Português
ALGUNS NOVOS CONHECIDOS SÃO APRESENTADOS AO LEITOR INTELIGENTE, COM OS QUAIS VÁRIOS ASSUNTOS AGRADÁVEIS SÃO RELACIONADOS, PERTENCENTES A ESTA HISTÓRIA
—Onde está Oliver? — disse o judeu, levantando-se com um olhar ameaçador. — Onde está o menino?
Os jovens ladrões olharam para o preceptor como se estivessem alarmados com sua violência; e trocaram olhares inquietos. Mas não deram resposta.
—O que foi feito do menino? — disse o judeu, agarrando o Dodger firmemente pela gola, e ameaçando-o com horríveis imprecações. — Fale logo, ou eu te estrangulo!
O sr. Fagin parecia tão sério, que Charley Bates, que julgava prudente em todos os casos ficar do lado seguro, e que considerava de modo algum improvável que pudesse ser sua vez de ser estrangulado em segundo lugar, caiu de joelhos, e soltou um rugido alto, sustentado e contínuo — algo entre um touro bravo e uma trombeta de voz.
—Vai falar? — trovejou o judeu: sacudindo o Dodger tanto que o fato de ele continuar dentro do grande casaco parecia perfeitamente milagroso.
—Ora, os guardas o pegaram, e é só isso — disse o Dodger, com mau humor. — Vamos, me solta, quer? E, girando a si mesmo, num único puxão, saindo limpo do grande casaco, que deixou nas mãos do judeu, o Dodger agarrou o garfo de tostar pão, e fez uma estocada no colete do velho cavalheiro alegre; a qual, se tivesse surtido efeito, teria deixado sair um pouco mais de alegria do que poderia ser facilmente reposta.
O judeu recuou nesta emergência, com mais agilidade do que se poderia esperar em um homem de sua aparente decrepitude; e, pegando a panela, preparou-se para arremessá-la contra a cabeça de seu agressor. Mas Charley Bates, neste momento, chamando sua atenção com um uivo perfeitamente terrível, ele subitamente alterou seu destino, e a arremessou com força contra aquele jovem cavalheiro.
—Ora, que diabos está acontecendo agora! — rosnou uma voz profunda. — Quem atirou isso aqui em mim? Ainda bem que é a cerveja, e não a panela, que me acertou, ou eu teria arranjado alguém. Podia ter sabido, que ninguém além de um infernal, rico, saqueador, trovejante velho judeu poderia dar ao luxo de jogar fora qualquer bebida que não fosse água — e nem isso, a menos que enganasse a Companhia do Rio todo trimestre. O que é tudo isso, Fagin? Que me d—e se meu lenço de pescoço não está forrado de cerveja! Entre, seu verme rastejante; o que está parado aí fora, como se tivesse vergonha do seu amo! Entre!
O homem que rosnou essas palavras era um sujeito robusto de cerca de trinta e cinco anos, com um casaco de veludo cotelê preto, calças de brim muito sujas, botas de amarração meia perna, e meias de algodão cinza que envolviam um par volumoso de pernas, com panturras grandes e inchadas; — o tipo de pernas que, em tal traje, sempre parecem em estado inacabado e incompleto sem um par de grilhões para enfeitar. Tinha um chapéu marrom na cabeça, e um lenço de bolinhas sujo ao redor do pescoço: com as pontas desfiadas e compridas do qual ele enxugava a cerveja do rosto enquanto falava. Ao fazê-lo, revelou um rosto largo e pesado com uma barba de três dias, e dois olhos carrancudos; um dos quais exibia vários sintomas multicoloridos de ter sido recentemente danificado por um golpe.
—Entre, ouve? — rosnou este cativo encantador.
Um cão branco e peludo, com o focinho arranhado e rasgado em vinte lugares diferentes, esgueirou-se para o quarto.
—Por que não entrou antes? — disse o homem. — Está ficando orgulhoso demais para me reconhecer diante de companhia, está? Deite!
Este comando foi acompanhado de um pontapé, que mandou o animal para o outro lado do quarto. Ele parecia, contudo, bem acostumado a isso; pois se enrolou num canto muito quietamente, sem emitir som, e piscando seus olhos de aparência muito má vinte vezes por minuto, parecia ocupar-se em fazer um levantamento do aposento.
