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O colosso decapitado cambaleou como um gigante embriagado; mas não caiu. Recuperou o equilíbrio por um milagre e, já não cuidando dos passos e com a câmara que disparava o Raio de Calor agora rigidamente erguida, cambaleou velozmente em direção a Shepperton. A inteligência viva, o marciano dentro do capuz, fora morta e espirrada aos quatro ventos do céu, e a Coisa não era agora senão um mero intrincado artefato de metal girando para a destruição. Avançou em linha reta, incapaz de ser guiada. Atingiu a torre da Igreja de Shepperton, demolindo-a como o impacto de um aríete poderia ter feito, desviou de lado, tropeçou adiante e colapsou com tremenda força no rio, fora de minha vista.
Uma violenta explosão abalou o ar, e um jato de água, vapor, lama e metal estilhaçado disparou alto no céu. Quando a câmara do Raio de Calor atingiu a água, esta instantaneamente se transformou em vapor. Num outro momento, uma enorme onda, como uma pororoca lamacenta mas quase escaldante, veio varrendo a curva rio acima. Vi pessoas lutando em direção à margem, e ouvi seus gritos e berros fracamente acima do sibilar e rugir do colapso do marciano.
Por um momento não dei atenção ao calor, esqueci a patente necessidade de autopreservação. Esbracejei através da água tumultuosa, empurrando de lado um homem de preto para fazê-lo, até que pude ver além da curva. Meia dúzia de barcos abandonados balançava sem rumo sobre a confusão das ondas. O marciano caído surgiu à vista rio abaixo, jazendo atravessado sobre o rio, e na maior parte submerso.
Espessas nuvens de vapor jorravam dos destroços, e através dos redemoinhos turbulentos eu podia ver, intermitente e vagamente, os gigantescos membros agitando a água e lançando respingos e espuma de lama ao ar. Os tentáculos balançavam e golpeavam como braços vivos e, salvo pela inútil despropositura desses movimentos, era como se alguma coisa ferida estivesse lutando por sua vida em meio às ondas. Enormes quantidades de um fluido castanho-avermelhado jorravam em ruidosos jatos para fora da máquina.
Minha atenção foi desviada desse estertor de morte por um furioso uivo, como o da coisa chamada sirene em nossas cidades manufatureiras. Um homem, com água até os joelhos perto da trilha de reboque, gritou inaudivelmente para mim e apontou. Olhando para trás, vi os outros marcianos avançando com passadas gigantescas pela margem do rio na direção de Chertsey. As armas de Shepperton desta vez falharam inutilmente.
Com isso, mergulhei de imediato sob a água, e, contendo a respiração até que o movimento era uma agonia, avancei dolorosamente sob a superfície tanto quanto pude. A água estava em tumulto à minha volta, e rapidamente ficando mais quente.
Quando por um momento ergui a cabeça para respirar e lançar o cabelo e a água dos olhos, o vapor subia em uma névoa branca rodopiante que a princípio escondeu os marcianos por completo. O ruído era ensurdecedor. Então os vi vagamente, figuras colossais de cinza, ampliadas pela névoa. Tinham passado por mim, e dois se curvavam sobre as espumantes e tumultuadas ruínas de seu companheiro.
O terceiro e o quarto estavam ao lado dele na água, um talvez a duzentos metros de mim, o outro em direção a Laleham. Os geradores dos Raios de Calor oscilavam ao alto, e os feixes sibilantes golpeavam para cá e para lá.
O ar estava cheio de som, um ensurdecedor e confuso conflito de ruídos — o clangoroso barulho dos marcianos, o estrondo de casas caindo, o baque de árvores, cercas, barracos incendiando-se em chamas, e o crepitar e rugir do fogo. Denso fumo negro saltava para se misturar com o vapor do rio, e conforme o Raio de Calor ia e vinha sobre Weybridge seu impacto era marcado por clarões de branco incandescente, que davam lugar de imediato a uma fumacenta dança de chamas lúgubres. As casas mais próximas ainda permaneciam intactas, aguardando seu destino, sombrias, pálidas e frouxas no vapor, com o fogo atrás delas indo e vindo.
