Português
1º Cav. Nossas ações são grilhões que forjamos para nós mesmos.
2º Cav. Sim, de fato; mas creio que é o mundo Que traz o ferro.
— Sir James parece decidido a fazer tudo o que você deseja — disse Celia, enquanto voltavam para casa após uma inspeção ao novo terreno para construção.
— Ele é uma boa criatura, e mais sensato do que qualquer um imaginaria — disse Doroteia, impensadamente.
— Quer dizer que ele parece bobo.
— Não, não — disse Doroteia, recobrando-se, e colocando a mão na da irmã por um momento —, mas ele não fala igualmente bem sobre todos os assuntos.
— Acho que apenas pessoas desagradáveis o fazem — disse Celia, em seu habitual tom suave. — Elas devem ser terríveis de se conviver. Imagine só! no café da manhã, e sempre.
Doroteia riu. — Ó Kitty, você é uma criatura maravilhosa! — Apertou o queixo de Celia, estando agora de humor para achá-la muito cativante e adorável — apta a ser um querubim eterno, e, se não fosse doutrinariamente errado dizer isso, quase tão necessitada de salvação quanto um esquilo. — Claro que as pessoas não precisam falar bem o tempo todo. Apenas se revela a qualidade de suas mentes quando tentam falar bem.
— Você quer dizer que Sir James tenta e falha.
— Estava falando de modo geral. Por que me questiona sobre Sir James? O objetivo da vida dele não é me agradar.
— Ora, Dodo, você realmente acredita nisso?
— Certamente. Ele pensa em mim como uma futura cunhada — só isso. Doroteia nunca havia insinuado isso antes, esperando, por uma certa timidez em tais assuntos que era mútua entre as irmãs, até que fosse introduzido por algum evento decisivo. Celia corou, mas disse de imediato:
— Por favor, não continue com esse engano, Dodo. Outro dia, enquanto Tantripp escovava meu cabelo, ela disse que o criado de Sir James sabia, pela criada de Mrs. Cadwallader, que Sir James se casaria com a Srta. Brooke mais velha.
— Como pode deixar Tantripp falar esses mexericos para você, Celia? — disse Doroteia, indignada, não menos irritada porque detalhes adormecidos em sua memória agora despertavam para confirmar a revelação indesejada. — Você deve ter feito perguntas a ela. É degradante.
— Não vejo mal algum em Tantripp falar comigo. É melhor ouvir o que as pessoas dizem. Veja que erros comete ao criar suposições. Tenho certeza de que Sir James pretende fazer-lhe uma proposta; e ele acredita que você a aceitará, especialmente desde que você ficou tão satisfeita com ele por causa dos planos. E o tio também — sei que ele espera isso. Todos podem ver que Sir James está muito apaixonado por você.
A revolta foi tão forte e dolorosa na mente de Doroteia que as lágrimas brotaram e correram abundantemente. Todos os seus queridos planos foram amargurados, e ela pensou com desgosto que Sir James imaginava que ela o reconhecia como seu pretendente. Havia também aborrecimento por causa de Celia.
— Como ele pôde esperar isso? — exclamou ela, em seu modo mais impetuoso. — Nunca concordei com ele em nada, exceto sobre as casinhas; fui mal educada com ele antes.
— Mas você ficou tão satisfeita com ele desde então; ele começou a sentir-se bastante seguro de que você gosta dele.
— Gostar dele, Celia! Como pode escolher expressões tão odiosas? — disse Doroteia, apaixonadamente.
— Nossa, Doroteia, suponho que seria certo você gostar de um homem que aceitasse como marido.
— É ofensivo para mim dizer que Sir James poderia pensar que eu gostava dele. Além disso, não é a palavra certa para o sentimento que devo ter pelo homem que aceitaria como marido.
— Bem, sinto muito por Sir James. Achei certo contar-lhe, porque você continua como sempre faz, nunca olhando onde pisa, e pisando no lugar errado. Você sempre vê o que ninguém mais vê; é impossível satisfazê-la; no entanto, nunca vê o que é bastante óbvio. Esse é seu jeito, Dodo. — Algo certamente deu a Celia uma coragem incomum; e ela não poupava a irmã de quem ocasionalmente tinha receio. Quem pode dizer que críticas justas Murr, o Gato, pode estar fazendo de nós, seres de especulação mais ampla?