—No que está metido? Maltratando os meninos, seu velho receptador cobiçoso, avarento, in-sa-ci-á-vel? — disse o homem, sentando-se deliberadamente. — Duvido que não o assassinem! Eu faria, se fosse eles. Se tivesse sido seu aprendiz, teria feito isso há muito tempo, e — não, não poderia tê-lo vendido depois, pois não serve para nada além de ser guardado como curiosidade de feiura num frasco de vidro, e suponho que não sopram garrafas de vidro grandes o suficiente.
—Silêncio! silêncio! sr. Sikes — disse o judeu, tremendo; — não fale tão alto!
—Nada de me chamar de senhor — replicou o patife; — você sempre quer problemas quando vem com isso. Você sabe meu nome: diga-o! Não vou desonrá-lo quando chegar a hora.
—Bem, bem, então — Bill Sikes — disse o judeu, com humildade abjeta. — Você parece de mau humor, Bill.
—Talvez eu esteja — replicou Sikes; — eu diria que você também está meio aborrecido, a menos que queira dizer tão pouco mal ao jogar potes de peltre por aí, quanto ao tagarelar e —
—Você enlouqueceu? — disse o judeu, agarrando o homem pela manga, e apontando na direção dos meninos.
O sr. Sikes contentou-se em atar um nó imaginário sob sua orelha esquerda, e dar um solavanco com a cabeça sobre o ombro direito; um pedaço de mímica muda que o judeu pareceu entender perfeitamente. Ele então, em termos de gíria, com os quais toda sua conversa era abundantemente salpicada, mas que seriam totalmente incompreensíveis se fossem registrados aqui, pediu um copo de licor.
—E tome cuidado para não envenená-lo — disse o sr. Sikes, colocando seu chapéu sobre a mesa.
Isso foi dito em brincadeira; mas se o falante pudesse ter visto o olhar mau com que o judeu mordeu o lábio pálido ao virar-se para a credência, ele poderia ter pensado que a cautela não era totalmente desnecessária, ou o desejo (em todo caso) de melhorar a engenhosidade do destilador não estava muito longe do coração alegre do velho cavalheiro.
Depois de engolir dois ou três copos de aguardente, o sr. Sikes condescendeu em tomar alguma nota dos jovens cavalheiros; o que gracioso ato levou a uma conversa, na qual a causa e o modo da captura de Oliver foram circunstanciadamente detalhados, com tais alterações e melhorias sobre a verdade, como ao Dodger pareceu mais aconselhável nas circunstâncias.
—Receio — disse o judeu — que ele possa dizer algo que nos coloque em apuros.
—É muito provável — retornou Sikes com um sorriso malicioso. — Você está denunciado, Fagin.
—E receio, veja só — acrescentou o judeu, falando como se não tivesse notado a interrupção; e olhando atentamente para o outro enquanto fazia isso, — receio que, se o jogo acabasse para nós, pudesse acabar para muitos mais, e que saísse pior para você do que para mim, meu caro.
O homem sobressaltou-se, e virou-se para o judeu. Mas os ombros do velho cavalheiro estavam encolhidos até as orelhas; e seus olhos fitavam vacilantes a parede oposta.
Houve uma longa pausa. Cada membro da respeitável rodinha parecia mergulhado em suas próprias reflexões; não exceptuando o cão, que por um certo lamber malicioso dos lábios parecia meditar um ataque às pernas do primeiro cavalheiro ou dama que encontrasse nas ruas ao sair.
—Alguém tem que descobrir o que foi feito no escritório — disse o sr. Sikes num tom muito mais baixo do que havia usado desde que entrou.
O judeu acenou em assentimento.
—Se ele não dedurou, e foi processado, não há medo até ele sair de novo — disse o sr. Sikes — e então ele tem que ser cuidado. Você tem que pôr as mãos nele de algum jeito.
O judeu acenou novamente.
A prudência desta linha de ação, de fato, era óbvia; mas, infelizmente, havia uma objeção muito forte a que fosse adotada. Era que o Dodger, e Charley Bates, e Fagin, e o sr. William Sikes, acontecia, todos eles, de nutrir uma antipatia violenta e profundamente enraizada a ir perto de uma delegacia de polícia sob qualquer motivo ou pretexto que fosse.
Quanto tempo eles poderiam ter ficado sentados e se olhando, num estado de incerteza não sendo o mais agradável de seu tipo, é difícil adivinhar. Não é necessário fazer quaisquer suposições sobre o assunto, contudo; pois a entrada súbita das duas jovens que Oliver vira em ocasião anterior fez a conversa fluir novamente.