Por um momento talvez fiquei ali, com o peito acima da água quase fervente, atônito com minha posição, sem esperança de fuga. Através da fumaça podia ver as pessoas que estiveram comigo no rio esgueirando-se para fora da água através dos juncos, como pequenos sapos apressando-se pela grama ante o avanço de um homem, ou correndo para lá e para cá em total desespero na trilha de reboque.
Então de súbito os clarões brancos do Raio de Calor vieram saltando em minha direção. As casas desabaram ao se dissolver ao seu toque, e lançaram chamas; as árvores mudaram a fogo com um rugido. O Raio oscilou para cima e para baixo na trilha de reboque, lambendo as pessoas que corriam para cá e para lá, e desceu até a margem d'água a menos de cinquenta metros de onde eu estava. Varreu através do rio em direção a Shepperton, e a água em seu rastro ergueu-se em uma fervente crista coroada de vapor. Virei-me para a margem.
Num outro momento a enorme onda, quase no ponto de ebulição, havia se lançado sobre mim. Gritei em voz alta, e escaldado, meio cego, agonizante, titubeei através da água saltitante e sibilante em direção à margem. Se meu pé tropeçasse, teria sido o fim. Caí sem defesa, à plena vista dos marcianos, sobre a larga e nua língua de terra de cascalho que desce para marcar o ângulo do Wey e do Tâmisa. Não esperava nada além da morte.
Tenho uma vaga memória do pé de um marciano descendo a uma vintena de jardas de minha cabeça, cravando-se direto no cascalho solto, girando-o para cá e para lá e erguendo-o de novo; de uma longa suspensão, e então dos quatro carregando os destroços de seu companheiro entre si, ora claros e então logo frouxos através de um véu de fumaça, recuando interminavelmente, como me pareceu, através de um vasto espaço de rio e prado. E então, muito lentamente, percebi que por um milagre eu havia escapado.
XIII. COMO ME DEPARO COM O CURA.
Após receber esta súbita lição sobre o poder das armas terrestres, os marcianos recuaram para sua posição original em Horsell Common; e em sua pressa, e sobrecarregados com os destroços de seu companheiro destroçado, sem dúvida ignoraram muita vítima errante e desprezível como eu. Tivessem eles deixado seu companheiro e avançado de imediato, não havia nada naquele momento entre eles e Londres senão baterias de canhões de doze libras, e certamente teriam alcançado a capital adiante das notícias de sua aproximação; tão súbito, terrível e destrutivo seu advento teria sido quanto o terremoto que destruiu Lisboa há um século.
Mas eles não tinham pressa. Cilindro seguia cilindro em seu voo interplanetário; cada vinte e quatro horas lhes trazia reforço. E enquanto isso as autoridades militares e navais, agora plenamente conscientes do tremendo poder de seus antagonistas, trabalhavam com furiosa energia. A cada minuto um novo canhão entrava em posição até que, antes do crepúsculo, cada bosque, cada fileira de vilas suburbanas nas encostas montanhosas ao redor de Kingston e Richmond, mascarava um expectante cano negro. E através da área carbonizada e desolada — talvez vinte milhas quadradas ao todo — que circundava o acampamento marciano em Horsell Common, através de vilarejos queimados e arruinados entre as árvores verdes, através das arcadas enegrecidas e fumegantes que tinham sido até um dia antes pinheirais, rastejavam os dedicados batedores com os heliógrafos que em breve haveriam de alertar os artilheiros sobre a aproximação marciana. Mas os marcianos agora compreendiam nosso comando da artilharia e o perigo da proximidade humana, e nenhum homem se aventurava a uma milha de qualquer cilindro, salvo ao preço de sua vida.
Parece que esses gigantes passaram a primeira parte da tarde indo e vindo, transferindo tudo do segundo e terceiro cilindros — o segundo em Addlestone Golf Links e o terceiro em Pyrford — para seu poço original em Horsell Common. Sobre isso, acima da urze enegrecida e dos prédios arruinados que se estendiam ao longe, postava-se um como sentinela, enquanto o resto abandonava suas vastas máquinas de combate e descia ao poço. Trabalharam arduamente ali até altas horas da noite, e a coluna elevada de densa fumaça verde que dali se erguia podia ser vista das colinas ao redor de Merrow, e até, dizem, de Banstead e Epsom Downs.