— É muito doloroso — disse Doroteia, sentindo-se açoitada. — Não posso mais me envolver com as casinhas. Devo ser indelicada com ele. Devo dizer-lhe que não terei nada a ver com elas. É muito doloroso. — Seus olhos se encheram novamente de lágrimas.
— Espere um pouco. Pense sobre isso. Você sabe que ele vai viajar por um dia ou dois para ver a irmã. Não haverá ninguém além de Lovegood. — Celia não pôde deixar de abrandar-se. — Pobre Dodo — continuou, em um staccato amigável. — É muito difícil: é seu _capricho_ favorito desenhar plantas.
— _Capricho_ desenhar plantas! Acha que me importo com as casas dos meus semelhantes apenas dessa maneira infantil? Posso muito bem cometer erros. Como alguém pode fazer algo nobremente cristão, vivendo entre pessoas com pensamentos tão mesquinhos?
Nada mais foi dito; Doroteia estava demasiado perturbada para recuperar o bom humor e comportar-se de modo a mostrar que admitia algum erro em si mesma. Ela estava mais disposta a acusar a intolerável estreiteza e a consciência cega da sociedade ao seu redor: e Celia não era mais o querubim eterno, mas um espinho em seu espírito, uma nulificante cor-de-rosa e branco, pior do que qualquer presença desanimadora no "Progresso do Peregrino". O _capricho_ de desenhar plantas! O que valia a vida — que grande fé era possível quando todo o efeito das ações de alguém poderia murchar em tal lixo seco? Quando saiu da carruagem, suas bochechas estavam pálidas e suas pálpebras vermelhas. Era uma imagem de tristeza, e seu tio, que a encontrou no hall, teria ficado alarmado, se Celia não estivesse perto dela, parecendo tão bonita e composta, que ele concluiu imediatamente que as lágrimas de Doroteia tinham origem em sua religiosidade excessiva. Ele havia retornado, durante a ausência delas, de uma viagem à cidade do condado, sobre uma petição pelo perdão de algum criminoso.
— Bem, minhas queridas — disse ele, gentilmente, enquanto elas subiam para beijá-lo —, espero que nada desagradável tenha acontecido enquanto estive fora.
— Não, tio — disse Celia —, fomos a Freshitt para ver as casinhas. Pensamos que você estaria em casa para o almoço.
— Vim por Lowick para almoçar — vocês não sabiam que vim por Lowick. E trouxe alguns panfletos para você, Doroteia — na biblioteca, sabe; estão sobre a mesa na biblioteca.
Parecia que uma corrente elétrica atravessava Doroteia, tirando-a do desespero para a expectativa. Eram panfletos sobre a Igreja primitiva. A opressão de Celia, Tantripp e Sir James foi sacudida, e ela caminhou diretamente para a biblioteca. Celia subiu. Mr. Brooke foi retido por um recado, mas quando reentrou na biblioteca, encontrou Doroteia sentada e já imersa em um dos panfletos que tinham algumas anotações marginais de Mr. Casaubon — absorvendo-o tão avidamente como poderia ter absorvido o perfume de um buquê fresco após uma caminhada seca, quente e monótona.
Ela estava se afastando de Tipton e Freshitt, e de sua própria triste propensão a pisar em lugares errados a caminho da Nova Jerusalém.
Mr. Brooke sentou-se em sua poltrona, esticou as pernas em direção ao fogo de lenha, que havia se transformado numa massa maravilhosa de dados brilhantes entre os cães, e esfregou as mãos suavemente, olhando muito mansamente para Doroteia, mas com um ar neutro e vagaroso, como se não tivesse nada de particular a dizer. Doroteia fechou seu panfleto, assim que percebeu a presença do tio, e levantou-se como se fosse sair. Normalmente, ela se interessaria pela missão misericordiosa do tio em favor do criminoso, mas sua recente agitação a tornara distraída.
— Voltei por Lowick, sabe — disse Mr. Brooke, não como se tivesse alguma intenção de impedi-la de sair, mas aparentemente por sua tendência habitual de dizer o que já havia dito antes. Esse princípio fundamental da fala humana era marcadamente exibido em Mr. Brooke. — Almocei lá e vi a biblioteca de Casaubon, e esse tipo de coisa. O ar é cortante, na viagem. Não quer se sentar, minha querida? Parece com frio.
