminho exceto ela mesma, Jo começou a sentir que devia se retirar com toda a pressa. Mas para onde iria? E ardendo em desejo de se deitar sobre o altar da devoção fraternal, ela sentou para resolver esse ponto.
Ora, o sofá velho era um sofá patriarca de fato — longo, largo, bem almofadado e baixo, um tanto surrado, como bem podia ser, pois as meninas nele dormiram e se espalharam quando bebês, pescaram por cima do encosto, cavalgaram nos braços, e tiveram menagerias embaixo quando crianças, e repousaram cabeças cansadas, sonharam sonhos e ouviram conversas ternas nele quando moças. Todas o amavam, pois era um refúgio familiar, e um canto sempre fora o lugar favorito de Jo para descansar. Entre os muitos travesseiros que adornavam o venerável sofá havia um, duro, redondo, coberto com crina de cavalo espetada, e guarnecido com um botão nodoso em cada ponta. Esse travesseiro repulsivo era sua propriedade especial, sendo usado como arma de defesa, barricada, ou severo preventivo de muito sono.
Laurie conhecia bem esse travesseiro, e tinha motivo para considerá-lo com profunda aversão, tendo sido impiedosamente surrado com ele nos dias antigos quando brincadeiras eram permitidas, e agora frequentemente barrado por ele do assento que mais cobiçava ao lado de Jo no canto do sofá. Se 'a salsicha', como o chamavam, estivesse em pé, era sinal de que ele podia se aproximar e repousar, mas se jazia deitado atravessado no sofá, ai da mulher, homem ou criança que ousasse perturbá-lo! Naquela tarde Jo esqueceu de barricar seu canto, e não estava em seu lugar cinco minutos, antes que uma forma massiva aparecesse ao seu lado, e com ambos os braços espalhados sobre o encosto do sofá, ambas as pernas longas esticadas à frente, Laurie exclamou, com um suspiro de satisfação...
— Ora, isso é que é bom pelo preço.
— Nada de gíria — rosnou Jo, batendo o travesseiro para baixo. Mas era tarde demais, não havia espaço para ele, e escorregando para o chão, desapareceu de modo misteriosíssimo.
— Vamos, Jo, não seja espinhenta. Depois de estudar até virar esqueleto a semana toda, um sujeito merece carinho e deveria recebê-lo.
— A Beth vai acariciar você. Estou ocupada.
— Não, ela não deve ser incomodada comigo, mas você gosta desse tipo de coisa, a menos que tenha perdido o gosto de repente. Perdeu? Você odeia seu menino, e quer atirar travesseiros nele?
Nada mais persuasivo que aquele apelo tocante era raramente ouvido, mas Jo silenciou 'seu menino' virando-se para ele com uma pergunta severa: — Quantos buquês você mandou para a Srta. Randal esta semana?
— Nenhum, palavra de honra. Ela está comprometida. Agora então.
— Fico contente, isso é uma de suas extravagâncias tolas, mandar flores e coisas para garotas por quem não se importa nem um pouco — continuou Jo reprovadoramente.
— Garotas sensatas por quem me importo com montes de alfinetes não me deixam mandar 'flores e coisas', então o que posso fazer? Meus sentimentos precisam de um 'desabafo'.
— A mãe não aprova flertar nem por brincadeira, e você flerta desesperadamente, Teddy.
— Daria qualquer coisa se pudesse responder 'você também'. Como não posso, direi apenas que não vejo mal nesse joguinho agradável, se todas as partes entenderem que é só brincadeira.
— Bem, parece agradável mesmo, mas não consigo aprender como se faz. Tentei, porque a gente se sente desajeitada em companhia ao não fazer como todos os outros, mas não pareço me sair bem — disse Jo, esquecendo de fazer a mentora.
— Tire lições com a Amy, ela tem um talento regular para isso.
— Sim, ela faz muito bonito, e nunca parece ir longe demais. Suponho que é natural para algumas pessoas agradar sem tentar, e para outras sempre dizer e fazer a coisa errada no lugar errado.
