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Mais adiante, num lugar coberto de grama, havia um grupo de cogumelos que também devorei, e então dei com uma superfície parda de água rasa e corrente, onde antes haviam prados. Esses fragmentos de sustento serviram apenas para aguçar minha fome. A princípio, surpreendi-me com essa inundação num verão quente e seco, mas depois descobri que era causada pela exuberância tropical da erva vermelha. Logo que esse crescimento extraordinário encontrava água, tornava-se imediatamente gigantesco e de fecundidade sem paralelo. Suas sementes eram simplesmente derramadas nas águas do Wey e do Tâmisa, e suas frondes aquáticas, de crescimento rápido e titânico, entupiram logo ambos os rios.
Em Putney, como vi mais tarde, a ponte estava quase perdida num emaranhado dessa erva, e em Richmond também a água do Tâmisa jorrava em um largo e raso fluxo pelos prados de Hampton e Twickenham. À medida que a água se espalhava, a erva a seguia, até que as vilas arruinadas do vale do Tâmisa ficaram por um tempo ocultas nesse pântano vermelho, cuja margem explorei, e grande parte da desolação causada pelos marcianos foi escondida.
No fim, a erva vermelha sucumbiu quase tão rápido quanto se espalhara. Uma doença corrosiva, devida, acredita-se, à ação de certas bactérias, apoderou-se dela em breve. Ora, pela ação da seleção natural, todas as plantas terrestres adquiriram um poder de resistência contra doenças bacterianas — jamais sucumbem sem uma luta severa, mas a erva vermelha apodreceu como coisa já morta. As frondes tornaram-se descoradas, depois murchas e quebradiças. Rompiam ao menor toque, e as águas que estimularam seu crescimento precoce levaram seus últimos vestígios para o mar.
Meu primeiro ato ao chegar a essa água foi, naturalmente, saciar a sede. Bebi bastante dela e, movido por um impulso, roí algumas frondes de erva vermelha; mas eram aquosas e tinham um gosto doentio e metálico. Vi que a água era suficientemente rasa para eu vadear com segurança, embora a erva vermelha impedisse um pouco meus pés; mas a enchente evidentemente ficava mais profunda rumo ao rio, e voltei para Mortlake. Consegui distinguir o caminho por meio de ruínas ocasionais de vilas, cercas e postes, e assim em pouco tempo saí desse fluxo e segui para a colina que sobe em direção a Roehampton, surgindo no campo comum de Putney.
Aqui o cenário mudou do estranho e desconhecido para os destroços do familiar: manchas de terreno exibiam a devastação de um ciclone, e em poucas dezenas de jardas eu dava com espaços perfeitamente intactos, casas com suas persianas bem fechadas e portas cerradas, como se tivessem sido deixadas por um dia pelos donos, ou como se seus habitantes dormissem lá dentro. A erva vermelha era menos abundante; as árvores altas ao longo da viela estavam livres da trepadeira vermelha. Caçei comida entre as árvores, não achando nada, e também saqueei um par de casas silenciosas, mas já tinham sido arrombadas e pilhadas. Descansei pelo resto da luz do dia numa arborização, estando, em minha condição enfraquecida, muito fatigado para seguir adiante.
Todo esse tempo não vi seres humanos, nem sinais dos marcianos. Encontrei um par de cães de ar faminto, mas ambos se afastaram apressados e cautelosos das aproximações que lhes fiz. Perto de Roehampton vira dois esqueletos humanos — não corpos, mas esqueletos, limpos até os ossos — e no bosque perto de mim encontrei ossos esmagados e espalhados de vários gatos e coelhos e o crânio de uma ovelha. Mas embora tenha roído partes desses na boca, nada se podia obter deles.
Após o pôr do sol, lutei para avançar pela estrada em direção a Putney, onde penso que o Raio de Calor deva ter sido usado por alguma razão. E no jardim além de Roehampton consegui uma quantidade de batatas imaturas, suficientes para aplacar minha fome. Daquele jardim avistava-se Putney e o rio lá embaixo. O aspecto do lugar no crepúsculo era singularmente desolado: árvores enegrecidas, ruínas negras e desoladas, e descendo a colina as lâminas do rio inundado, tingidas de vermelho pela erva. E sobre tudo — silêncio. Encheu-me de terror indescritível pensar quão velozmente essa mudança desoladora chegara.