E enquanto os marcianos atrás de mim assim se preparavam para sua próxima investida, e à minha frente a Humanidade se reunia para a batalha, fiz meu caminho com infinita dor e labor, saindo do fogo e da fumaça da queimada Weybridge em direção a Londres.
Vi um barco abandonado, muito pequeno e remoto, à deriva rio abaixo; e lançando fora a maior parte de minhas roupas encharcadas, fui atrás dele, alcancei-o, e assim escapei daquela destruição. Não havia remos no barco, mas consegui remar, tanto quanto minhas mãos meio cozidas permitiam, rio abaixo em direção a Halliford e Walton, indo muito tediosamente e continuamente olhando para trás, como bem pode entender. Segui o rio, porque considerei que a água me dava minha melhor chance de fuga caso esses gigantes retornassem.
A água quente da derrocada do marciano derivou rio abaixo comigo, de modo que pela maior parte de uma milha pude ver pouco de qualquer margem. Uma vez, contudo, distingui uma fileira de figuras negras apressando-se através dos prados na direção de Weybridge. Halliford, ao que parecia, estava deserta, e várias das casas de frente para o rio estavam em chamas. Era estranho ver o lugar bastante tranquilo, bastante desolado sob o quente céu azul, com a fumaça e pequenos fios de chama subindo direto para o calor da tarde. Nunca antes vira casas queimando sem o acompanhamento de uma multidão obstrucionista. Um pouco mais adiante os juncos secos na margem fumegavam e brilhavam, e uma linha de fogo para o interior marchava firmemente através de um tardio campo de feno.
Por muito tempo fiquei à deriva, tão doloroso e cansado estava após a violência pela qual passara, e tão intenso o calor sobre a água. Então meus temores voltaram a prevalecer, e retomei meus remos. O sol escaldava minhas costas nuas. Por fim, quando a ponte em Walton começava a surgir à vista além da curva, minha febre e fraqueza venceram meus temores, e desembarquei na margem de Middlesex e deitei-me, mortalmente doente, no meio da grama alta. Suponho que a hora fosse então cerca de quatro ou cinco. Levantei-me logo depois, caminhei talvez meia milha sem encontrar alma viva, e então deitei-me novamente à sombra de uma sebe. Parece-me lembrar de ter falado, divagando, comigo mesmo durante esse último esforço. Também estava muito sedento, e amargamente arrependido de não ter bebido mais água. É curioso que sentisse raiva de minha esposa; não consigo explicar, mas meu impotente desejo de alcançar Leatherhead me preocupava excessivamente.
Não recordo claramente a chegada do cura, de modo que provavelmente cochilei. Tomei consciência dele como uma figura sentada em mangas de camisa sujas de fuligem, e com seu rosto limpo e barbado voltado para cima fitando um frouxo cintilar que dançava sobre o céu. O céu era o que se chama de céu de cavala — fileiras e fileiras de frouxas plumas de nuvem, apenas tingidas pelo entardecer de meio-verão.
Sentei-me, e ao ruído de meu movimento ele me olhou rapidamente.
— Tem alguma água? — perguntei abruptamente.
Ele sacudiu a cabeça.
— Você tem pedido água na última hora — disse ele.
Por um momento ficamos em silêncio, avaliando um ao outro. Ouso dizer que ele me achou uma figura bastante estranha, nu, salvo por minhas calças e meias encharcadas, escaldado, e meu rosto e ombros enegrecidos pela fumaça. Seu rosto era uma fraqueza clara, seu queixo recuado, e seu cabelo repousava em cachos crespos, quase loiros, em sua baixa testa; seus olhos eram um tanto grandes, azul-pálidos, e fitavam em branco. Ele falou abruptamente, olhando vagamente para longe de mim.
— O que significa isso? — disse ele. — O que significam essas coisas?