— Fico feliz que você não saiba flertar. É realmente refrescante ver uma moça sensata e direta, que pode ser alegre e gentil sem fazer papel de boba. Entre nós, Jo, algumas das garotas que conheço realmente agem num ritmo tal que me envergonho delas. Não querem mal nenhum, tenho certeza, mas se soubessem como nós, rapazes, falamos delas depois, mudariam os modos, imagino.
— Elas fazem o mesmo, e como suas línguas são as mais afiadas, vocês, rapazes, saem perdendo, pois são tão bobos quanto elas, cada pedacinho. Se vocês se comportassem direito, elas se comportariam, mas sabendo que gostam da bobagem delas, elas mantêm, e então vocês as culpam.
— O que você sabe disso, madame — disse Laurie num tom superior. — Não gostamos de brincadeiras e flertes, embora ajamos como se gostássemos às vezes. As garotas bonitas e modestas nunca são comentadas, exceto respeitosamente, entre cavalheiros. Abençoe sua alma inocente! Se você pudesse estar no meu lugar por um mês veria coisas que a assombrariam um pouco. Palavra de honra, quando vejo uma daquelas garotas levadas, sempre quero dizer com nosso amigo Cock Robin...
'Fora com você, vergonha de você, faceira dançarina!'
Era impossível não rir do engraçado conflito entre a relutância cavalheiresca de Laurie em falar mal do sexo feminino, e seu muito natural desgosto com a loucura pouco feminina da qual a sociedade da moda lhe mostrava muitos exemplos. Jo sabia que 'o jovem Laurence' era considerado um partido muitíssimo elegível por mamães mundanas, era muito sorrido pelas filhas delas, e lisonjeado o bastante por senhoras de todas as idades para torná-lo um pavão, então ela o observava um tanto ciumenta, temendo que fosse mimado, e se alegrava mais do que confessava ao achar que ele ainda acreditava em garotas modestas. Voltando subitamente ao tom admoestador, ela disse, baixando a voz: — Se precisa de um 'desabafo', Teddy, vá e dedique-se a uma das 'garotas bonitas e modestas' que você respeita, e não perca tempo com as bobas.
— Você realmente aconselha isso? — e Laurie olhou para ela com uma mistura estranha de ansiedade e júbilo no rosto.
— Sim, eu aconselho, mas é melhor esperar até terminar a faculdade, no geral, e ir se preparando para o lugar nesse meio-tempo. Você não é nem metade bom o suficiente para — bem, quem quer que seja a garota modesta. — e Jo pareceu um tanto esquisita também, pois um nome quase lhe escapara.
— Isso eu não sou! — aquiesceu Laurie, com uma expressão de humildade bem nova nele, enquanto baixava os olhos e distraidamente enrolava a borla do avental de Jo no dedo.
— Misericórdia, isso nunca vai dar certo — pensou Jo, acrescentando em voz alta: — Vá cantar para mim. Estou morrendo por um pouco de música, e sempre gosto da sua.
— Prefiro ficar aqui, obrigado.
— Bem, você não pode, não há espaço. Vá se tornar útil, já que é grande demais para ser ornamental. Pensei que odiasse ser amarrado às saias de uma mulher? — retrucou Jo, citando certas palavras rebeldes dele mesmo.
— Ah, isso depende de quem veste o avental! — e Laurie deu um puxão audaz na borla.
— Você vai? — exigiu Jo, mergulhando pelo travesseiro.
Ele fugiu na hora, e no minuto em que ficou bem, 'Up with the bonnets of bonnie Dundee', ela se esgueirou para não voltar até o jovem cavalheiro partir em profunda ofensa.
Jo ficou acordada muito tempo naquela noite, e estava prestes a pegar no sono quando o som de um soluço abafado a fez voar para o lado da cama de Beth, com o inquirir ansioso: — O que foi, querida?
— Pensei que você dormia — soluçou Beth.
— É a dor antiga, meu tesouro?
— Não, é uma nova, mas aguento — e Beth tentou conter as lágrimas.
— Conte-me tudo, e deixe-me curá-la como tantas vezes fiz com a outra.
— Você não pode, não há cura. — Aqui a voz de Beth falhou, e agarrando-se à irmã, ela chorou tão desesperadamente que Jo se assustou.
— Onde dói? Chamo a mãe?