Por um tempo acreditei que a humanidade fora varrida da existência, e que eu ali estava sozinho, o último homem vivo. Junto ao topo de Putney Hill deparei com outro esqueleto, com os braços deslocados e removidos várias jardas do resto do corpo. Ao prosseguir, tornei-me cada vez mais convencido de que o extermínio da humanidade estava, salvo por retardatários como eu, já consumado nesta parte do mundo. Os marcianos, pensei, haviam seguido adiante e deixado o país desolado, buscando comida em outra parte. Talvez agora mesmo estivessem destruindo Berlim ou Paris, ou talvez tivessem ido para o norte.
VII. O HOMEM EM PUTNEY HILL.
Passei aquela noite na estalagem que fica no topo de Putney Hill, dormindo numa cama feita pela primeira vez desde minha fuga para Leatherhead. Não contarei o trabalho desnecessário que tive arrombando aquela casa — depois descobri que a porta da frente estava destrancada — nem como revirei cada cômodo em busca de comida, até à beira do desespero, num que me pareceu ser o quarto de um criado, encontrar uma casca roída por ratos e duas latas de abacaxi. O lugar já fora revistado e esvaziado. No bar encontrei mais tarde alguns biscoitos e sanduíches que haviam sido esquecidos. Estes últimos não pude comer, estavam podres demais, mas os primeiros não só aplacaram minha fome, como encheram meus bolsos. Não acendi lâmpadas, temendo que algum marciano pudesse vir batendo aquela parte de Londres à procura de comida na noite. Antes de ir para a cama tive um intervalo de inquietação, e rondava de janela em janela, espreitando algum sinal desses monstros. Dormi pouco. Deitado na cama, percebi-me pensando consecutivamente — coisa que não me lembro de ter feito desde minha última discussão com o cura. Durante todo o tempo intermediário minha condição mental fora uma sucessão apressada de vagos estados emocionais ou uma espécie de receptividade estúpida. Mas na noite meu cérebro, reforçado, suponho, pela comida que comera, tornou-se claro de novo, e pensei.
Três coisas lutavam pela posse de minha mente: a morte do cura, o paradeiro dos marcianos, e o possível destino de minha esposa. A primeira não me deu sensação de horror ou remorso ao recordar; vi-a simplesmente como algo feito, uma memória infinitamente desagradável mas sem qualidade de remorso. Vi a mim mesmo então como vejo a mim mesmo agora, empurrado passo a passo para aquele golpe apressado, criatura de uma sequência de acidentes levando inevitavelmente a isso. Não senti condenação; ainda assim a memória, estática, sem progresso, assombrava-me. No silêncio da noite, com aquele senso da proximidade de Deus que às vezes vem no silêncio e na escuridão, enfrentei meu julgamento, meu único julgamento, por aquele momento de ira e medo. Retracei cada passo de nossa conversa desde o momento em que o encontrei agachado ao meu lado, alheio à minha sede, apontando para o fogo e a fumaça que subiam das ruínas de Weybridge. Fomos incapazes de cooperação — o acaso sombrio não se importara com isso. Se eu previsse, teria o deixado em Halliford. Mas não previ; e crime é prever e fazer. E registro isto como registrei toda esta história, como foi. Não houve testemunhas — todas essas coisas eu poderia ter ocultado. Mas as registro, e o leitor deve formar seu juízo como quiser.
