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EM QUE UM PERSONAGEM MISTERIOSO SURGE EM CENA; E MUITAS COISAS, INSEPARÁVEIS DESTA HISTÓRIA, SÃO FEITAS E REALIZADAS
O velho já alcançara a esquina da rua, antes de começar a recuperar-se do efeito da notícia de Toby Crackit. Não diminuíra nada de sua velocidade incomum; mas ainda avançava, da mesma maneira selvagem e desordenada, quando o súbito passar veloz de uma carruagem, e um grito ruidoso dos pedestres que viram seu perigo, o lançaram de volta para a calçada. Evitando, tanto quanto possível, todas as ruas principais, e esgueirando-se apenas pelos becos e travessas, ele por fim surgiu em Snow Hill. Ali caminhou ainda mais rápido do que antes; e não se deteve até tornar a entrar num pátio; quando, como se consciente de que estava agora em seu elemento próprio, recaiu em seu passo arrastado habitual, e pareceu respirar mais livremente.
Perto do ponto onde Snow Hill e Holborn Hill se encontram, abre-se, à direita como se sai da Cidade, um beco estreito e lúgubre, que conduz a Saffron Hill. Em suas lojas imundas expõem-se à venda enormes molhos de lenços de seda de segunda mão, de todos os tamanhos e padões; pois aqui residem os negociantes que os compram dos batedores de carteira. Centenas desses lenços pendem balançando de pregos fora das janelas ou ostentam-se nos batentes das portas; e as prateleiras, lá dentro, estão empilhadas com eles. Limitado como é o espaço de Field Lane, tem seu barbeiro, seu café, sua cervejaria e seu depósito de peixe frito. É uma colônia comercial por si só: o empório do furto pequeno: visitada de madrugada, e ao cair da tarde, por mercadores silenciosos, que negociam em salas dos fundos escuras, e que vão tão estranhamente quanto vêm. Aqui, o velho de roupas, o remendão de sapatos e o negociante de trapos exibem suas mercadorias, como tabuletas para o ladrãozinho; aqui, depósitos de ferro velho e ossos, e montões de fragmentos bolorentos de lã e linho, enferrujam e apodrecem nas adegas sujas.
Foi para esse lugar que o judeu se voltou. Ele era bem conhecido dos habitantes amarelados do beco; pois aqueles deles que estavam à espreita para comprar ou vender acenaram, familiarmente, enquanto ele passava. Ele respondeu às saudações da mesma forma; mas não deu maior atenção até alcançar a extremidade do beco; quando parou, para dirigir-se a um vendedor de pequena estatura, que comprimira tanto de seu corpo numa cadeira de criança quanto a cadeira comportava, e fumava um cachimbo à porta de seu armazém.
— Ora, a vista de vossa mercê, sr. Fagin, curaria a oftalmia! — disse esse respeitável negociante, em resposta à pergunta do judeu sobre sua saúde.
— A vizinhança esteve um tanto quente, Lively — disse Fagin, erguendo as sobrancelhas e cruzando as mãos sobre os ombros.
— Bem, ouvi essa queixa dela, uma ou duas vezes antes — replicou o negociante; — mas logo esfria de novo; o senhor não acha?
Fagin fez que sim com a cabeça. Apontando na direção de Saffron Hill, indagou se alguém estava lá em cima naquela noite.
— Nos Coxos? — perguntou o homem.
O judeu assentiu.
— Deixe ver — prosseguiu o mercador, refletindo. — Sim, há meia dúzia de gente que entrou, que eu saiba. Não creio que seu amigo esteja lá.
— Sikes não está, suponho? — indagou o judeu, com ar desapontado.
— _Non istwentus_, como dizem os advogados — replicou o homenzinho, sacudindo a cabeça e parecendo extraordinariamente matreiro. — Tem algo na minha linha esta noite?
— Nada esta noite — disse o judeu, afastando-se.
— Vai subir aos Coxos, Fagin? — gritou o homenzinho, chamando atrás dele. — Espere! Não me importo de tomar uma gota lá com o senhor!
