CHAPTER XXII—THE LITTLE ONE WHO WAS CRYING IN VOLUME TWO
No dia seguinte àquele em que estes acontecimentos se deram na casa do Boulevard de l’Hôpital, uma criança, que parecia vir da direção da ponte de Austerlitz, subia a viela lateral à direita, em direção à Barrière de Fontainebleau.
A noite havia caído por completo.
O rapaz era pálido, magro, vestido em farrapos, com calças de linho no mês de fevereiro, e cantava a plenos pulmões.
Na esquina da Rue du Petit-Banquier, uma velha curvada remexia um monte de lixo à luz de um lampião de rua; a criança esbarrou nela ao passar, depois recuou, exclamando:
— Olá! E pensei que fosse um cão enorme, enorme!
Pronunciou a palavra _enorme_ pela segunda vez com uma inflexão jocosa e exagerada na voz, que se poderia representar razoavelmente por maiúsculas: “um cão enorme, ENORME.”
A velha endireitou-se furiosa.
— Pirralho impertinente! — resmungou. — Se eu não estivesse curvada, sabia bem onde lhe plantaria o pé.
O rapaz já estava longe.
— Xô! Xô! — gritou ele. — Depois disso, acho que não me enganei!
A velha, sufocada de indignação, ergueu-se agora completamente, e o clarão vermelho do lampião iluminou todo o seu rosto lívido, todo encovado em ângulos e rugas, com pés de galinha encontrando os cantos da boca.
O corpo perdia-se na escuridão, e apenas a cabeça era visível. Ter-se-ia dito uma máscara da Decrepitude esculpida por uma luz da noite.
O rapaz examinou-a.
— Madame, — disse ele, — não possui o estilo de beleza que me agrada.
Em seguida, prosseguiu seu caminho e retomou a canção:
“Le roi Coupdesabot S’en allait à la chasse, À la chasse aux corbeaux—”
No final destes três versos, fez uma pausa. Chegara em frente ao número 50-52 e, encontrando a porta fechada, começou a atacá-la com pontapés sonoros e heroicos, que traíam antes os sapatos de homem que calçava do que os pés de criança que possuía.
Enquanto isso, a velhíssima mulher que ele encontrara na esquina da Rue du Petit-Banquier apressou-se atrás dele, soltando gritos clamorosos e indulgentes em gestos pródigos e exagerados.
— O que é isso? O que é isso? Meu Deus! Ele está arrombando a porta! Está derrubando a casa!
Os pontapés continuaram.
A velha forçou os pulmões.
— É assim que se tratam os edifícios hoje em dia?
De repente, fez uma pausa.
Reconhecera o gamenho.
— Quê! Então é esse malandro!
— Ora, é a velha senhora — disse o rapaz. — Bom dia, Bougonmuche. Vim visitar os meus antepassados.
A velha respondeu com uma careta composta e uma maravilhosa improvisação de ódio aproveitando a fraqueza e a feiura, que, infelizmente, se perdia na escuridão:
— Não há ninguém aqui.
— Ora! — retorquiu o rapaz. — Onde está o meu pai?
— Em La Force.
— Deixe estar! E a minha mãe?
— Em Saint-Lazare.
— Bem! E as minhas irmãs?
— Nas Madelonnettes.
O rapaz coçou a cabeça atrás da orelha, encarou a Sra. Bougon e disse:
— Ah!
Em seguida, deu uma pirueta sobre o calcanhar; um momento depois, a velha, que permanecera na soleira, ouviu-o cantar em sua voz clara e jovem, enquanto mergulhava sob os negros ulmeiros, no vento invernal:
“Le roi Coupdesabot S’en allait à la chasse, À la chasse aux corbeaux, Monté sur deux échasses. Quand on passait dessous, On lui payait deux sous.” [31]
[FIM DO VOLUME III “MÁRIUS”]
“Stories of the world, in your language.”