E quando, por um esforço, deixei de lado aquela imagem de um corpo prostrado, enfrentei o problema dos marcianos e o destino de minha esposa. Para o primeiro não tinha dados; podia imaginar cem coisas, e assim, infelizmente, para o segundo. E de súbito aquela noite tornou-se terrível. Vi-me sentado na cama, fitando a escuridão. Vi-me orando para que o Raio de Calor a tivesse atingido subitamente e sem dor, tirando-a do ser. Desde a noite de meu retorno de Leatherhead não orara. Proferira orações, orações de fetiche, orara como pagãos murmuram encantos quando em extremo; mas agora orei de fato, pleiteando firme e sadamente, face a face com a escuridão de Deus. Estranha noite! E a mais estranha nisto, que tão logo veio a aurora, eu, que falara com Deus, saí rastejando da casa como um rato deixando seu esconderijo — criatura pouco maior, animal inferior, coisa que por qualquer capricho passageiro de nossos senhores poderia ser caçada e morta. Talvez eles também orassem confiantes a Deus. Certamente, se não aprendemos outra coisa, esta guerra nos ensinou piedade — piedade por aquelas almas sem juízo que sofrem nosso domínio.
A manhã estava clara e bela, e o céu oriental brilhava cor-de-rosa, e era rendado por pequenas nuvens douradas. Na estrada que vai do topo de Putney Hill a Wimbledon havia vários pobres vestígios do torrente de pânico que deve ter jorrado para Londres na noite de domingo após o início dos combates. Havia uma pequena carroça de duas rodas inscrita com o nome de Thomas Lobb, Verdureiro, New Malden, com uma roda quebrada e um baú de lata abandonado; havia um chapéu de palha pisoteado na lama agora endurecida, e no topo de West Hill muito vidro manchado de sangue em torno da bebedouro d’água tombada. Meus movimentos eram lânguidos, meus planos do mais vago. Tinha uma ideia de ir a Leatherhead, embora soubesse que ali teria as piores chances de encontrar minha esposa. Certamente, a menos que a morte os tivesse alcançado subitamente, meus primos e ela teriam fugido dali; mas parecia-me que poderia encontrar ou saber lá para onde fugira a gente de Surrey. Sabia que queria achar minha esposa, que meu coração doía por ela e pelo mundo dos homens, mas não tinha ideia clara de como o achado poderia ser feito. Estava também agudamente ciente agora de minha intensa solidão. Do canto fui, sob cobertura de um arvoredo denso e arbustos, até a borda do campo comum de Wimbledon, estendendo-se largo e longe.
Aquela escura extensão era iluminada em trechos por giesta e retama amarelas; não se via erva vermelha, e enquanto rondava, hesitante, à beira do aberto, o sol se levantou, inundando tudo com luz e vitalidade. Deparei com um enxame ocupado de pequenos sapos num lugar pantanoso entre as árvores. Parei para olhá-los, tirando uma lição de sua firme resolução de viver. E logo, virando-me subitamente, com uma estranha sensação de ser observado, avistei algo agachado no meio de um touceiro de arbustos. Fiquei olhando para isso. Dei um passo em sua direção, e ele se ergueu e tornou-se um homem armado com um cutelo. Aproximei-me dele devagar. Ele ficou em silêncio e imóvel, olhando para mim.
Ao chegar mais perto, percebi que vestia roupas tão empoeiradas e imundas quanto as minhas; parecia, de fato, como se tivesse sido arrastado por uma vala. Mais perto, distingui o limo verde de valas misturando-se ao bege pálido de argila seca e manchas brilhantes e carbonizadas. Seus cabelos negros caíam sobre os olhos, e o rosto era escuro, sujo e afundado, de modo que a princípio não o reconheci. Havia um corte vermelho pela parte inferior do rosto.
— Pare! — gritou ele, quando eu estava a dez jardas dele, e parei. Sua voz era rouca. — De onde você vem? — disse.
Pensei, examinando-o.
— Venho de Mortlake — disse. — Fui enterrado perto da cova que os marcianos fizeram em torno de seu cilindro. Abri caminho para fora e escapei.
— Não há comida por aqui — disse ele. — Este é meu país. Toda esta colina até o rio, e de volta a Clapham, e até a borda do campo. Há comida só para um. Para que lado vai?
Respondi devagar.
— Não sei — disse. — Fiquei enterrado nas ruínas de uma casa treze ou catorze dias. Não sei o que aconteceu.
Ele olhou para mim duvidoso, então sobressaltou-se, e olhou com expressão mudada.
— Não tenho vontade de ficar por aqui — disse eu. — Penso que irei a Leatherhead, pois minha esposa estava lá.
Ele atirou um dedo apontando.