Mas como o judeu, olhando para trás, acenou com a mão para intimar que preferia estar sozinho; e, além disso, como o homenzinho não podia muito facilmente desvencilhar-se da cadeira; o sinal dos Coxos ficou, por algum tempo, privado da vantagem da presença do sr. Lively. Quando ele se pôs de pé, o judeu já desaparecera; assim o sr. Lively, após inutilmente pôr-se na ponta dos pés, na esperança de avistá-lo, tornou a forçar-se na pequena cadeira, e, trocando um meneio de cabeça com uma senhora na loja oposta, no qual dúvida e desconfiança estavam claramente misturadas, retomou seu cachimbo com ar grave.
Os Três Coxos, ou antes os Coxos; que era o sinal pelo qual o estabelecimento era familiarmente conhecido de seus fregueses: era a taberna em que o sr. Sikes e seu cão já figuraram. Apenas fazendo um sinal a um homem no balcão, Fagin subiu direto as escadas, e abrindo a porta de uma sala, e insinuando-se suavemente na câmara, olhou ansiosamente em volta: protegendo os olhos com a mão, como se em busca de alguma pessoa em particular.
A sala era iluminada por dois lampiões a gás; o brilho dos quais era impedido, pelas persianas gradeadas e cortinas bem fechadas de vermelho desbotado, de ser visível do exterior. O teto estava enegrecido, para evitar que sua cor fosse prejudicada pelo clarão das lâmpadas; e o lugar estava tão cheio de densa fumaça de tabaco, que a princípio mal era possível discernir qualquer outra coisa. Aos poucos, porém, à medida que parte dela se dissipava pela porta aberta, podia-se distinguir um ajuntamento de cabeças, tão confuso quanto os ruídos que saudavam o ouvido; e à medida que o olho se habituava à cena, o espectador gradualmente se dava conta da presença de uma numerosa companhia, masculina e feminina, aglomerada em torno de uma longa mesa: na extremidade superior da qual sentava-se um presidente com um martelo de office na mão; enquanto um cavalheiro profissional de nariz azulado, e o rosto enfaixado por causa de uma dor de dente, presidia a um piano retininte num canto remoto.
Como Fagin entrasse suavemente, o cavalheiro profissional, percorrendo as teclas a modo de prelúdio, provocou um clamor geral de ordem para uma canção; a qual tendo cessado, uma jovem passou a entreter a companhia com uma balada em quatro versos, entre cada um dos quais o acompanhante tocava a melodia inteira, tão alto quanto podia. Quando isso terminou, o presidente propôs um brinde, após o que, o cavalheiro profissional à direita e à esquerda do presidente ofereceu-se para um dueto, e o cantou, com grande aplauso.
Era curioso observar alguns rostos que se destacavam proeminentemente do grupo. Havia o próprio presidente (o dono da casa), um sujeito grosseiro, áspero, de compleição pesada, que, enquanto as canções prosseguiam, rolava os olhos de um lado para outro, e, parecendo entregar-se à jovialidade, tinha um olho para tudo que se fazia, e um ouvido para tudo que se dizia — e agudos, também. Perto dele estavam os cantores: recebendo, com indiferença profissional, os cumprimentos da companhia, e aplicando-se, por sua vez, a uma dúzia de copos de aguardente com água que lhes eram oferecidos por seus admiradores mais ruidosos; cujos semblantes, expressivos de quase todo vício em quase todo grau, atraíam irresistivelmente a atenção, pela própria repulsividade. Astúcia, ferocidade e embriaguez em todos os seus estágios ali estavam, em sua forma mais forte; e mulheres: algumas com o último vestígio de sua frescura juvenil quase desvanecendo à vista; outras com toda marca e traço de seu sexo totalmente apagados, e apresentando apenas um repulsivo vazio de devassidão e crime; algumas meras garotas, outras apenas jovens, e nenhuma além do auge da vida; formavam a porção mais sombria e triste desse quadro lúgubre.
Fagin, não atormentado por emoções graves, olhava ansiosamente de rosto em rosto enquanto esses procedimentos estavam em curso; mas aparentemente sem encontrar aquele que buscava. Conseguindo, afinal, captar o olhar do homem que ocupava a cadeira, acenou-lhe levemente, e deixou a sala, tão quietamente quanto entrara.
— O que posso fazer por vossa mercê, sr. Fagin? — indagou o homem, ao segui-lo para o patamar. — Não se junta a nós? Hão de ficar encantados, todos eles.
O judeu sacudiu a cabeça impacientemente, e disse num sussurro: — Ele está aqui?
— Não — replicou o homem.