— Não, não, não chame ela, não conte a ela. Vou melhorar logo. Deite aqui e 'coce' minha cabeça. Vou ficar quieta e dormir, juro que vou.
Jo obedeceu, mas enquanto sua mão ia suave para lá e para cá pela testa quente e pálpebras úmidas de Beth, seu coração estava muito cheio e ela ansiava falar. Mas jovem como era, Jo aprendera que corações, como flores, não podem ser manejados rudemente, mas devem se abrir naturalmente, então embora acreditasse saber a causa da nova dor de Beth, ela apenas disse, no tom mais terno: — Algo a incomoda, querida?
— Sim, Jo — depois de uma longa pausa.
— Não a confortaria me contar o que é?
— Agora não, ainda não.
— Então não pergunto, mas lembre, Bethy, que a mãe e a Jo sempre têm prazer em ouvir e ajudar você, se puderem.
— Eu sei. Conto a você mais tarde.
— A dor está melhor agora?
— Oh, sim, muito melhor, você é tão confortável, Jo.
— Durma, querida. Fico com você.
Assim, bochecha com bochecha, adormeceram, e no dia seguinte Beth pareceu bem consigo mesma de novo, pois aos dezoito anos nem cabeças nem corações doem por muito tempo, e uma palavra amorosa pode medicar a maioria dos males.
Mas Jo havia decidido, e depois de ponderar sobre um projeto por alguns dias, o confiou à mãe.
— A senhora me perguntou outro dia quais eram meus desejos. Vou contar um deles, Marmee — ela começou, enquanto sentavam juntas. — Quero ir para algum lugar este inverno, por uma mudança.
— Por que, Jo? — e a mãe ergueu o olhar rápido, como se as palavras sugerissem um duplo sentido.
Com os olhos no trabalho Jo respondeu sobriamente: — Quero algo novo. Sinto-me inquieta e ansiosa para ver, fazer e aprender mais do que faço. Remoo demais meus próprios pequenos assuntos, e preciso de um sacudão, então como posso ser dispensada este inverno, gostaria de saltar um pouco longe e experimentar minhas asas.
— Para onde vai saltar?
— Para Nova York. Tive uma ideia brilhante ontem, e é isto. A senhora sabe que a Sra. Kirke escreveu para a senhora pedindo uma jovem respeitável para ensinar os filhos e costurar. É meio difícil achar exatamente a pessoa, mas acho que serviria se tentasse.
— Minha querida, ir para o serviço naquela grande pensão! — e a Sra. March pareceu surpresa, mas não descontente.
— Não é exatamente ir para o serviço, pois a Sra. Kirke é amiga da senhora — a alma mais gentil que já viveu — e tornaria as coisas agradáveis para mim, sei. A família dela é separada do resto, e ninguém me conhece lá. Não me importo se conhecerem. É trabalho honesto, e não tenho vergonha dele.
— Nem eu. Mas sua escrita?
— Tanto melhor pela mudança. Verei e ouvirei coisas novas, terei ideias novas, e mesmo que não tenha muito tempo lá, trarei para casa quantidades de material para meu lixo.
— Não duvido, mas essas são suas únicas razões para esse capricho súbito?
— Não, mãe.
— Posso saber as outras?
Jo olhou para cima e Jo olhou para baixo, então disse devagar, com súbita cor nas faces: — Pode ser vaidoso e errado dizer, mas — tenho medo — o Laurie está ficando muito afeiçoado a mim.
— Então você não se importa com ele do jeito que é evidente que ele começa a se importar com você? — e a Sra. March pareceu ansiosa ao pôr a pergunta.
— Misericórdia, não! Amo o querido menino, como sempre amei, e tenho imenso orgulho dele, mas quanto a qualquer coisa a mais, está fora de questão.
— Fico contente com isso, Jo.
— Por quê, por favor?
— Porque, querida, não acho que vocês se adequam um ao outro. Como amigos estão muito felizes, e suas frequentes brigas logo passam, mas temo que ambos se rebelariam se fossem unidos para a vida. São parecidos demais e amam demais a liberdade, para não mencionar temperamentos quentes e vontades fortes, para se dar bem juntos, numa relação que precisa de infinita paciência e tolerância, assim como amor.