— É você — disse ele; — o homem de Woking. E não foi morto em Weybridge?
Reconheci-o no mesmo instante.
— Você é o artilheiro que entrou no meu jardim.
— Boa sorte! — disse ele. — Somos sortudos! Imaginar _você_! — Estendeu uma mão, e eu a tomei. — Rastejei por um esgoto — disse. — Mas eles não mataram todo mundo. E depois que foram embora, segui para Walton pelos campos. Mas—— Não foram ao todo dezesseis dias — e seu cabelo está grisalho. — Olhou por sobre o ombro subitamente. — Só um corvo — disse. — A gente acaba aprendendo que pássaros têm sombras nos dias de hoje. Isto aqui é um pouco aberto. Vamos rastejar sob aqueles arbustos e conversar.
— Viu algum marciano? — disse eu. — Desde que rastejei para fora——
— Foram embora através de Londres — disse ele. — Aposto que têm um acampamento maior lá. De noite, por todo aquele lado, na direção de Hampstead, o céu está vivo com suas luzes. É como uma grande cidade, e no clarão dá para ver eles se movendo. De dia não dá. Mas mais perto — não os vi — (contou nos dedos) — cinco dias. Então vi um par do lado de Hammersmith carregando algo grande. E anteontem à noite — parou e falou impressivamente — foi só uma questão de luzes, mas era algo no ar. Acredito que construíram uma máquina voadora, e estão aprendendo a voar.
Parei, em mãos e joelhos, pois havíamos chegado aos arbustos.
— Voar!
— Sim — disse ele — voar.
Segui para um pequeno bosque e sentei.
— Tudo acabou para a humanidade — disse eu. — Se podem fazer isso, simplesmente darão a volta ao mundo.
Ele assentiu.
— Hão de dar. Mas—— Aliviará um pouco as coisas por aqui. E além disso—— — Olhou para mim. — Não está satisfeito de que _acabou_ para a humanidade? Eu estou. Estamos por baixo; fomos vencidos.
Fitei-o. Estranho como possa parecer, não havia chegado a esse fato — fato perfeitamente óbvio tão logo ele falou. Ainda guardava uma vaga esperança; melhor, mantivera um hábito vitalício de espírito. Ele repetiu as palavras, “Fomos vencidos”. Traziam convicção absoluta.
— Tudo acabou — disse ele. — Perderam _um_ — só _um_. E firmaram pé e aleijaram a maior potência do mundo. Passaram por cima de nós. A morte daquele em Weybridge foi um acidente. E estes são só pioneiros. Continuaram vindo. Essas estrelas verdes — não vi nenhuma nestes cinco ou seis dias, mas não duvido de que caiam em algum lugar toda noite. Nada há a fazer. Estamos subjugados! Fomos vencidos!
Não lhe dei resposta. Fiquei sentado fitando à frente, tentando em vão imaginar algum pensamento compensador.
— Isto não é guerra — disse o artilheiro. — Nunca foi guerra, não mais do que há guerra entre homem e formigas.
Subitamente recordei a noite no observatório.
— Após o décimo tiro não dispararam mais — ao menos, até o primeiro cilindro chegar.
— Como sabe? — disse o artilheiro. Expliquei. Ele pensou. — Algo errado com o canhão — disse. — Mas e daí? Hão de consertá-lo. E mesmo que haja demora, como pode alterar o fim? É só homens e formigas. Há as formigas que constroem suas cidades, vivem suas vidas, têm guerras, revoluções, até que os homens as querem fora do caminho, e então saem. É isso que somos agora — só formigas. Só que——
— Sim — disse eu.
— Somos formigas comestíveis.
Sentamos nos olhando.
— E o que farão conosco? — disse eu.
— É nisso que tenho pensado — disse ele; — é nisso que tenho pensado. Após Weybridge fui para o sul — pensando. Vi o que estava acontecendo. A maioria das pessoas estava ocupada guinchando e se excitando. Mas não gosto muito de guinchar. Já estive à vista da morte uma ou duas vezes; não sou um soldado ornamental, e no melhor e no pior, morte — é só morte. E é o homem que continua pensando que se sai. Vi todos seguindo para o sul. Digo eu, ‘comida não vai durar assim’, e virei de volta. Fui para cima dos marcianos como um pardal vai para cima do homem. Por toda parte — acenou com a mão para o horizonte — estão morrendo de fome em montões, fugindo, pisando uns nos outros. . . .