Fitei-o e não dei resposta.
Ele estendeu uma mão branca e fina e falou em tom quase queixoso.
— Por que essas coisas são permitidas? Que pecados cometemos? O culto matinal havia terminado, eu caminhava pelas estradas para clarear o cérebro para a tarde, e então — fogo, terremoto, morte! Como se fosse Sodoma e Gomorra! Todo o nosso trabalho desfeito, todo o trabalho — Que são esses marcianos?
— O que somos nós? — respondi, limpando a garganta.
Ele agarrou os joelhos e voltou a olhar para mim. Por meio minuto, talvez, fitou em silêncio.
— Eu caminhava pelas estradas para clarear o cérebro — disse ele. — E de súbito — fogo, terremoto, morte!
Ele recaiu em silêncio, com o queixo agora afundado quase aos joelhos.
Logo depois começou a acenar com a mão.
— Todo o trabalho — todas as escolas dominicais — O que fizemos — o que fez Weybridge? Tudo ido — tudo destruído. A igreja! Nós a reconstruímos há só três anos. Idas! Varridas da existência! Por quê?
Outra pausa, e ele irrompeu novamente como um demente.
— A fumaça de sua queima sobe para todo o sempre! — gritou ele.
Seus olhos flamejaram, e ele apontou um magro dedo na direção de Weybridge.
Por essa altura eu começava a medi-lo. A tremenda tragédia na qual se vira envolvido — era evidente que era um fugitivo de Weybridge — o levara à própria borda da razão.
— Estamos longe de Sunbury? — disse eu, em tom prosaico.
— O que havemos de fazer? — perguntou ele. — Estão essas criaturas por toda parte? A terra foi entregue a elas?
— Estamos longe de Sunbury?
— Só esta manhã oficiei a celebração matinal —
— As coisas mudaram — disse eu, quietamente. — Você deve manter a cabeça. Ainda há esperança.
— Esperança!
— Sim. Esperança abundante — para toda essa destruição!
Comecei a explicar minha visão de nossa posição. Ele ouviu a princípio, mas conforme eu prosseguia o interesse despontando em seus olhos deu lugar ao seu antigo olhar fixo, e sua atenção desviou-se de mim.
— Este deve ser o princípio do fim — disse ele, interrompendo-me. — O fim! O grande e terrível dia do Senhor! Quando os homens hão de clamar aos montes e às rochas que caiam sobre eles e os escondessem — escondessem da face daquele que está assentado sobre o trono!
Comecei a entender a posição. Cessei meu laborioso raciocínio, lutei para me pôr de pé, e, em pé sobre ele, pus minha mão em seu ombro.
— Seja um homem! — disse eu. — Você está apavorado fora de juízo! De que serve a religião se colapsa sob a calamidade? Pense no que terremotos e inundações, guerras e vulcões, já fizeram antes aos homens! Pensou que Deus havia isentado Weybridge? Ele não é um agente de seguros.
Por um tempo ele sentou em silêncio total.
— Mas como podemos escapar? — perguntou, de súbito. — Eles são invulneráveis, são impiedosos.
— Nem uma coisa nem, talvez, a outra — respondi. — E quanto mais poderosos são, mais sãos e cautelosos devemos ser. Um deles foi morto ali há não três horas.
— Morto! — disse ele, olhando ao redor. — Como podem ser mortos os ministros de Deus?
— Vi acontecer. — Procedi a contar-lhe. — Tivemos o azar de cair no meio disso — disse eu — e é só.
— O que é aquele cintilar no céu? — perguntou ele abruptamente.
Disse-lhe que era o heliógrafo sinalizando — que era o sinal de ajuda e esforço humano no céu.
— Estamos no meio disso — disse eu — quieto como está. Aquele cintilar no céu fala da tempestade que se junta. Ali, creio eu, estão os marcianos, e em direção a Londres, onde aquelas colinas se erguem ao redor de Richmond e Kingston e as árvores dão cobertura, trincheiras estão sendo levantadas e canhões sendo postos. Em breve os marcianos voltarão a vir por este caminho.