— Esse é exatamente o sentimento que tive, embora não conseguisse expressar. Fico feliz que a senhora pense que ele está apenas começando a se importar comigo. Me entristeceria muito torná-lo infeliz, pois não poderia me apaixonar pelo velho companheiro querido meramente por gratidão, poderia?
— Tem certeza do sentimento dele por você?
A cor se aprofundou nas faces de Jo enquanto respondia, com o olhar de prazer, orgulho e dor misturados que as moças vestem ao falar de primeiros amores: — Receio que seja assim, mãe. Ele não disse nada, mas olha muito. Acho melhor eu ir embora antes que chegue a algo.
— Concordo com você, e se puder ser arranjado, você irá.
Jo pareceu aliviada, e depois de uma pausa, disse, sorrindo: — Como a Sra. Moffat se admiraria com sua falta de manejo, se soubesse, e como se alegraria que Annie ainda possa esperar.
— Ah, Jo, mães podem diferir no manejo, mas a esperança é a mesma em todas — o desejo de ver seus filhos felizes. A Meg está, e estou contente com o sucesso dela. Você eu deixo desfrutar sua liberdade até se cansar dela, pois só então achará que há algo mais doce. Amy é minha principal preocupação agora, mas o bom senso dela a ajudará. Quanto à Beth, não alimento esperanças além de que ela melhore. A propósito, ela parece mais viva nestes últimos dias. Falou com ela?
— Sim, ela confessou que tinha um problema, e prometeu me contar mais tarde. Não disse mais, pois acho que sei qual é — e Jo contou sua historinha.
A Sra. March sacudiu a cabeça, e não tomou uma visão tão romântica do caso, mas pareceu séria, e repetiu sua opinião de que, pelo bem de Laurie, Jo deveria se afastar por um tempo.
— Não digamos nada a ele sobre isso até o plano estar resolvido, então eu fujo antes que ele colete os sentidos e fique trágico. A Beth deve pensar que vou para agradar a mim mesma, como estou, pois não posso falar de Laurie com ela. Mas ela pode acariciar e confortá-lo depois que eu for, e assim curá-lo dessa noção romântica. Ele já passou por tantas pequenas provações desse tipo, está acostumado, e logo superará sua lovelornity.
Jo falou esperançosa, mas não conseguiu livrar-se do medo pressentido de que essa 'pequena provação' seria mais dura que as outras, e que Laurie não superaria sua 'lovelornity' tão facilmente como antes.
O plano foi discutido em conselho familiar e aceito, pois a Sra. Kirke aceitou Jo com alegria, e prometeu fazer um lar agradável para ela. O ensino a tornaria independente, e o lazer que tivesse poderia ser proveitoso escrevendo, enquanto as novas cenas e sociedade seriam úteis e agradáveis. Jo gostou da perspectiva e estava ansiosa para partir, pois o ninho caseiro estava ficando estreito demais para sua natureza inquieta e espírito aventureiro. Quando tudo foi resolvido, com medo e tremor ela contou a Laurie, mas para sua surpresa ele levou muito quieto. Ele estivera mais sério que o usual ultimamente, mas muito agradável, e quando acusado em brincadeira de virar uma nova página, respondeu sobriamente: — Assim estou, e pretendo que esta página fique virada.
Jo ficou muito aliviada de que um de seus acessos virtuosos viesse justamente então, e fez seus preparativos com o coração mais leve, pois Beth parecia mais alegre, e esperava estar fazendo o melhor para todos.
— Uma coisa deixo em seu cuidado especial — ela disse, na noite antes de partir.
— A senhora quer dizer seus papéis? — perguntou Beth.
— Não, meu menino. Seja muito boa com ele, não será?
— Claro que serei, mas não posso preencher seu lugar, e ele sentirá muito sua falta.
— Não vai lhe fazer mal, então lembre, deixo ele a seu cargo, para atormentar, acariciar e manter na ordem.
— Farei o melhor, por sua causa — prometeu Beth, imaginando por que Jo a olhava tão esquisito.
Quando Laurie disse adeus, sussurrou significativamente: — Não vai adiantar nada, Jo. Meu olho está em você, então veja o que faz, ou venho e a trago para casa.