Doroteia sentiu-se bastante inclinada a aceitar o convite. Às vezes, quando o modo fácil de seu tio de encarar as coisas não era exasperante, era antes calmante. Ela tirou o manto e o chapéu, e sentou-se em frente a ele, desfrutando o calor, mas erguendo suas belas mãos como proteção. Não eram mãos finas ou pequenas; mas mãos poderosas, femininas, maternais. Ela parecia erguê-las em propiciação por seu desejo apaixonado de saber e pensar, que nos meios hostis de Tipton e Freshitt resultara em choro e pálpebras vermelhas.
Lembrou-se agora do criminoso condenado. — Que notícias trouxe sobre o ladrão de ovelhas, tio?
— O quê, pobre Bunch? — bem, parece que não podemos livrá-lo — ele será enforcado.
A testa de Doroteia tomou uma expressão de reprovação e piedade.
— Enforcado, sabe — disse Mr. Brooke, com um aceno tranquilo. — Pobre Romilly! ele nos teria ajudado. Conheci Romilly. Casaubon não conhecia Romilly. Ele está um pouco enterrado em livros, sabe, Casaubon está.
— Quando um homem tem grandes estudos e está escrevendo uma grande obra, ele deve naturalmente abrir mão de ver muito o mundo. Como pode andar fazendo conhecimentos?
— É verdade. Mas um homem definha, sabe. Também sempre fui solteiro, mas tenho esse tipo de disposição que nunca definhei; era meu jeito ir a todos os lugares e absorver tudo. Nunca definhei: mas posso ver que Casaubon definha, sabe. Ele precisa de uma companhia — uma companhia, sabe.
— Seria uma grande honra para qualquer um ser sua companhia — disse Doroteia, energicamente.
— Você gosta dele, hein? — disse Mr. Brooke, sem mostrar surpresa ou outra emoção. — Bem, agora, conheço Casaubon há dez anos, desde que ele veio para Lowick. Mas nunca tirei nada dele — ideias, sabe. No entanto, ele é um homem de primeira e pode ser bispo — esse tipo de coisa, sabe, se Peel permanecer. E ele tem uma opinião muito alta de você, minha querida.
Doroteia não pôde falar.
— O fato é que ele tem uma opinião realmente muito alta de você. E ele fala extraordinariamente bem — Casaubon. Ele recorreu a mim, você não sendo maior de idade. Em suma, prometi falar com você, embora eu tenha dito a ele que achava que não havia muita chance. Fui obrigado a dizer isso a ele. Disse, minha sobrinha é muito jovem, e esse tipo de coisa. Mas não achei necessário entrar em todos os detalhes. No entanto, o resumo da coisa é que ele pediu minha permissão para fazer-lhe uma proposta de casamento — de casamento, sabe — disse Mr. Brooke, com seu aceno explicativo. — Achei melhor lhe contar, minha querida.
Ninguém poderia ter detectado qualquer ansiedade no modo de Mr. Brooke, mas ele realmente desejava saber algo da mente de sua sobrinha, para que, se houvesse necessidade de conselho, pudesse dá-lo a tempo. Que sentimento ele, como magistrado que havia absorvido tantas ideias, podia acomodar, era in misturadamente bondoso. Como Doroteia não falou imediatamente, ele repetiu: — Achei melhor lhe contar, minha querida.
— Obrigada, tio — disse Doroteia, em tom claro e firme. — Estou muito grata a Mr. Casaubon. Se ele me fizer uma proposta, eu a aceitarei. Admiro e honro-o mais do que qualquer homem que já vi.
Mr. Brooke fez uma pausa, e então disse em tom baixo e arrastado: — Ah? … Bem! Ele é um bom partido em alguns aspectos. Mas agora, Chettam é um bom partido. E nossas terras são contíguas. Nunca interferirei contra seus desejos, minha querida. As pessoas devem ter seu próprio caminho no casamento, e esse tipo de coisa — até certo ponto, sabe. Sempre disse isso, até certo ponto. Desejo que você se case bem; e tenho boas razões para acreditar que Chettam deseja se casar com você. Menciono isso, sabe.
— É impossível que eu me case com Sir James Chettam — disse Doroteia. — Se ele pensa em se casar comigo, cometeu um grande engano.