E mesmo enquanto eu falava ele saltou aos pés e me deteve com um gesto.
— Escute! — disse ele.
Do além das baixas colinas através da água veio a surda ressonância de canhões distantes e um remoto e estranho clamor. Então tudo ficou quieto. Um besouro passou zumbindo sobre a sebe e por nós. Alto a oeste a lua crescente pendia frouxa e pálida acima da fumaça de Weybridge e Shepperton e do quente e imóvel esplendor do entardecer.
— É melhor seguirmos esta trilha — disse eu — para o norte.
XIV. EM LONDRES.
Meu irmão mais novo estava em Londres quando os marcianos caíram em Woking. Ele era um estudante de medicina preparando-se para um iminente exame, e não ouviu falar da chegada até a manhã de sábado. Os jornais matinais de sábado continham, além de longos artigos especiais sobre o planeta Marte, sobre a vida nos planetas, e assim por diante, um breve e vagamente redigido telegrama, tanto mais marcante por sua brevidade.
Os marcianos, alarmados pela aproximação de uma multidão, haviam matado várias pessoas com um canhão de tiro rápido, dizia a história. O telegrama concluía com as palavras: "Formidáveis como parecem ser, os marcianos não se moveram do poço no qual caíram, e, de fato, parecem incapazes de fazê-lo. Provavelmente isso se deve à relativa força da energia gravitacional da terra." Sobre esse último texto seu editorialista se estendeu muito reconfortantemente.
Claro que todos os estudantes da classe de biologia do cursinho, à qual meu irmão ia naquele dia, estavam intensamente interessados, mas não havia sinais de qualquer excitação incomum nas ruas. Os jornais da tarde sopravam fragmentos de notícias sob grandes manchetes. Não tinham nada a contar além dos movimentos de tropas ao redor do common, e o queimar dos pinheiros entre Woking e Weybridge, até às oito. Então o _St. James's Gazette_, numa edição extra-especial, anunciou o nu fact de interrupção da comunicação telegráfica. Isso se pensava dever à queda de pinheiros em chamas sobre a linha. Nada mais do combate se soube naquela noite, a noite de minha carreira a Leatherhead e volta.
Meu irmão não sentiu ansiedade por nós, pois sabia pela descrição nos jornais que o cilindro ficava boas duas milhas de minha casa. Decidiu descer naquela noite até mim, a fim de, como diz ele, ver as Coisas antes que fossem mortas. Despachou um telegrama, que nunca me chegou, por volta das quatro, e passou a noite num music hall.
Em Londres, também, na noite de sábado houve uma tempestade, e meu irmão alcançou Waterloo num cab. Na plataforma de onde o trem da meia-noite costuma partir ele soube, após alguma espera, que um acidente impedia trens de alcançar Woking naquela noite. A natureza do acidente ele não pôde averiguar; de fato, as autoridades ferroviárias não sabiam claramente naquele momento. Havia muito pouca excitação na estação, pois os oficiais, falhando em perceber que qualquer coisa além de uma quebra entre Byfleet e Woking junction ocorrera, estavam fazendo circular os trens de teatro que usualmente passavam por Woking via Virginia Water ou Guildford. Estavam ocupados fazendo os arranjos necessários para alterar a rota dos passeios da Liga Dominical de Southampton e Portsmouth. Um repórter noturno, tomando meu irmão pelo gerente de tráfego, a quem ele tem leve semelhança, abordou-o e tentou entrevistá-lo. Poucas pessoas, exceto os oficiais ferroviários, ligaram a quebra àquela com os marcianos.
Li, em outro relato desses eventos, que na manhã de domingo "toda Londres foi eletrizada pelas notícias de Woking". Como matéria de fato, não havia nada que justificasse essa frase tão extravagante. Muitos londrinos não ouviram falar dos marcianos até o pânico de segunda de manhã. Aqueles que ouviram levaram algum tempo para perceber tudo que os telegramas apressadamente redigidos nos jornais de domingo convey. A maioria das pessoas em Londres não lê jornais de domingo.