Ele viu meu rosto, e parou desajeitado.
— Sem dúvida muitos que tinham dinheiro foram para a França — disse. Pareceu hesitar se devia se desculpar, encontrou meus olhos, e prosseguiu: — Há comida por todo lado aqui. Coisas enlatadas em lojas; vinhos, destilados, águas minerais; e as tubulações e esgotos estão vazios. Bem, eu lhe contava no que pensava. ‘Aqui estão coisas inteligentes’, disse, ‘e parece que nos querem para comida. Primeiro, vão nos esmagar — navios, máquinas, canhões, cidades, toda a ordem e organização. Tudo isso vai embora. Se fôssemos do tamanho de formigas, poderíamos nos virar. Mas não somos. É tudo volumoso demais para parar. Essa é a primeira certeza.’ É?
Assenti.
— É; pensei bem. Muito bem, então — próximo; por ora somos apanhados como querem. Um marciano só precisa ir alguns quilômetros para botar uma multidão em fuga. E vi um, um dia, lá por Wandsworth, desmontando casas e revirando os destroços. Mas não vão continuar fazendo isso. Tão logo resolvam todos os nossos canhões e navios, e quebrem nossas ferrovias, e façam todas as coisas que estão fazendo por lá, vão começar a nos capturar sistematicamente, escolhendo os melhores e guardando-nos em jaulas e tais. É isso que vão começar a fazer logo. Senhor! Ainda não começaram conosco. Não vê isso?
— Não começaram! — exclamei.
— Não começaram. Tudo que aconteceu até agora é por não termos o senso de ficar quietos — incomodando-os com canhões e tolices assim. E perdendo a cabeça, e correndo em multidões para onde não havia mais segurança do que onde estávamos. Eles não querem se incomodar conosco ainda. Estão fazendo suas coisas — fazendo todas as coisas que não puderam trazer, preparando tudo para o resto do povo deles. Muito provável que por isso os cilindros pararam um pouco, com medo de atingir os que estão aqui. E em vez de corrermos às cegas, aos berros, ou pegarmos dinamite na esperança de estourá-los, temos de nos arranjar conforme o novo estado de coisas. É assim que figuro. Não é bem de acordo com o que um homem quer para sua espécie, mas é mais ou menos para onde os fatos apontam. E é o princípio que adotei. Cidades, nações, civilização, progresso — acabou tudo. Esse jogo acabou. Fomos vencidos.
— Mas se é assim, para que viver?
O artilheiro olhou para mim por um momento.
— Não haverá mais benditos concertos por um milhão de anos ou mais; não haverá Real Academia de Artes, e nem refeições agradáveis em restaurantes. Se é diversão que procura, imagino que o jogo acabou. Se tem maneiras de salão ou aversão a comer ervilhas com faca ou a perder o ‘h’, é melhor jogá-las fora. Não têm mais uso.
— Quer dizer——
— Quero dizer que homens como eu vão continuar vivendo — pela raça. Digo a você, estou decidido a viver. E se não me engano, você também mostrará que _brio_ tem, em breve. Não seremos exterminados. E não pretendo ser apanhado também, e domesticado e engordado e criado como um maldito boi. Ugh! Imaginar aquelas rastejantes castanhas!
— Não quer dizer que——
— Digo. Vou seguir, sob os pés deles. Já planejei; pensei tudo. Nós, homens, fomos vencidos. Não sabemos o bastante. Temos de aprender antes de ter uma chance. E temos de viver e manter independentes enquanto aprendemos. Vê! Isso é o que tem de ser feito.
Fitei, espantado, e profundamente comovido pela resolução do homem.
— Meu Deus! — exclamei. — Mas você é de fato um homem! — E de súbito apertei sua mão.
— É! — disse ele, com os olhos brilhando. — Pensei tudo, é?
— Continue — disse eu.