— É isso, veja. Nunca se sabe. Eu teria pensado que Chettam era exatamente o tipo de homem que uma mulher gostaria, agora.
— Por favor, não o mencione nessa luz novamente, tio — disse Doroteia, sentindo parte de sua recente irritação reviver.
Mr. Brooke admirou-se, e sentiu que as mulheres eram um sujeito inesgotável de estudo, pois mesmo ele, em sua idade, não estava em perfeito estado de previsão científica sobre elas. Aqui estava um sujeito como Chettam sem chance alguma.
— Bem, mas Casaubon, agora. Não há pressa — quero dizer para você. É verdade, cada ano pesará sobre ele. Ele tem mais de quarenta e cinco, sabe. Eu diria uns bons vinte e sete anos mais velho que você. Com certeza — se você gosta de erudição e posição, e esse tipo de coisa, não podemos ter tudo. E sua renda é boa — ele tem uma propriedade considerável independente da Igreja — sua renda é boa. Ainda assim, ele não é jovem, e não devo esconder de você, minha querida, que acho que sua saúde não é muito forte. Não sei mais nada contra ele.
— Não desejaria ter um marido muito próximo da minha idade — disse Doroteia, com grave decisão. — Desejaria ter um marido que fosse superior a mim em julgamento e em todo conhecimento.
Mr. Brooke repetiu seu submisso: — Ah? — Pensei que você tivesse mais opinião própria do que a maioria das moças. Pensei que você gostava da sua própria opinião — gostava, sabe.
— Não consigo imaginar viver sem algumas opiniões, mas desejaria ter boas razões para elas, e um homem sábio poderia me ajudar a ver quais opiniões têm o melhor fundamento, e me ajudaria a viver de acordo com elas.
— Muito verdadeiro. Você não poderia colocar a coisa melhor — não poderia colocar melhor, de antemão, sabe. Mas há peculiaridades nas coisas — continuou Mr. Brooke, cuja consciência estava realmente despertada para fazer o melhor que pudesse por sua sobrinha nesta ocasião. — A vida não é moldada — não é cortada por regra e linha, e esse tipo de coisa. Nunca me casei, e será melhor para você e os seus. O fato é que nunca amei ninguém o suficiente para me colocar numa armadilha por eles. É uma armadilha, sabe. Temperamento, agora. Há temperamento. E um marido gosta de ser mestre.
— Sei que devo esperar provações, tio. O casamento é um estado de deveres mais elevados. Nunca pensei nisso como mero conforto pessoal — disse a pobre Doroteia.
— Bem, você não gosta de ostentação, uma grande casa, bailes, jantares, esse tipo de coisa. Posso ver que os modos de Casaubon podem lhe agradar mais do que os de Chettam. E você fará como quiser, minha querida. Não impediria Casaubon; eu disse isso de imediato; pois não se sabe como as coisas podem acabar. Você não tem os mesmos gostos de toda jovem; e um clérigo e estudioso — que pode ser bispo — esse tipo de coisa — pode lhe agradar mais do que Chettam. Chettam é um bom sujeito, um bom sujeito de coração sólido, sabe; mas ele não se aprofunda muito em ideias. Eu me aprofundava, quando tinha a idade dele. Mas os olhos de Casaubon, agora. Acho que ele os machucou um pouco com o excesso de leitura.
— Eu seria ainda mais feliz, tio, quanto mais espaço houvesse para eu ajudá-lo — disse Doroteia, ardentemente.
— Você já decidiu, vejo. Bem, minha querida, o fato é que tenho uma carta para você no bolso. — Mr. Brooke entregou a carta a Doroteia, mas quando ela se levantou para sair, ele acrescentou: — Não há muita pressa, minha querida. Pense sobre isso, sabe.
Quando Doroteia o deixou, ele refletiu que certamente havia falado com força: havia colocado os riscos do casamento diante dela de maneira marcante. Era seu dever fazê-lo. Mas quanto a fingir ser sábio para jovens — nenhum tio, por mais que tivesse viajado em sua juventude, absorvido as novas ideias e jantado com celebridades já falecidas, poderia fingir julgar que tipo de casamento daria certo para uma jovem que preferia Casaubon a Chettam. Em suma, a mulher era um problema que, já que a mente de Mr. Brooke se sentia em branco diante dele, dificilmente poderia ser menos complicado do que as revoluções de um sólido irregular.