— E nenhuma notícia de Barney? — perguntou Fagin.
— Nenhuma — respondeu o dono dos Coxos; pois era ele. — Ele não se mexerá até que esteja tudo seguro. Pode ter certeza, eles estão no rastro por lá; e que se ele se movesse, estragaria tudo num instante. Ele está muito bem, o Barney está, senão eu teria notícias dele. Aposto como o Barney está agindo direito. Deixe com ele.
— Ele estará aqui esta noite? — perguntou o judeu, pondo a mesma ênfase no pronome de antes.
— Monks, quer dizer? — indagou o dono, hesitando.
— Psiu! — disse o judeu. — Sim.
— Certo — respondeu o homem, tirando um relógio de ouro do bolso do colete; — esperava-o aqui antes de agora. Se o senhor esperar dez minutos, ele estará—
— Não, não — disse o judeu, apressado; como se, por mais desejoso que estivesse de ver a pessoa em questão, estivesse não obstante aliviado por sua ausência. — Diga-lhe que vim aqui para vê-lo; e que ele deve vir a mim esta noite. Não, diga amanhã. Como ele não está aqui, amanhã será tempo bastante.
— Bom! — disse o homem. — Mais nada?
— Nem uma palavra agora — disse o judeu, descendo as escadas.
— Digo — disse o outro, debruçando-se sobre o corrimão e falando num sussurro rouco; — que boa hora para um golpe! Tenho o Phil Barker aqui: tão bêbado, que um menino poderia levá-lo!
— Ah! Mas não é a hora do Phil Barker — disse o judeu, olhando para cima. — O Phil tem algo mais a fazer, antes que possamos nos dar ao luxo de nos separar dele; assim volte à companhia, meu caro, e diga-lhes que levem vidas alegres — _enquanto durarem_. Ha! ha! ha!
O dono retribuiu o riso do velho; e voltou aos seus hóspedes. O judeu, tão logo ficou sozinho, seu semblante retomou a anterior expressão de ansiedade e reflexão. Após breve reflexão, chamou um cabriolé de aluguel, e mandou o homem conduzir em direção a Bethnal Green. Dispensou-o a uns quinhentos metros da residência do sr. Sikes, e percorreu a curta distância restante a pé.
— Agora — murmurou o judeu, ao bater à porta — se há aqui algum jogo profundo, hei de arrancá-lo de você, minha moça, por mais astuta que seja.
Ela estava em seu quarto, disse a mulher. Fagin subiu suavemente as escadas, e entrou sem cerimônia prévia. A moça estava sozinha; deitada com a cabeça sobre a mesa, e o cabelo espalhado sobre ela.
— Ela esteve bebendo — pensou o judeu, friamente — ou talvez esteja apenas miserável.
O velho voltou-se para fechar a porta, ao fazer esse raciocínio; o ruído assim ocasionado despertou a moça. Ela fitou seu rosto astuto estreitamente, enquanto ele relatava a história de Toby Crackit. Quando esta terminou, ela recaiu na atitude anterior, mas não proferiu uma palavra. Empurrou a vela impacientemente para longe; e uma ou duas vezes, ao mudar de posição febrilmente, arrastou os pés no chão; mas isso foi tudo.
Durante o silêncio, o judeu olhou inquieto pela sala, como para assegurar-se de que não havia aparências de Sikes ter retornado às escondidas. Aparentemente satisfeito com sua inspeção, tossiu duas ou três vezes, e fez tantos esforços para abrir uma conversa; mas a moça não lhe deu mais atenção do que se ele fosse feito de pedra. Por fim ele fez outra tentativa; e esfregando as mãos, disse, no tom mais conciliatório,
— E onde você diria que o Bill está agora, minha cara?
A moça gemeu alguma resposta meio inteligível, de que não podia dizer; e pareceu, pelo ruído abafado que escapou, estar chorando.
— E o menino, também — disse o judeu, forçando os olhos para vislumbrar o rosto dela. — Coitadinho! Deixado numa vala, Nance; só pense!
— O menino — disse a moça, subitamente erguendo a cabeça — está melhor onde está, do que entre nós; e se nenhum mal vier ao Bill por causa disso, espero que ele jaz morto na vala e que seus ossos jovens apodreçam lá.
— O quê! — exclamou o judeu, espantado.