O hábito da segurança pessoal, além disso, está tão profundamente fixado na mente do londrino, e inteligência alarmante é tão matéria de curso nos jornais, que podiam ler sem qualquer tremor pessoal: "Cerca de sete horas da noite passada os marcianos saíram do cilindro, e, movendo-se sob uma armadura de escudos metálicos, destruíram completamente a estação de Woking com as casas adjacentes, e massacraram um batalhão inteiro do Regimento Cardigan. Nenhum detalhe é conhecido. Metralhadoras Maxim têm sido absolutamente inúteis contra sua armadura; as peças de campo foram desabilitadas por eles. Hussardos a cavalo têm galopado para Chertsey. Os marcianos parecem mover-se lentamente em direção a Chertsey ou Windsor. Grande ansiedade prevalece no oeste de Surrey, e trincheiras estão sendo levantadas para checar o avanço em direção a Londres." Foi assim que o _Sunday Sun_ colocou, e um artigo de "manual" astuto e notavelmente pronto no _Referee_ comparou o caso a uma menagerie subitamente solta numa vila.
Ninguém em Londres sabia positivamente da natureza dos marcianos blindados, e ainda havia uma ideia fixa de que esses monstros deviam ser lentos: "rastejando", "avançando dolorosamente" — tais expressões ocorriam em quase todos os primeiros relatos. Nenhum dos telegramas poderia ter sido escrito por uma testemunha ocular de seu avanço. Os jornais de domingo imprimiram edições separadas conforme mais notícias chegavam, alguns mesmo na falta delas. Mas não havia praticamente nada mais a contar às pessoas até tarde da tarde, quando as autoridades deram às agências de imprensa as notícias em seu poder. Dizia-se que o povo de Walton e Weybridge, e todo o distrito estavam derramando-se pelas estradas em direção a Londres, e era só.
Meu irmão foi à igreja no Foundling Hospital de manhã, ainda em ignorância do que acontecera na noite anterior. Ali ouviu alusões feitas à invasão, e uma oração especial pela paz. Saindo, comprou um _Referee_. Ficou alarmado com as notícias nele, e foi novamente à estação de Waterloo para descobrir se a comunicação fora restaurada. Os ônibus, carruagens, ciclistas, e inumeráveis pessoas caminhando em suas melhores roupas pareciam escassamente afetados pela estranha inteligência que os jornaleiros disseminavam. As pessoas estavam interessadas, ou, se alarmadas, alarmadas apenas por conta dos moradores locais. Na estação ouviu pela primeira vez que as linhas de Windsor e Chertsey estavam agora interrompidas. Os carregadores disseram-lhe que vários telegramas notáveis haviam sido recebidos na manhã de Byfleet e Chertsey, mas que estes cessaram abruptamente. Meu irmão conseguiu extrair muito pouco detalhe preciso deles.
— Há luta acontecendo perto de Weybridge — foi a extensão de sua informação.
O serviço de trens estava agora muito desorganizado. Bastante número de pessoas que esperavam amigos de lugares na rede do Sudoeste estavam em pé ao redor da estação. Um velho cavalheiro de cabelos grisalhos veio e amaldiçoou a Companhia do Sudoeste amargamente a meu irmão. "Precisa ser exposta" — disse ele.
Um ou dois trens chegaram de Richmond, Putney, e Kingston, contendo pessoas que tinham saído para um dia de barco e acharam as eclusas fechadas e um sentimento de pânico no ar. Um homem num blazer azul e branco dirigiu-se a meu irmão, cheio de estranhas novidades.
— Há multidões de pessoas entrando em Kingston em trapilhas e carroças e tais, com caixas de objetos de valor e tudo mais — disse ele. — Vêm de Molesey e Weybridge e Walton, e dizem que houve canhões ouvidos em Chertsey, fogo pesado, e que soldados montados lhes disseram para saírem imediatamente porque os marcianos estão vindo. Ouvimos canhões disparando na estação de Hampton Court, mas pensamos que fosse trovão. Que diabos significa tudo isso? Os marcianos não podem sair do poço, podem?
Meu irmão não pôde lhe dizer.