—Exatamente o que queríamos! — disse o judeu. — Bet vai; não vai, minha cara?
—Onde? — indagou a jovem.
—Só até o escritório, minha cara — disse o judeu, lisonjeiro.
É justo com a jovem dizer que ela não afirmou positivamente que não iria, mas que meramente expressou um desejo enfático e sincero de ser “abençoada” se fosse; uma evasiva polida e delicada ao pedido, que mostra a jovem ter possuído aquela boa educação natural que não suporta infligir sobre uma criatura o sofrimento de uma recusa direta e pontual.
O semblante do judeu caiu. Ele virou-se desta jovem, que estava alegremente, para não dizer gloriosamente trajada, num vestido vermelho, botas verdes, e papéis de cachinho amarelos, para a outra mulher.
—Nancy, minha cara — disse o judeu num tom suave — o que você diz?
—Que não dá; então é inútil tentar, Fagin — replicou Nancy.
—O que você quer dizer com isso? — disse o sr. Sikes, erguendo o olhar de modo carrancudo.
—O que eu digo, Bill — replicou a dama, com compostura.
—Ora, você é justamente a pessoa para isso — argumentou o sr. Sikes: — ninguém por aqui sabe de nada sobre você.
—E como eu não quero que saibam — replicou Nancy no mesmo modo composto — é mais não do que sim comigo, Bill.
—Ela vai, Fagin — disse Sikes.
—Não, ela não vai, Fagin — disse Nancy.
—Sim, ela vai, Fagin — disse Sikes.
E o sr. Sikes tinha razão. À força de ameaças alternadas, promessas e subornos, a dama em questão foi finalmente persuadida a empreender a missão. Ela não era, de fato, retida pelas mesmas considerações que sua agradável amiga; pois, tendo recentemente se mudado para a vizinhança de Field Lane a partir do remoto mas gentil subúrbio de Ratcliffe, não estava sob o mesmo receio de ser reconhecida por qualquer de suas numerosas conhecidas.
Assim, com um avental branco limpo amarrado sobre o vestido, e seus papéis de cachinho enfiados sob um chapéu de palha — ambos artigos de vestuário providenciados do estoque inexaurível do judeu — a srta. Nancy preparou-se para sair em sua incumbência.
—Espere um minuto, minha cara — disse o judeu, produzindo uma pequena cesta coberta. — Leve isso numa mão. Parece mais respeitável, minha cara.
—Dê a ela uma chave de porta para carregar na outra, Fagin — disse Sikes; — parece real e genuíno assim.
—Sim, sim, minha cara, assim é — disse o judeu, pendurando uma grande chave de porta da rua no indicador da mão direita da jovem. — Pronto; muito bom! Muito bom mesmo, minha cara! — disse o judeu, esfregando as mãos.
—Oh, meu irmão! Meu pobre, querido, doce, inocente irmãozinho! — exclamou Nancy, rompendo em lágrimas, e torcendo a pequena cesta e a chave de porta numa agonia de aflição. — O que foi feito dele! Para onde o levaram! Oh, tenham piedade, e digam-me o que foi feito do querido menino, senhores; digam, senhores, por favor, senhores!
Tendo proferido essas palavras num tom mais lamentável e de coração partido: para o deleite imensurável de seus ouvintes: a srta. Nancy fez uma pausa, piscou para a companhia, acenou com um sorriso ao redor, e desapareceu.
—Ah, ela é uma moça esperta, meus caros — disse o judeu, virando-se para seus jovens amigos, e sacudindo a cabeça gravemente, como em muda admoestação a eles para seguirem o brilhante exemplo que acabaram de contemplar.
—Ela é uma honra para seu sexo — disse o sr. Sikes, enchendo o copo, e batendo na mesa com seu punho enorme. — À saúde dela, e desejando que todas fossem como ela!
Enquanto esses, e muitos outros elogios, eram feitos à realizada Nancy, aquela jovem dama fez o melhor de seu caminho até a delegacia de polícia; para onde, não obstante uma pequena timidez natural consequente de caminhar pelas ruas sozinha e desprotegida, ela chegou em perfeita segurança pouco depois.
Entrando pela porta dos fundos, ela bateu suavemente com a chave em uma das portas das celas, e escutou. Não havia som dentro: então ela tossiu e escutou de novo. Ainda não houve resposta: então ela falou.
—Nolly, querido? — murmurou Nancy numa voz gentil; — Nolly?