— Sim, é o que quero — retornou a moça, sustentando seu olhar. — Hei de ficar contente de tê-lo longe de meus olhos, e de saber que o pior passou. Não suporto tê-lo por perto. A vista dele me volta contra mim mesma, e contra todos vocês.
— Pu! — disse o judeu, com escárnio. — Você está bêbada.
— Estou? — exclamou a moça, amargamente. — Não é culpa sua, se não estou! Você nunca me quis outra coisa, se pudesse, exceto agora; — o humor não lhe serve, não é?
— Não! — replicou o judeu, furioso. — Não serve.
— Mude-o, então! — respondeu a moça, com um riso.
— Mudê-lo! — exclamou o judeu, exasperado além de todo limite pela obstinação inesperada da companheira, e pela vexação da noite — eu _hei de_ mudá-lo! Ouça-me, sua desgraçada. Ouça-me, eu que com seis palavras posso estrangular Sikes tão certamente como se tivesse sua garganta de touro entre meus dedos agora. Se ele voltar, e deixar o menino para trás; se ele se livrar livre, e morto ou vivo, falhar em restaurá-lo para mim; mate-o você mesma se quiser que ele escape de Jack Ketch. E faça-o no momento em que ele puser os pés nesta sala, ou saiba, será tarde demais!
— O que é tudo isso? — gritou a moça involuntariamente.
— O que é? — prosseguiu Fagin, louco de raiva. — Quando o menino vale centenas de libras para mim, hei de eu perder a chance que o acaso me pôs ao alcance de obter com segurança, pelos caprichos de uma quadrilha bêbada que eu poderia assobiar a vida fora! E eu ligado, também, a um diabo de nascença que só quer a vontade, e tem o poder de, de—
Ofegante, o velho gaguejou por uma palavra; e nesse instante conteve a torrente de sua ira, e mudou todo seu comportamento. Um momento antes, suas mãos cerradas agarraram o ar; seus olhos dilataram-se; e seu rosto tornou-se lívido de paixão; mas agora, encolheu-se numa cadeira, e, acocorando-se, tremeu com o receio de ter ele mesmo revelado alguma vilania oculta. Após curto silêncio, aventurou-se a olhar em volta para a companheira. Pareceu algo reassegurado, ao ver ela na mesma atitude apática da qual a despertara primeiro.
— Nancy, querida! — crocitou o judeu, na voz habitual. — Me ouviu, querida?
— Não me aborreça agora, Fagin! — replicou a moça, erguendo a cabeça langorosamente. — Se o Bill não fez desta vez, fará outra. Ele tem feito muitos bons serviços para você, e fará muitos mais quando puder; e quando não puder, não fará; assim nada mais sobre isso.
— A respeito desse menino, minha cara? — disse o judeu, esfregando as palmas das mãos nervosamente juntas.
— O menino há de correr sua sorte com os demais — interrompeu Nancy, apressada; — e digo de novo, espero que ele esteja morto, e fora de perigo, e fora da sua — isto é, se o Bill não vier a mal. E se o Toby se livrou limpo, o Bill está bem seguro; pois o Bill vale dois Tobys a qualquer tempo.
— E sobre o que eu estava dizendo, minha cara? — observou o judeu, mantendo o olho brilhante firmemente sobre ela.
— Tem de dizer tudo de novo, se é algo que queira que eu faça — rejovelou Nancy; — e se é, é melhor esperar até amanhã. Você me animou por um minuto; mas agora estou estúpida de novo.
Fagin fez várias outras perguntas: todas com a mesma tendência de averiguar se a moça lucrara com suas dicas descuidadas; mas, ela respondeu-as tão prontamente, e estava aliás tão inteiramente imóvel a seus olhares perscrutadores, que sua impressão original de que ela estava mais do que um tantinho bêbada foi confirmada. Nancy, de fato, não estava isenta de um defeito muito comum entre as alunas femininas do judeu; e no qual, em seus anos mais tenros, eram antes encorajadas do que repreendidas. Sua aparência desordenada, e um perfume indiscriminado de genebra que permeava o aposento, ofereciam forte evidência confirmatória da justiça da suposição do judeu; e quando, após entregar-se à temporária demonstração de violência acima descrita, ela substituiu, primeiro por embotamento, e depois por um composto de sentimentos: sob a influência dos quais chorou num minuto, e no outro deu voz a vários exclamativos de