Não havia ninguém lá dentro além de um miserável criminoso sem sapatos, que tinha sido apanhado por tocar flauta, e que, o crime contra a sociedade tendo sido claramente provado, tinha sido muito propriamente sentenciado pelo sr. Fang à Casa de Correção por um mês; com a observação apropriada e divertida de que já que ele tinha tanto fôlego de sobra, seria mais saudávelmente gasto na esteira do que num instrumento musical. Ele não respondeu: estando ocupado mentalmente lamentando a perda da flauta, que tinha sido confiscada para uso do condado: assim Nancy seguiu para a próxima cela, e bateu lá.
—Bem! — gritou uma voz fraca e debilitada.
—Tem um menininho aqui? — indagou Nancy, com um soluço preliminar.
—Não — replicou a voz; — Deus me livre.
Este era um vagabundo de sessenta e cinco anos, que ia para a prisão por não tocar flauta; ou, em outras palavras, por mendigar nas ruas, e não fazer nada para seu sustento. Na próxima cela estava outro homem, que ia para a mesma prisão por vender panelas de lata sem licença; assim fazendo algo por sua vida, em desafio ao escritório de selos.
Mas, como nenhum destes criminosos atendia ao nome de Oliver, ou sabia qualquer coisa sobre ele, Nancy subiu direto até o rude oficial de colete listrado; e com os mais lastimáveis lamentos e prantos, tornados mais lastimáveis por um uso pronto e eficiente da chave de porta e da pequena cesta, exigiu seu próprio querido irmão.
—Não o tenho, minha cara — disse o velho.
—Onde ele está? — gritou Nancy, num modo desvairado.
—Ora, o cavalheiro o tem — replicou o oficial.
—Que cavalheiro! Oh, céus graciosos! Que cavalheiro? — exclamou Nancy.
Em resposta a este questionamento incoerente, o velho informou a profundamente afetada irmã que Oliver tinha adoecido no escritório, e sido liberado em consequência de uma testemunha ter provado o roubo ter sido cometido por outro menino, não sob custódia; e que o promotor o tinha levado embora, num estado insensível, para sua própria residência: da qual, tudo o que o informante sabia era, que ficava em algum lugar em Pentonville, ele tendo ouvido aquela palavra mencionada nas direções ao cocheiro.
Num estado terrível de dúvida e incerteza, a angustiada jovem cambaleou até o portão, e então, trocando seu andar vacilante por uma corrida veloz, retornou pela rota mais desviada e complicada que pôde imaginar, ao domicílio do judeu.
O sr. Bill Sikes não ouviu a narrativa da expedição, quando logo chamou o cão branco, e, pondo o chapéu, partiu expeditamente: sem dedicar qualquer tempo à formalidade de desejar à companhia bom-dia.
—Temos que saber onde ele está, meus caros; ele deve ser encontrado — disse o judeu, muito excitado. — Charley, não faça nada além de rondar, até trazer alguma notícia dele para casa! Nancy, minha cara, tenho que tê-lo encontrado. Confio em você, minha cara — em você e no Artful para tudo! Espere, espere — acrescentou o judeu, destrancando uma gaveta com uma mão trêmula; — há dinheiro, meus caros. Vou fechar esta loja hoje à noite. Saberão onde me encontrar! Não parem aqui um minuto. Nem um instante, meus caros!
Com essas palavras, ele os empurrou para fora do quarto: e cuidadosamente trançando e barrando a porta atrás deles, tirou de seu lugar de esconderijo a caixa que ele tinha involuntariamente revelado a Oliver. Então, apressadamente procedeu a dispor os relógios e joias sob suas roupas.
Uma batida na porta o sobressaltou nesta ocupação. — Quem está aí? — ele gritou num tom agudo.
—Eu! — replicou a voz do Dodger, através do buraco da fechadura.
—O que agora? — gritou o judeu impacientemente.
—Ele deve ser sequestrado para o outro esconderijo, Nancy diz? — indagou o Dodger.
—Sim — replicou o judeu — onde quer que ela ponha as mãos nele. Encontre-o, descubra-o, é só isso. Saberei o que fazer em seguida; não tema.
O menino murmurou uma resposta de inteligência: e apressou-se escada abaixo atrás de seus companheiros.
—Ele não dedurou até agora — disse o judeu enquanto prosseguia sua ocupação. — Se ele pretende nos denunciar entre seus novos amigos, ainda podemos calar sua boca.